Genocídio é política de Estado contra o povo

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Bope assassina moradora a coronhadas e Exército intervém na Rocinha

No dia 10 de outubro, a diarista e vendedora Marisa de Carvalho Nóbrega, 48 anos, faceleu em decorrência de uma coronhada de fuzil a que foi vítima na madrugada do dia 08/10 na Cidade de Deus. Moradores denunciam que o assassino é um policial do Bope (Batalhão de Operações Especiais).

Ellan Lustosa/AND
Intervenções militares das Forças Armadas duraram quase um mês na Rocinha 9Ellan Lustosa/AND)
Intervenções militares das Forças Armadas duraram quase um mês na Rocinha

Segundo denúncias de testemunhas, Marisa havia saído de casa na madrugada para socorrer o filho de 17 anos que retornava de uma festa com a namorada, a irmã e uma amiga quando foram abordados pelos policiais. Ainda segundo relatos, antes de ser agredida, os policiais teriam mandado Marisa bater na própria filha.

 Na tarde do mesmo dia, a reportagem de AND esteve no cemitério do Pechincha, zona oeste do Rio de Janeiro, para acompanhar o enterro. Nesse dia, o enterro foi cancelado por determinação da Polícia Civil, que enviou seu corpo de volta para o Instituto Médico Legal (IML) para necropsia.

No cemitério do Pechincha, o clima entre familiares, amigos e vizinhos era de intensa revolta.

— Teve uma operação do Bope na Cidade de Deus e, como todo mundo sabe, o Bope só  entra na favela pra matar. Entrando na favela eles se defrontaram com meu sobrinho e começaram a espancá-lo. Quando chegou ao conhecimento da minha irmã que os filhos estavam sendo espancados, ela saiu de casa às 2h30 da madrugada de sábado para domingo (08/10) para defender o filho. Foi quando eles espancaram minha irmã, que não aguentou e veio a óbito — denunciou Ronaldo, irmão de Marisa.

— Para a polícia, preto bem arrumado em favela é bandido. O Bope não entra na favela pra prender ninguém, eles entram pra matar. Quando eles botam aquela touca ninja acham que são os donos do mundo. Eles acham que são deus, e nós que somos trabalhadores não temos vez — disse uma amiga de Marisa que preferiu não se identificar.

Testemunhas afirmam ainda que os filhos de Marisa foram torturados pelos policiais do Bope, que teriam usado luvas para não deixar vestígios do crime. Esse é o modus operandi desses grupos de extermínio do velho Estado que se especializam nas mais bárbaras formas de repressão para aplicar a política de genocídio contra o povo.

Neste mesmo dia, a reportagem de AND foi à Cidade de Deus, na localidade conhecida como Karatê, e conversou com moradores sobre a rotina de terror imposta à população local pelo aparato policial do velho Estado.

— Eles [policiais] não respeitam o morador. Os policiais que entram na favela não são nem daqui. Quando chega o caveirão [blindado da PM], todo mundo sai correndo. Ninguém fica desfilando na rua na hora que eles vêm. — denunciou uma moradora, que também não se identificou para evitar represália da polícia.

O enterro de Marisa aconteceu no dia seguinte, 11/10, quando centenas de pessoas, entre familiares, moradores e amigos, estiveram presentes.

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Exército auxilia o genocídio

O velho estado intensifica a guerra civil reacionária contra os pobres não só na Cidade de Deus, como em todo o Rio de Janeiro. Na última edição de AND, no artigo Rocinha é alvo da vez em guerra do velho Estado contra o povo, denunciamos a intervenção das Forças Armadas (FA) com a invasão da comunidade por militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica e as consequências de tal invasão que, naquela ocasião, já havia deixado três mortes e denúncias de invasões de residências e comércios, revistas vexatórias e agressões contra a população local. Apontávamos: “Como expressão da guerra civil reacionária que se abate sobre o povo, a presença das tropas federais no morro localizado na zona sul ocorreu depois de cinco dias consecutivos de incursões policiais e da disputa pelo controle do tráfico por diferentes grupos varejistas”.

A operação teve início no dia 22 de setembro e foi interrompida no dia 29, quando os 950 soldados deixaram a maior favela do Rio de Janeiro. Nesta mesma data, o Ministro da Defesa, o reacionário de longa data Raul Jungmann, deu um pronunciamento à imprensa após participar da 14ª Conferência de Segurança Internacional do Forte de Copacabana, afirmando que se o “chefe do tráfico” Rogério Avelino da Silva, o “Rogério 157”, voltasse à Rocinha, as Forças Armadas voltariam também.

Fato é que a situação de caos permanente nas favelas, fomentada pelo velho Estado — a qual é defendida com unhas e dentes pelo Exército — só é atiçada ainda mais pela presença das Forças Armadas reacionárias com mais fuzis e botas em terreno.

Nos dias 10 e 11/10, soldados das Forças Armadas voltaram à Rocinha para auxiliar “tecnicamente” (segundo o pretexto dado pelo comando) os policiais que fizeram uma ação de varredura na região. Na manhã do dia anterior, dois homens foram encontrados mortos na parte alta da favela.

Com essas últimas operações, as Forças Armadas somam quase um mês de incremento do genocídio do povo na Rocinha.

Também no Morro dos Macacos, zona norte do Rio, uma megaoperação contou com a participação das Forças Armadas que deu suporte às polícias civil e militar, no dia 6 de outubro. Esta Operação de guerra, segundo as “autoridades”, também teria relação com a intervenção na Rocinha.

Guerra civil reacionária é crise do velho Estado

A grave crise econômica, política, moral e institucional ganhou recentemente também uma dimensão militar como crise militar, com o incremento da utilização das Forças Armadas como tropas de repressão ao povo e as contradições em seu alto comando, o que escancara a profunda decomposição do capitalismo burocrático e do velho Estado.

A situação de crise militar se deteriora pela atuação das FA nas favelas, visto o fracasso absoluto da instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) como forças de ocupação militar e controle daquelas populações empobrecidas. Não há quem acredite no ensebado discurso de combate ao “crime organizado”, ao “tráfico de drogas”, “pacificação” e “guerra de facções”.

Tudo isso só reverte em mais violência e crimes contra as massas como parte da escalada da atual guerra civil reacionária desatada pelas classes dominantes contra o povo.

O crescimento da delinquência e da violência entre o povo é reflexo direto da pauperização e do desemprego, associados à desagregação do velho Estado em nível federal e, particularmente, estadual.

Paralelamente a isso, o monopólio da imprensa insufla a “opinião pública”, particularmente os setores mais desesperados da pequena burguesia, pedindo que mais sangue seja derramado e levando ao extremo a propaganda de criminalização da pobreza, que gera gritos pedindo mais intervenção militar, como se as Forças Armadas - a espinha dorsal do velho Estado - fossem resolver, através do isolamento das favelas, um problema que tem sua origem exatamente na existência desse Estado e da ordem semicolonial e semifeudal que ele defende como razão de viver.

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