Uma viagem pelo Brasil real no Nordeste

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Escrita há quase meio século, a peça "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna. Retrata um aspecto do Brasil real, levada ao cinema ainda nos anos 60, ganha destaque público no início do milênio, depois da minisérie global (TV Globo) arrebatando os mais altos índices de audiência. Positivamente unânime da crítica, projeta o seu autor e a peça nacionalmente, provando que a TV é um eficiente meio de comunicação de massa, tão popular quanto o rádio nos anos 50.

Sem dúvida, a mídia eletrônica (a telinha), é "monstruosa" nesse sentido, pois consegue espalhar o seu vírus informativo inclusive na zona rural, através das parabólicas, e assim caracteriza ainda mais um tema que o escritor Ariano Suassuna tanto vem falando em palestras e entrevistas: O Brasil Real. Os dois brasis. O oficial e o real.

"O que é o Brasil Real de Ariano Suassuna? O jornal A Nova Democracia quis saber. Fomos atrás do escritor na Paraíba. Estaria em sua fazenda, no interior paraibano. Durante todo o mês de julho deixamos vários recados na secretária eletrônica do seu telefone no Recife, e nem um retorno foi dado. Um colega de um jornal daquela capital nos informou que "o professor está na fazenda, na Paraíba". A matéria estava pautada para a edição de agosto, portanto, não restava outra alternativa senão ir encontrá-lo mais autêntico, no sertão paraibano.

Taperoá

Na rodoviária de João Pessoa, às 6 horas da manhã, o banheiro está sem água.

— Dá não, doutor, o vaso está fedido", respondeu o zelador. Uma mulher na outra porta (feminino) acrescenta: "De noite fica derramando e de manhã falta".

Já vamos partir para Taperoá. Uma jovem senhora, com uma filha de aproximadamente 6 anos, chama o cobrador e diz que o fedor no fundo do veículo é insuportável. Ele a acomoda em um outro assento dianteiro. Apesar desses problemas a viagem é tranqüila por pouco mais de uma hora, quando o ônibus pára.

— O pneu baixou!"

O motorista deu a informação e acrescentou que "vai demorar um pouquinho". E uma passageira indaga:

— Pode descer? Pode sim, mas não na pista, alertou. O pneu estava na lona. Só o bagaço. O veículo parou ao lado da carniça de um animal (parecia uma ossada de carneiro), mas o único problema nesse local foi a dificuldade de uso do macaco tipo jacaré que não erguia o carro, apesar de aparentemente novo. Necessária a ajuda de um passageiro, que ganhou o apelido de "borracheiro".

De volta ao percurso normal, a realidade nordestina vai se configurando ainda mais nas vendas de castanha de caju em saquinho plástico, refrigerantes, laranjas e outros alimentos. São garotos e homens que ganham a vida na estrada, entrando e saltando dos coletivos, fazendo micharia diária para garantir o sustento da família. São os informais que movimentam a economia do Brasil real, independente da cotação do dólar.

O carro rasga várias comunidades carentes e, quanto mais frágeis as moradias, mais visíveis os cartazes dos candidatos colorindo as residências. Roda embalado pelas músicas de sentido dúbio de forró da emissora de rádio, em ritmos confusos e letras jocosas. "O Cara de Tabac", CD vendido nas feiras do sertão cuja música arranca gargalhadas de peões e vaqueiros. Influência, talvez, do chamado "lixo cultural", brasileiro, também uma das preocupações do professor.

Já perto do destino, um grupo de estudantes toma o coletivo e surge uma discussão. O cobrador anuncia que naquele ponto não aceita a carteira de meia passagem, "somente na rodoviária". Aquela senhora que reclamou da fedentina do banheiro, assume a defesa dos estudantes e argumenta:

Num é direito...Se é direito, paga meia passagem. Ela não permite que o cobrador bote para fora a aluna. Além dela, várias outras pessoas assumem a causa estudantil, demonstrando que o povo percebe o momento certo de se aliar em prol dos seus interesses. Alguns passageiros reclamam, condenando os empresários, outros dizem que a "culpa é dos políticos".

Fazenda Carnaúba

A cerca de 10 quilômetros da Pracinha central da pequenina Taperoá, e a 4 horas de ônibus da rodoviária de João Pessoa, está a fazenda "Carnaúba", local onde o escritor Ariano Suassuna passou a infância, antes de ir para o Recife, com 15 anos de idade. O trajeto com pouco mais de 220 km, segundo um motorista, mostra esta realidade que tanto vem alertando o escritor: as contradições sociais – o oficial contra o real. A destruição das matas nativas em nome dos pastos e plantio de cultura para atender os interesses de mercado (grãos, frutas e cana-de-açucar), o asfalto, postos de gasolina, restaurantes e os prédios que acompanham os carros, contrastam com o povo simples das pequenas localidades — gente, sem dúvida, igual aos homens da época em que o autor escreveu a obra, (mas com certeza sem os atuais ônibus velhos comprados no sudeste e que servem aos usuários), estudantes transportados em pau-de-arara (caçambas, caminhões sem placas e peruas) e as parabólicas quase insustentáveis nas humildes casas de taipa (paredes de varas rebocada de barro crú), confirmam uma realidade que o colorido da TV não mostra.

Em Taperoá, o povo conhece Ariano Suassuna. Fala dele como se fosse um velho amigo. O dono do bar que serve um "bodim cozido" ("mais bodim aí?..o bodim tá bom."); a mulher bilheteira da rodoviária; a menina que paquera; o motorista do ônibus; e o taxista do Opala antes de 80, caindo aos pedaços.

-Aquele homem da Globo... Marinho, sofreu um acidente. Disse um rapaz que tomava cerveja.

— Foi?! Conversei.

— Levou uma queda... O Roberto, Marinho... dono da Globo. Ele é rico?, perguntou.

— É o dono da Globo, respondi.

As moscas no assento da rodoviária tinham que ser espanadas para usá-los. E em meio delas todos conversam e eu adotava as providências para encontrar o criador de "O Auto da Compadecida", Ariano Suassuna.

"Ele ainda é meu parente", disse uma senhora que passava e entrou na conversa. O motorista, dizendo-se amigo do "doutor Suassuna", cobrou R$ 15,00 – com pechincha – para me levar até a propriedade. Preço salgado sim, no entanto, compensatório para o objetivo, pois finalmente me colocaria cara-a-cara com o entrevistado.

— Sei sim, conheço ele... fica aqui perto, respondeu o taxista

— Ele está lá? Indaguei

— Está sim, é hora de almoço, concluiu.

O telefone público da praça não funciona e "engole" os cartões. Era meio dia. As pessoas aguardam o ônibus como um divertimento e curiosidade. O motorista do táxi queria a corrida, mas também quis ajudar, alertando sobre o telefone, mas agora era tarde, o orelhão já tinha almoçado o meu recurso de comunicação com o outro Brasil, pois "celular aqui não pega", disse um observador. O sol queimava o braço que segurava a porta do carro, e o chofer atento, conversava:

— Não, pode deixar, é assim mesmo...

Os buracos na pista não atrapalham o seu trabalho, e o carro segue com rapidez ao destino, à propriedade dos Suassunas.

— A fazenda é produtiva?

— É sim, aquele Globo Rural veio aqui fazer entrevista.

— Ah, foi?! Continuei

— Tem bode de raça... ele faz doce de leite que é vendido na cidade, e vêm muitos estudantes fazer trabalho aqui, informou o motorista.

Uma conversa muito produtiva, e eu imaginando o doutor Suassuna criando bode de raça e vendendo doce para aquelas pessoas alegres da monótona Taperoá. Desci para abrir o portão de entrada na propriedade, avistando um pequeno açude e cerca de 30 bois às suas margens, e em outra direção uma casa grande e outras cinco habitações próximas.

Outra vez desci para abrir a portão da casa grande, mas antes o motorista alertou para os cachorros da propriedade: "Bote o braço para dentro, só saia quando aparecer alguém". Segundo ele, têm uns cachorros grandes e que eu só deveria sair do carro quando aparecesse alguém. E lá vem o homem, acreditei.

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Deitado em uma rede na varanda da casa, um senhor alto, bem vistoso, vem em nossa recepção. Era o seu "primo-irmão", homem educado, receptivo, com um livro na mão, lamenta o desencontro e disse que o escritor esteve na fazenda no mês passado. Estaria, então, no Recife, e muito gentil me forneceu o endereço ( Rua do Chacon, número 328, Bairro Casa Forte, Recife), — e o telefone —, o mesmo que eu já tinha deixado recado na secretária eletrônica.

Dormi em Campina Grande levado por um mototaxista que falava empolgado do "Paraibano do Século", consulta popular promovida pela Rede Globo de Televisão, que também elegeu Padre Cícero, no Ceará , e Luiz Gonzaga, o rei do baião, em Pernambuco. O povo não esquece de quem fala ou defende suas causas. É assim com Padre Cícero, Luis Gonzaga, Patativa do Assaré, Lampião e Maria Bonita, Jackson do Pandeiro, Aleijadinho, Dragão do Mar (Francisco Nascimento), Conselheiro, entre outros que marcam a cultura popular. Fiz algumas anotações para não perder as idéias quando fosse conversar com o professor, "um dos mais ferrenhos defensores das festas populares nordestinas", do maracatu rural, literatura de cordel, bumba-meu-boi e cavalo-marinho.

— Ele é muito conhecido... vive por aqui falando com os universitários... tem muito talento... foi eleito o paraibano do século, acrescentou. Na noite do dia anterior Suassuna esteve na Universidade, acompanhado de outras autoridades da região, e poderia voltar "para o encerramento", conforme uma aluna.

No entanto, no dia seguinte, sábado, finalmente estou batendo palmas no casarão da rua do Chacon, em Casa Forte. Carrancas, imagem em barro e outros objetos na entrada da mansão anunciavam os aposentos do escritor nordestino. Insisto, auxiliado pelo motorista do taxi e nada, mas o rapaz, involuntariamente, empurra o portão e a corrente que parecia trancar a sua entrada cede e a grade de ferro se abre. Entro, com receio de encontrar um cão vigilante, e vou até os fundos, por uma varanda lateral quando ouço a ladainha de algumas crianças.

— Doutor Suassuna... Doutor Suassuna!!!

Na segunda vez, uma voz feminina que parecia vir de um banheiro, responde: Já vai! Mais uma vez fico alegre, pois finalmente me pareceu que teria a entrevista. Surge uma jovem negra e pergunta: Quem?

— Sou jornalista e desejo falar com o professor Suassuna, informei

Mas logo em seguida surge uma senhora alva e completa:

— Ele não está!

— E onde eu posso encontrá-lo. Voltei a informar que era jornalista, do Jornal A Nova Democracia, mostrei-lhe o jornal e pedi-lhe que entregasse a ele.

Não sei... ele não fala assim... tem que marcar, respondeu.

— Marcar com quem?

— Com o Alexandre

-E quem é o Alexandre?

-É o secretário dele, o meu esposo.

-Pois deixe eu falar com o Alexandre

— Ele não está.

— E onde posso encontra-lo?

-Não sei, está com ele..

— Aqui no Recife?.

— Não sei... Ele – Ariano — anda muito ocupado. Não pára nunca, não tem tempo pra nada. — Então está bom... né!, observei.

— Bom pra quem?!... para ele não.

— Para o povo, eu disse com brincadeira.

A atendente não entendeu, mas disse-me que eu ligasse (forneceu outro telefone) depois do meio dia para o Alexandre. Informei que passei o mês anterior deixando recado na secretária eletrônica e não obtive resposta.

— É assim mesmo, ele (Alexandre) consulta (a secretária eletrônica) e faz contato no outro mês... ele é muito solicitado, acrescentou.

Retornando da mansão do século 19, o motorista – mais contrariado do que eu — não cansava de falar de Suassuna, com muito orgulho. E eu disse:

— Ele é paraibano, filho de ex-governador da Paraíba, veio pequeno para o Recife. — Ah é?!. Ele não é pernambucano?. Quis saber.

— Ele adotou Pernambuco como sua terra, contentei o rapaz.

Pernambucano, Paraibano ou cearense — nordestino — o importante é que o professor Suassuna é uma capacidade respeitada e compreendida pelo povo. As pessoas reconhecem a sua importância, e acreditam no valor de sua obra para o Nordeste.

Em um cruzamento, o motorista deixou que uma jovem vistosa passasse e comentou: " Mulherão! No bate-papo informal com aquele pernambucano, completei: "Das boas", e em seguida acresacentei:

— As mulheres daqui são mais fortes do que as de Fortaleza.

E ele: "Ôoooo, as cearenses são batidas!

— E o que é batida? Perguntei

— É seca, não tem B.....

Após o meio dia, liguei várias vezes para o assessor Alexandre mas as chamadas não foram atendidas.

No hotel, quando eu já almoçava, uma senhora alertou: "Olha é o Ariano... O Ariano Suassuna está na TV". Era o jornal do meio dia da Globo Recife. O professor explicava, com didática simples, sobre a arte popular mostrando um livreto de cordel.

À noite, numa festa de aniversário na Associação dos Funcionários da Universidade Rural de Pernambuco, dentro do arborizado Campus, um grupo de 5 estudantes de jornalismo se apresentou para mim querendo saber sobre a minha pauta com "Ariano Suassuna". Indagaram se o procuraria no dia seguinte.

Tanto na Paraíba como em Pernambuco constatei o carinho e o respeito que os nordestinos têm pelo escritor popular e regional. As pessoas comuns gostam de Ariano Suassuna, pois todos falam dele com muita aproximação, como se fosse um colega. "O Ariano é meu amigo" gritou um motorista de táxi, na avenida Recife, ao cruzar com o nosso carro, para o outro companheiro. Apanhei o carro em um ponto onde havia vários profissionais. "Aqui tem rua com o nome dele" informou orgulhoso um outro taxista.

Ariano Suassuna foi Secretário de Cultura no Governo Miguel Arraes, período que os pernambucanos tentam esquecer, mas não é fácil diante da massa falida de inúmeras firmas que debandaram da Grande Recife nos últimos anos. Restam os prédios e máquinas em ruínas às margens das largas avenidas, no lugar em que antes existiam indústrias que já foram símbolo do PIB pernambucano, como a tradicional Braspérola, que empregava milhares de trabalhadores.

— Mas isso não é coisa do governo Arraes, é anterior, não?, argumentei.

— É dele e de outros que não valem b..... Respondeu um comerciante do ramo de informática.

E o Jarbas?

Está tentando melhorar.... mas é difícil, concluiu.


ARIANO SUASSUNA


Formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1950, Ariano Suassuna nasceu em 1927 em João Pessoa, Paraíba, época em que o pai, João Suassuna, governava o estado. Até aos 15 anos morou na fazenda Carnaúba, em Taperoá, PB. Depois foi morar no Recife, capital de Pernambuco, onde passou a escrever para o Teatro dos Estudantes de Pernambuco que acabava de ser criado. Em 1947 concluiu sua primeira peça, "Uma Mulher Vestida de Sol". Em 1956 publicou o "O Auto da Compadecida". Escreveu também o romance "A Pedra do Reino", e é criador do Movimento Armorial.


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