Patativa bateu asas e voou

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Foi à boca da noite de segunda 8 de julho deste ano da graça de 2002 que o poeta cearense Patativa do Assaré, nascido Antônio Gonçalves da Silva, bateu asas e partiu para a eternidade, deixando entre nós uma obra fantástica e um exemplo de vida a ser seguido por quem gosta do belo e ama a vida e o seu próximo, com naturalidade e fervor. Ele foi o poeta popular brasileiro mais importante, em todos os tempos.Viveu como quis, de forma simples, solidária, com dignidade, cantando de improviso à maneira dos poetas repentistas, como um deles.

Nos seus inspirados improvisos, Patativa cantou as mazelas, as tristezas, os anseios, a esperança impalpável, mas real e eterna do povo; do povo nordestino. Tanto que não foi à toa que pelo menos 20 mil pessoas acompanharam o seu féretro, ora em silêncio, ora chorando; ora cantando e aplaudindo pelas ruas da pequena cidade que o viu nascer — Assaré — , há 93 anos.

Além do povo, jornalistas, escritores, cantores, como Fagner; e políticos de todos os naipes e colorações, incluindo o governador do Estado — que decretou um feriado e luto por três dias —, deram adeus ao vate nonagenário, que por mais de meio século fez-se identificar Brasil e mundo afora pelo pássaro miudinho e de cantar singelo que habita as matas nem sempre verdes do Nordeste brasileiro.

O poeta de Assaré foi o primeiro, em toda a América Latina, a falar em versos da importância e necessidade de se fazer fixar o homem do campo no seu próprio habitat; foi também o primeiro poeta a falar claramente, de forma lógica e prática sobre reforma agrária. Ele disse:

Deus fez a grande natura
Com tudo quanto ela tem
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém
Se a terra foi Deus quem fez
Se é obra da criação
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão
Esta terra é desmedida
E com certeza é comum
Precisa ser dividida
Um tanto pra cada um.

De tudo, sobretudo, o poeta assareense versejou. Versejou sobre as festas juninas e natalinas, sobre o folclore e pessoas, como Luiz Gonzaga, Câmara Cascudo, Juvenal Galeno e Rolando Boldrin; sobre o mar, o vento e o luar. Versejou sobre política e literatura, sobre fome e sede; sobre seca e enchente, sobre amor e dor; sobre ganância e ingenuidade, sobre beatos e cangaceiros, sobre Deus e o diabo e, principalmente, versejou sobre o seu Assaré querido ("Quem não ama a sua terra, é um desnaturalizado"). Mesmo lírico, o poeta era cáustico; não tinha papas na língua. Dizia o que lhe dava na veneta, com todas as letras. Era um gênio.

De compleição física franzina; pequeno, desgarrado, carente, frágil, abandonado; a-pa-ren-te-men-te frágil e abandonado, entenda-se, Patativa era dono de uma personalidade ímpar, fortíssima, inabalável. Era como o quê uma rocha, uma montanha irremovível, um gigante na postura e no falar sem precedentes; imperativo, quase ditador na sua individualidade sertaneja.

O seu grito era de paz

Patativa não perdoava erros, tampouco mentiras. De forma geral, tinha ojeriza a políticos; e ai do filho que não lhe estendesse a mão quando o visse, para lhe pedir a bênção... Era católico apostólico romano, praticante -morava ao lado da igreja matriz de Assaré, que freqüentou por muitos anos.

O poeta compunha com a mesma rapidez e facilidade de quem bebe água ou respira, e guardava na memória centenas de versos; poemas inteiros, enormes, seus e de Castro Alves, por quem nutria grande admiração; e de Camões, seu colega cego de um olho... Era capaz de passar horas a fio falando de forma versejada, para tanto bastava gostar do interlocutor. Eu, que o conheci bem, posso dizer isto.

Com sua permissão, gravei o seu falar muitas vezes, os seus poemas, as suas risadas e alguns dos seus desabafos: "Não faço da minha lira profissão, se fizesse estaria rico", dizia, emendando: "Mas tem muita gente que se aproveita disso".

Como repentista que outrora foi, e dos bons, Patativa via em Oliveira de Panelas, Geraldo Amâncio e Lorinaldo Vitorino um pouco de si; e também um pouco de si ele via em Luiz Gonzaga, em cuja homenagem fez e publicou em 1956, no seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, o poema intitulado Ao Rei do Baião.

Ao conhecer Patativa, no começo dos anos 60, Gonzaga tentou, em vão, convencê-lo a vender-lhe a toada A Triste Partida, composta anos antes, e que raro era o cantador que já não a cantava de trás pra frente e de frente pra trás...

O rei do baião uma vez me disse que a música que considerava mais importante de todo o seu repertório era, ao lado de Asa Branca, A Triste Partida, que gravara em 1964. Patativa gostava de Gonzaga, mas gostava também de Jackson do Pandeiro, sem conhecê-lo pessoalmente; e gostava de Geraldo Vandré, a quem passou a desgostar depois de conhecê-lo pessoalmente...

Patativa era sistemático; era um ser incrível

Outro dia o poeta Peter Alouche, mais conhecido por Pedro Nordestino, um dos prefaciadores do livro O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa do Assaré, junto com Mário Chamie e Raimundo Fagner, escreveu-me resumidamente um e-mail em que dizia: "Patativa cantou com a voz cristalina de um pássaro e com a visão messiânica de um profeta as dores e alegrias de um povo simples e sofrido. Clamou no sertão como João Batista no deserto, contra a injustiça e as desigualdades sociais. Sua literatura simples e pura conseguiu chegar aos ouvidos dos poderosos. Os temas de sua arte poética não se limitaram às coisas do Nordeste brasileiro. Falou um pouco de tudo, sempre com a lucidez dos profetas e com a ousadia e a coragem dos que não temem dizer a verdade. Por isso talvez não seja exagero afirmar que ele foi o Victor Hugo do Nordeste popular". Zé Ramalho, também seguindo esse raciocínio, disse:

"Patativa do Assaré foi um diamante belo e bruto da poesia nordestina. Simples e profundo, carregado de natureza e atitudes humanas que expressou sua força em versos que, como um turbilhão, derrama-se em palavras que se assentam na alma do povo do sertão e do solo nordestino".

O poeta da pequena Assaré não mudou o mundo; sequer mudou as condições de vida do seu irmão nordestino, mas mostrou que é possível viver a vida com alegria e dignidade, mesmo diante da dureza do solo e da insensibilidade dos políticos e dos manda-chuvas em geral...

Viva Patativa!


Assis Ângelo é jornalista e estudioso da cultura popular; autor de vários livros, entre os quais Eu Vou Contar Pra Vocês, O Coronel e a Borboleta e Outras Histórias Nordestinas, Nordestin-danados, Causos & Cousas de Uma Raça de Cabras da Peste,de Padre Cícero a Câmara Cascudo e O Poeta do Povo,Vida e Obra de Patativa do Assaré, e produtor e apresentador do programa São Paulo Capital Nordeste, transmitido pela Rádio Capital, AM 1.040.

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