Crimes do regime militar-fascista: o sempre dizível poder da memória (última parte)

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(...) Enquanto a obra de Bruno Barreto foi criticada (por parentes de vítimas, que abriram processo judicial contra ele), outros filmes abordando o regime militar-fascista foram bem recebidos. Vários tinham o foco direcionado aos familiares, que apareciam muitas vezes como protagonistas.

Zuzu Angel, de Sérgio Rezende, lançado em 2006, foi um deles.

Acervo Familiar
Ana Rosa Kucinski foi vista pela última vez em 1974 (Acervo Familiar)
Ana Rosa Kucinski foi vista pela última vez em 1974

A produção narra a história de Zuleika Angel Jones, uma estilista de moda mais conhecida como Zuzu, do Rio de Janeiro, que morreu num acidente de carro forjado pelos militares. Eles queriam se ver livres daquela mulher, daquela mãe incômoda, que teimava em investigar o sumiço de seu filho Stuart Angel Jones. O rapaz, militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), foi clandestinamente preso, torturado, morto e desaparecido durante o regime militar-fascista.

Em busca do filho, sem nunca desistir, Zuzu começou a reunir diversos documentos e indícios/provas do atuar criminoso do corrupto regime. Quando ela já tinha certeza do destino cruel do filho, e da culpa dos militares nele, sofreu um suspeitíssimo acidente no qual perdeu a vida.

Familiares em tinta e papel

Os parentes das vítimas também são responsáveis por milhares de páginas publicadas em livros, muitos deles conjuntos de textos que certamente estão entre os mais importantes da vida do Brasil contemporâneo. Impossível citar todos, pois é tema vastíssimo que, por exemplo, virou até trabalho de conclusão de curso na Universidade Técnica Federal do Paraná em 2015. O título é A Representação da Ditadura na Literatura e a autora é Amanda Arruda Venci Araújo. O universo de Amanda ultrapassa o âmbito dos familiares como autores literários, mesmo assim nos interessa aqui, inclusive porque diz o trabalho num certo trecho:

“Uma das mães do esquecimento é a Anistia. Para Ricoeur, 2008, a proximidade mais que fonética e até mesmo semântica entre as palavras anistia e amnésia aponta para a existência de um pacto secreto com a denegação da memória, que na verdade a afasta do perdão após ter proposto sua simulação”.

Na impossibilidade de listar a numerosa quantidade de livros, feitos por parentes ou sobre parentes, mencionamos pelo menos um dos mais famosos: K - Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, lançado em 2014.

Trata-se de um documentário embalado quase como uma obra de ficção. Diz a curiosa frase de abertura: “Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”. Apresenta K, imigrante judeu, que se vê em abril de 1974 diante da súbita ausência da filha, professora universitária.

A moça desaparecida, Ana Rosa Kucinski Silva, que é identificada no livro apenas como A, é irmã de Bernardo. Uma das passagens mais chamativas da história é quando o autor conta que, numa reunião com certo grupo de familiares de desaparecidos políticos, aproxima-se uma mulher que afirma ser cunhada de A.

Só então, diz o texto, K percebeu a vastidão da outra vida oculta da filha e descobre que ela era casada. Seu marido, também desaparecido, era dono de uma biblioteca recheada de livros revolucionários. Por meio de um primo, fica sabendo que o casal vivia uma vida dupla, envolvido na luta clandestina contra o regime.

Mas o luto de K e de sua família teve desdobramentos ainda piores, se isso é possível. Sem ter a presença do corpo, um rabino não aceitou fazer uma lápide com o nome da moça desaparecida. Sem poder contar com tal registro, K pensou em compor um pequeno escrito de memórias, que seria algo como uma lápide em forma de livro. Mas nenhuma gráfica quis imprimi-lo, por medo de que os milicos interpretassem aquilo como cumplicidade em subversão.

Os testemunhos

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Outro tipo de livro escrito por parentes foi o testemunhal.

Em um deles, que saiu publicado em 2009, Janaína de Almeida Teles traz depoimentos orais de famílias que passaram pela experiência drástica de perder um parente nos cárceres dos trogloditas do regime militar-fascista, fardados e sem farda (lembremos que civis também fizeram parte do bárbaro regime, incluindo até ricos empresários participaram de sessões de tortura de prisioneiros).

Janaína analisa o processo de transformação dos traumas familiares em luta política (recordemos mais uma vez a música de Aldir Blanc e João Bosco: “[...] uma dor assim pungente não há de ser inutilmente […]”). A autora também destaca o papel desempenhado por essas pessoas na luta pelo acesso à informação e pela memória do país.

A partir de 2015, testemunhos impactantes também foram ouvidos após a criação de mais um ativo grupo de parentes de vítimas do regime militar-fascista, a Rede de Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça.

Sediado no Rio Grande do Sul, a Rede ouviu, no evento de sua fundação, depoimentos como o de Marli Mertz: “Para minha família o período da ditadura ainda não terminou”. O irmão foi torturado no regime militar e o filho, jovem, foi preso nas manifestações de 2013.

O depoimento de Ana Maria Visintainer à Rede, por sua vez, destacou a importância da memória: “(Hoje em dia) agem como se a ditadura não tivesse existido. Mas somente a verdade será capaz de construir uma sociedade justa”. Ana Maria teve o pai perseguido e preso quando ela era ainda uma criança.

Outro familiar participante da Rede, Sérgio Luiz Bittencourt, denunciou que: “O modelo de repressão da época da ditadura não foi desmontado. Ainda está presente e se materializa (contra) a população pobre”.

O pastor e suas múmias

Acervo Familiar
Zuzu Angel com os filhos. Stuart (dir.) assassinado pelos militares (acervo Familiar)
Zuzu Angel com os filhos. Stuart (dir.) assassinado pelos militares

Com o pensamento fascista querendo se acentuar no país, nos dias atuais há quem ache intolerável esse desarquivamento todo, essas relembranças todas.

São vozes de múmias políticas. Aqui em Brasília, onde estou em tratamento de saúde, recentemente algumas saíram de seus sarcófagos para tentar amedrontar e incomodar a população.

Na primeira quinzena de setembro, quando eu finalizava este texto para o AND, o deputado Pastor Feliciano (acompanhado de integrantes do MBL) esteve no Museu Nacional da República.

O propósito era fazer uma intimidação contra os responsáveis pelo museu, para que eles desistissem de abrir a exposição Não Matarás, sobre o regime militar-fascista, cuja inauguração estava prevista para a noite de 13 de setembro.

Como o nome já diz, Pastor Feliciano é evangélico. Pertence à tropa do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (hoje na cadeia) e é apontado como assediador sexual de funcionárias. O MBL é o “Movimento Brasil Livre”, de direita, financiado por ianques. Estes, conhecidos como Irmãos Koch, estão bancando atividades reacionárias e fascistas, principalmente de jovens, na América Latina.

Ao entrarem no edifício com postura de censores, porém, os membros do grupo foram severamente recepcionados pelo diretor e artista plástico Wagner Barja, que lhes disse com firmeza: “Não estou aqui brincando de fazer museu. Se quiserem vir com suas famílias, para apreciar a exposição, serão bem vindos. Mas dessa maneira, com o objetivo de censurar, não aceitaremos”.

Tropeçando nas ataduras, as múmias foram embora.

E a mostra foi aberta ao público, na data e horário marcados. Encheu de gente. Gente viva, saudável, de cabeça arejada e coração vermelho.


*Rosana Bond é membra licenciada do Conselho Editorial de AND

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