Rondônia: o capitalismo se alimenta do latifúndio atrasado

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O Estado de Rondônia, onde estivemos durante um mês, percorrendo, em especial, todas os pontos de maior "ebulição", é, muito provavelmente, o mais problemático do país. Lá, onde ocorreu o massacre de Corumbiara, cerca de um ano antes do massacre de Eldorado dos Carajás, poderá repetir-se a qualquer momento o mesmo drama tantas vezes vivido pelos camponeses pobres de todo o Brasil. Grande parte dos camponeses pobres está temerosa de falar sobre tomada de terra e não escondem a sua revolta diante da impunidade de latifundiários que contratam jagunços para matar os camponeses.
Mesmo enfrentando todos estes obstáculos o povo pobre se organiza e vai para cima das terras .São homens e mulheres de uma fibra inigualável.

É fácil perceber que se trata de um Estado de terras muito férteis, a maior parte improdutivas, nas mãos de latifundiários, e de riqueza entre as maiores regiões de todo o mundo.

Sem dúvida, o que está mais próximo de explodir é a luta no campo, contra os latifundiários, que demonstram não querer abrir mão, em hipótese alguma, de um só alqueire de suas terras, em grande parte sem documentação de prova de propriedade, além de totalmente improdutivas, em sua maioria. Desde Cuiabá até Porto Velho, o que se vê é apenas pasto e pouco gado nas imensas fazendas de latifundiários, enquanto que nos pequenos lotes dos camponeses encontramos um grande índice de aproveitamento da terra que , se não é maior é devido ‘a falta de apoio técnico e financeiro aos camponeses.

"Por tudo isso, já tivemos alguns companheiros indo à Brasília, entre eles o Dr. Hermógenes Jacinto de Sousa, que também está ameaçado de morte por nos defender. Vamos até ao Japão, se preciso for, para denunciar as barbaridades que estão acontecendo em Rondônia, pois se depender dessa imprensa brasileira comprada e nas mãos dos poderosos, eles vão continuar matando muita gente pobre e indefesa e sem que ninguém tome conhecimento. Aqui, tudo funciona na base do dinheirono próprio Incra. Rondônia está cheia de mafiosos, mata-se por qualquer R$ 100,00", disse Caco, coordenador da LCP.

Na porta do Incra, em Porto Velho, enquanto aguardávamos informações, um camponês, que se identificou pôr Virgolino, também demonstrava uma indignação muito grande. "Não resolvem nada e ainda complicam tudo. Me tiraram de um pedaço de terra e me jogaram em dois outros, cheios de pistoleiros que praticamente me obrigaram a sair, pois as terras tinham "dono". Você acha que eu iria ficar? Agora, tento arranjar um novo pedaço de terra, pois preciso trabalhar, produzir. .

"Esse governo FHC não nos dá nada, é roubo em cima de roubo, moço. Só esses políticos safados e corruptos, ou poderosos como esses latifundiários têm direito a tudo. Inclusive, a não respeitar as leis e usar pistoleiros para matar camponeses. . Leis só valem para os pequenos. Tem políticos aqui mesmo de Rondônia que dizem abertamente que as leis são feitas para não serem cumpridas. Com tudo isso, ainda querem nos impedir de fazer um garimpo ou ter um pedacinho de terra para o plantio,. Estão querendo o quê? Uma revolução, mortes de tudo quanto é lado?, protestou um associado do STR de Espigão do Oeste.

Comissão vai a Brasília

No dia 14 de agosto, em Brasília, uma comissão de representantes da Liga dos Camponeses Pobres apresentaram as denúncias que, pela sua gravidade, obtiveram grande repercussãono estado. A própria mídia de Porto Velho passou a admitir uma intervenção no Incra local. "O Incra poderá sofrer intervenção no Estado", foi a manchete da página 4 do primeiro caderno do Estadão, de Rondônia.

Formada pelo advogado da LCP, Hermógenes Jacinto de Sousa, e os camponeses Pelé e Iranir, todos, por sinal, ameaçados de morte e sofrendo todo tipo de perseguições, a comissão denunciou à Ouvidoria Agrária do Incra, a impunidade de mandantes e executores de, pelo menos, dez assassinatos de sem terra, com crueldade, falsificação de escrituras de terra, assédio de policiais a mulheres e crianças acampadas, destruição de barracas com pertences, tortura, despejos e outras arbitrariedades cometidas por policias civis, militares e jagunços, principalmente em Buritis, Machadinho do Oeste e Ariquemes.

Na Ouvidoria Agrária, ficou registrado também que policiais civis da Delegacia de Crimes Contra o Meio Ambiente, de Porto Velho, agem sem mandado judicial e abusam da autoridade em Buritis e Jaru. Além disso, dificultam as informações sobre assassinatos, entre eles o da sem-terra Selma de 29 anos, que liderava o acampamento Nova Esperança(ex-Fazenda Bariat), em Jaru. Selma foi assassinada em 22 de julho, com um tiro nas costas, disparado por um vigia de supermercado.

"A cada dia, sofre-se mais ameaças de morte. Eu sei que estou na lista, eu encabeço. No mesmo caso, está o José Fragoso de Araújo, o Pelé, entre muitos outros. Pistoleiros se confundem, não se sabe se é policial. Tem áreas como a da Fazenda Galo Velho, a luta é antiga, mesmo estando desapropriada e sem cumprir a função social. E o que é mais grave, destroem plantações. Tem terra até sem documento. O que vemos? Câmara, Incra, Ministério Público, Ibama apoiando os grandes latifundiários. Uma afronta à Constituição.

Terá que haver uma providência do Governo. Pôr isso viemos a Brasília, denunciar a todos os órgãos competentes, inclusive internacionais, para que se evite novos massacres." Disse o advogado da Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia.

Depois de afirmar que Rondônia vive há mais de um mês debaixo de muita tensão, o Dr. Hermógenes continua denunciando:

"Até agentes da polícia civil estão agindo como pistoleiros em Jaru, numa área do Seringal 70, desapropriada pelo Incra em favor da Leme Empreendimentos. Nesse caso, avocamos o processo, com baseno relatório do executor do Incra em Jaru, que considerou parte da área improdutiva e sem cumprir a função social. Também registramos na Ouvidoria Agrária que policiais civis da Delegacia de Crimes Contra o Meio- Ambiente, de Porto Velho, agem sem mandado judicial e abusam da autoridade em Buritis e Jaru. Há que se tomar providências urgentes", afirmou.

Senador Amir Lando pede intervenção no Incra de RondÔnia

Igualmente preocupado com o clima de tensão dominante na região, o senador Amir Lando encaminhou um relatório sobre toda a situação de insegurança, ao Ministro da Justiça de Desenvolvimento Agrário, Paulo de Tarso Ramos Ribeiro e ao presidente do INCRA, Sebastião Azevedo, pedindo intervençãono Incra de Rondonia.

Segundo os dirigentes da Liga, não é de hoje que o senador vem sendo informado de tudo que está se passando em Rondônia e , especificamente em Corumbiara. "Há dois anos o senador chegou a fazer uma audiência com o Sebastião, do INCRA, mas não adiantou nada", disse Pelé.

Em Porto Velho, o advogado Er-nandes Segismundo também se diz conhecedor do assunto:

"Tenho batido forte em termos de jagunço. Se não os prenderem, nós vamos prender e entregar ao delegado da área. Não é possível continuarmos assistindo uma situação como esta, de total ilegalidade. Tem jagunço sendo visto encapuzado. Qualquer cidadão pode fazer uma prisão dentro da lei. E vamos fazer, se não tomarem providências", garantiu.

São perseguições com
aval do governo estadual

Depois de levar quatro tiros em atentado recente, Pelé continua ameaçado de morte. Apesar disso, garante não recuar na luta por justiça e para que não se repita o massacre de Corumbiara, que compara à guerra dos Canudos..

"Se o governo federal não tomar providências, um novo confronto entrará para a história do mundo, não apenas do Brasil. Circula na região Norte de Rondônia, uma lista de quatro companheiros nossos que esses pistoleiros ameaçam matar. Mais grave é que essa campanha de perseguição tem o aval do governo estadual, que está do lado dos latifundiários. Fomos à Brasília para denunciar tudo. Se eu, por exemplo, for tombado, todas as autoridades estarão sabendo. Se pensam que me metem medo, se enganam. Não vou sair de Rondônia, para onde vim a fim de produzir, sustentar minha família , não sou bandido. Bandidos são os que se apoderaram das melhores terras e ainda perseguem os pobres, o dia deles vai chegar. Vamos continuar lutando e protestando, inclusive com movimentos estaduais. Do jeito que está, não pode continuar", afirmou Pelé.

Outro que fez parte da comissão de camponeses pobres em Brasília, Irani também garante que não irá fugir à luta.

"Em Ariquemes, temos 150 famílias acampadas há oito meses, no Pacolândia, outra área improdutiva. Para nos obrigar a sair, circulam 15 pistoleiros e policiais fortemente armados, pressionando o tempo todo. Já derrubaram muita coisa. Só queremos a divisão da terra para produzir. Nada mais. O Incra sabe de tudo, mas não resolve. De repente, poderá haver novo massacre. Estamos avisando antes. Denunciamos ao Ministério Público, à Anistia Internacional, à Associação Internacional dos Advogados, STJ, STF, ao Congresso Nacional, a todos, enfim. Esperamos as providências", disse Irani.

Jaru vive mais um dia de protestos e de violência policial

Em Jaru, no dia 23 de julho, foram muitos os abusos e arbitrariedades cometidas pela PM para impedir a manifestação do povo na BR-364, em protesto contra a situação de opressão direcionada aos camponeses sem terras acampados, professores, detentos do Urso Branco, as 12 pessoas assassinadas na cidade de Buritis.

Neste protesto os camponeses estavam destacando, principalmente, o assassinato da líder Selma, o atentado contra "Pelé", na região de Cujubim, e a ameaça de morte, feita pelo latifundiário Jorge Schaparini, contra o advogado Ermógenes, da LCP. Em todos os casos, conforme denunciam os coordenadores da Liga, as autoridades e a polícia não tomam providências. Durante a manifestação, policiais militares danificaram a filmadora de um integrante da LCP, multaram um veículo, apenas por estar participando da manifestação, e agrediram a cassetetes uma senhora idosa, fazendo-a cair e passar mal.

Não recuaremos
em nossa luta

"Que vai tombar muita gente de ambos os lados, vai, porque não iremos recuar da nossa luta por um pedaço de terra para plantio ou mesmo a simples sobrevivência de nossas famílias. Poderosos e impunes, os latifundiários continuam mandado matar companheiros, conforme fizeram recentemente com a companheira Selma, sem que alguém tenha sido punido até o momento.No mínimo, eles mandam torturar, aterrorizar. Quando um de nós tem sorte, conforme foi o caso do Pelé, ficam as marcas de tiros. Pode escrever aí: eles não nos metem medo e não vamos recuar. Temos hoje, quatro áreas improdutivas ocupadas. Em volta delas, o que não falta é pistoleiro e jagunço armados até os dentes, sem que nenhuma autoridade faça nada. Mas não nos metem medo e não vamos recuar".

Quem garante é João, de Jaru, como é mais conhecido. Olhar frio e fixo, certeza do que diz, faz nova advertência:

"Ou as autoridades tomam providências, fazem justiça, dividem a terra que esses tubarões só querem para simples posse, nada produzindo, ou vai morrer muito mais gente, infelizmente, E policiais que também têm famílias e são trabalhadores como nós. Eu próprio, inclusive. Não é possível agüentarmos por muito mais tempo tanta podridão e injustiça social de todo tipo nesse país. Só queremos o que é justo, nada mais", disse João, de Jaru.

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