Rondônia: Manifestação pelos sete anos do massacre

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Desafiando a ameaça de pistoleiros a serviço de latrifundiários, manifestantes foram às ruas de Corumbiara para protestar contra a impunidade dos responsáveis pelo massacre da Fazenda Santa Elina

Discursos indignados e faixas de protesto contra o assassinato de camponeses, o latifúndio, a impunidade e as injustiças praticadas pelo governo e o judiciário, além do desemprego e a fome provocada também pela falta de um pedaço de terra, foram a tônica da manifestação do dia nove de agosto, nas principais ruas de Corumbiara, para lembrar a chacina da fazenda Santa Elina, ocorrida há sete anos.

Entre as muitas faixas, destacaram-se "Viva a heróica resistência de Santa Elina", "Exigimos indenização das vítimas de Santa Elina" e "Conquistar a terra, destruir o latifúndio". A manifestação foi promovido pela Liga de Camponeses Pobres(LCP), e o Sindicato de Trabalhadores Rurais(STR) da cidade. Impedidos de comparecer, devido, ainda, às seqüelas de torturas e violência praticadas pela polícia e jagunços, vários camponeses se ausentaram.

"Estamos aqui, em frente à Prefeitura, relembrando a heróica resistência de Santa Elina, que mutilou e custou a vida de muitos companheiros. Tudo isso é produto de um Estado podre e carcomido e no qual o pobre não tem vez. A nossa luta não irá parar, custe o que custar o nove de agosto vai ser lembrado sempre por nós, pois sempre honraremos o sangue dos nossos mártires." foi assim que um dos organizadores do evento abriu o ato e acrescentou: "Quem dá lucro e traz progresso às cidades, é o povo, o camponês. Eles dizem que só queremos a terra para depois vender. Vários assentamentos que conseguimos, a maioria lutando, provam o contrário. A Fazenda Seringal no Espigão do Oeste é um dos exemplos. E é exatamente disso que eles têm medo, que cresçamos. Eles querem Rondônia vazia, sem povo, para depois explorarem nossas riquezas ou entregarem para os americanos, o que não iremos permitir".

Depoimentos dos sobreviventes de Corumbiara

"Companheiros, sou mais um dos sobreviventes. Chegou a hora de darmos o troco. Estaremos sempre denunciando esses governos corruptos e que nada fazem senão massacrar o povo com promessas que nunca cumprem. Estão, de novo, só mentindo para o povo votar neles nas próximas eleições. Um dia esses filhos da puta vão ter que nos pagar", afirmou o camponês Dedé.

"Olha, moço, não põe meu nome aí e nem diz que falou comigo. A verdade é que morreram muito mais, entre policiais e camponeses. Não foram apenas os onze que divulgaram. Dizem até que, se tivessem contado a verdade, que morreram mais policiais, estariam estimulando novas ocupações. A imprensa só chegou depois da "limpeza". Meus sobrinhos viram passar caminhões com cadáveres e presos, muitos presos, todos amontoados, aqui, em Cerejeiras, atrás da cidade. Muita gente foi jogada no rio ou enterrada. Tem gente que passou a morar aqui pertinho, deixando Corumbiara, e até hoje, pergunta por parentes". "Tem gente que procura até hoje, por familiares que sumiram. E têm muito medo de falar. Sei de mães nesse drama. Então, não foram só as 11 pessoas que morreram, conforme falam, nove companheiros nossos e dois PMs. Tem muita gente que saiu de Corumbiara, tamanho o medo que permanece até hoje, além do trauma. Aquela noite foi de muito horror. Teve uma amiga, a Ana Paula, que ficou viúva com uma filhinha de dois anos. Estava casada há apenas três anos. Houve um momento de pânico quando os policiais queriam aprisionar todas as mulheres, deixando as crianças com os avós. Só queriam liberar quem tivesse parente morto. Não concordamos, batemos pé firme, mesmo sabendo que poderíamos sofrer graves conseqüências. Alguns jagunços e PMs chegavam a gritar que "vamos acabar com os homens e, depois, vocês". Isto depois de terem matado muitos companheiros. Só em Colorado do Oeste, para onde levaram os sobreviventes, nos deixaram num Centro Comunitário, e os homens, na delegacia e num ginásio da cidade.

Estou lembrando o caso por solicitação do jornal de vocês, que será o primeiro a publicar a verdade, pois não gosto mais de tocar nesse assunto. E, por favor, não põe meu nome", disse outra sobrevivente.

"Me aleijaram de tanta pancada"

Praticamente aleijado pelas pancadas que recebeu e escorando-se até pegar o microfone para protestar, Toinho gritou que "nós não é besta, não. Temos que continuar a luta contra esses poderosos que não querem dividir nada e ficam aí mandando matar inocentes. Temos que ser indenizados e os canalhas colocados na cadeia. Os policiais foram indenizados, mas nós, não. Eu mal posso andar. Onde está a Justiça neste país? Quando nós conseguimos um pedacinho de terra e queremos plantar, o governo nos nega apoio, mas se é o rico, o latifundiário, não falta nada. Não nos dão sequer tratamento médico, uma vergonha e ficamos reclamando o tempo todo, sem que nada aconteça. Mas um dia isso terá fim. Estamos nos organizando para isso", disse José do Campo.

"Fui massacrado de Corumbiara a Colorado, nu e jogado no chão. Tenho os quadris quebrados até hoje, o que me impede de trabalhar e só me permite fazer tratamento. No hospital de Colorado, um policial quis me matar. Eu era magro e passei a parecer gordo, mas é inchaço das pancadas. É normal a cabeça doer muito. Tem uma companheira, a D. Alzira, que nem está podendo sair de casa, de tanta paulada que atrofiou uma das pernas. Tem companheiro praticamente cego, outros surdos, de tanta pancada que levaram. E teve companheiro, hoje ausente do convívio normal, tamanho o trauma criado, que foi obrigado a comer cérebro. É o Paulo, mais conhecido hoje, por Zé Miolo".

Messias levou um tiro no pescoço
O relato de Messias é um dos mais impressionantes.

"A D. Maria, mãe da menina assassinada pelas costas, continua em depressão. Ela também pretendia estar do nosso lado no dia-a-dia, mas não consegue ter qualquer tipo de lembrança da chacina. Piora a depressão. Por isso, não pôde atender ao jornal A Nova Democracia. É assim que estamos vivendo, cheio de traumas, marcas da violência, sem indenização e ainda perseguidos, ameaçados. Mas não vamos nos entregar ou recuar da luta. Ao contrário, vamos continuar brigando por nossos direitos e fazendo tudo para botar na cadeia esses cabras safados", disse Messias, vestido com uma camisa do Flamengo, do Rio.

 

"Mandei que me matassem, porque não admitia deitar no chão"

"De repente, ouvi gritarem para eu me deitar. Mesmo depois de ver a metralhadora nas mãos do PM, recusei obedecer e disse que, se quisesse, poderia me matar. Eu temia que me matassem de qualquer jeito. Apareceu um tenente e disse para me deitar, pois ele é estrangeiro. Até hoje, cheio de marcas de violência, conforme você pode constatar, não recebi qualquer tipo de indenização. Sem dinheiro, vivo de pequenos serviços e de amigos da luta. Foi uma covardia muito grande que continua até hoje. Quem levantasse a cabeça, levava um tiro. Por sorte, alguns não morreram, mas ficaram com marcas de bala. Na saída do acampamento, que mais parecia um campo de concentração, lembrando a Segunda Guerra Mundial, sob o comando de Hitler, parecíamos bois nos caminhões. Dei muita sorte, moço", afirmou o idoso Severino Schio, filho de italianos.

"Nos enganaram para facilitar o massacre"

Polaco foi espancado após ser baleado

Sempre muito visado pelos jagunços e policiais a mando de latifundiários, Polaco também quase morre. Felizmente, ficaram apenas marcas de balas.

"Foi uma covardia muito grande e também um golpe muito sujo o que aconteceu naquela madrugada do dia nove de agosto de 1995. Depois de prometerem que nós poderíamos tomar a decisão de sair em 72 horas. Nos enganaram. O major Ventura e mais 15 comandantes da PM, antes de propor o que achávamos ser um acordo, largaram os armamentos e ainda acenaram com bandeiras brancas. Tudo farsa, crocodilagem, covardia brutal. Todo o povo acampando foi descansar, achando que realmente teríamos 72 horas para decidir. Eis que voltam, de surpresa, às 3h da madrugada, com centenas de soldados fardados e mais outras dezenas de jagunços, todos fortemente armados. Muitos deles também usavam roupas da PM. E chegaram jogando muitas bombas de gás lacrimogêneo, apavorando todo mundo, mulheres e crianças, principalmente. Um horror, muita gritaria". Depois de uma parada, olhar fixo no chão, como se visse tudo de novo, nos mínimo detalhes, Polaco contou ainda que a reação foi de tudo quanto é forma.

"Eu mesmo parti para a reação com uma moto-serra, outros com foice, machado, espingardas velhas, o que tínhamos à mão. Depois de tanta confusão, ninguém se entendendo, uma situação indescritível, tudo escuro, praticamente não se enxergava nada. Depois de me balearem, me amarraram e me espancaram, a exemplo de outros companheiros. A covardia foi tão grande que teve alguns PMs, um de Vilhena e outro de Porto Velho, que se colocaram a nosso favor. Foram amigos que estavam ali obrigados a cumprir ordens de quem só massacra o povo. A nossa vontade de lutar vem aumentando a cada dia, pois os poderosos, totalmente impunes, não param de mandar matar e perseguir os pobres", disse Polaco.

O estado é área de ocupação capitalista recente

Na década de 70 e 80, o INCRA, como coordenador da Política Agrária, criou vários Projetos Integrados de Colonização (PIC) e Projetos de Assentamento Dirigido (PAD). Os Projetos de Assentamentos (PA), só foram criados a partir das ocupações feitas pelas populações que acabaram sobrando dos PIC e dos PAD.

Tal política de colonização funcionou como atrativo para população de outras regiões, e o modelo gerou uma brutal diferenciação entre os seguimentos de migrantes. Aqueles que possuíam capital financeiro e influência política, se apropriaram das melhores áreas e das melhores terras, para expandirem seus empreendimentos ou simplesmente, se apoderarem das terras como reserva de valores. Os que para lá se dirigiram, porque já haviam sido desterrados de outros lugares, quando conseguiam entrar nas terras, acabavam por valorizá-las com o seu trabalho e tornando-as, assim , inacessíveis a eles mesmos. Vêem então, seus sonhos frustrados pela ação dos grileiros e fazendeiros com a conivência dos organismos do Estado.

Inconformados, um considerável contigente de sem terras, organizados ou não, passaram a ocupar as áreas improdutivas, e em muitos casos, forçando o INCRA a tomar medidas para assentá-los. Dezenas de assentamentos de Rondônia, especialmente no final da década de 80 e toda década de 90, tiveram suas origens em ocupações. É o caso do PA Adriana em Corumbiara, onde foram assentadas 85 famílias depois de quatro anos de luta, com ocupação e expulsão da fazenda por três vezes até que conquistaram a terra, assim como aconteceu com o PA Verde Seringal e Vitória da União no mesmo município que são também, oriundos de grandes lutas. Os PA Adriana e Verde Seringal são limítrofes à fazenda Santa Elina, onde ocorreu o Massacre de Corumbiara.

Em mais um demonstração da impunidade que caracteriza o país e estimula crimes de toda espécie e a todos os níveis, policiais afastaram 200 famílias da ocupação da fazenda Guarajus, sob a ameaça de repetir o massacre de Santa Elina, há sete anos. Foi a primeira tentativa de ocupação, depois de oito de agosto de 1995, mais uma vez, frustrada, e deixando claro que as terras de Corumbiara não poderão sair das mãos de latifundiários, principalmente por sua localização e maior fertilidade.

A ameaça para a retirada das famílias de camponeses aconteceu em março, depois da prisão de Polaco e Neguinho, no momento em que eles tinham saído do acampamento. Havia um esquema montado pela polícia, que os conduziu para a delegacia de Colorado do Oeste, onde foram soltos no dia seguinte, 25 de março. As famílias ficaram 29 dias acampadas na fazenda Guarajus. A ameaça de nova chacina aconteceu, o que é mais grave, com a presença de um oficial de justiça, um delegado e o dono da fazenda, Garão Maia, que tem mais três fazendas em Corumbiara e dois frigoríficos em São Paulo, onde reside. Asa fazendas são usadas apenas para pasto e vêm sendo desmatadas, conforme garantem os camponeses.

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