Salitre: a determinação do campesinato

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Na tarde de quinta-feira, 19 de agosto, de acordo com informações adquiridas através do jornal Luta Camponesa-LCP-CO, os camponeses acampados da fazenda Floresta/Salitre, em Patrocínio/MG, ensacavam seus pertences para provisoriamente se alojarem em uma área de 5 hectares, negociada no dia anterior com a representante do Incra e da Ouvidoria Agrária, Moema de Fátima Sales.

A representante voltou na manhã do dia seguinte, acompanhada por policiais e seguranças da fazenda.

No instante em que os camponeses abriram os colchetes para a entrada dos caminhões destinados ao transporte da mudança, a polícia militar irrompeu no acampamento. Eram 17h15 m; um efetivo de 250 policiais, fortemente armados com espingardas calibre 12, cães, bombas de gás lacrimogênio, bombas explosivas, produtos tóxicos (pó branco), balas de borracha e um trator de esteira. Entraram atirando. Segundo o Relatório protocolado pela Liga dos Camponeses Pobres do Centro Oeste na Promotoria de Direitos Humanos no dia 25 de agosto, os policiais deram coronhadas nos homens e mulheres, empurraram idosos e arrastaram crianças pelos cabelos. Todo este aparato para barrar a bravura de 150 mulheres, homens e crianças.

Desarmados, os camponeses defendiam suas crianças, idosos e aquela terra da qual já tiravam do que comer. Criavam porcos e galinhas. A presença da ouvidora, propondo negociações, representou mais um engodo para atacarem de surpresa os camponeses.

Um helicóptero efetuava rasantes despejando um pó químico que queimava e fazia coçar. Também disparou bombas em tudo e em todos. Um trator de esteira derrubou os barracos, ainda com os pertences dos camponeses; destruíram todo acampamento e a lavoura, mataram vários animais, atearam fogo no que tomaram dos trabalhadores. Por fim, derrubaram árvores, numa tentativa de incriminar os camponeses por crime ambiental.

As agressões e o desrespeito por parte dos policiais atingiram desde bebês até um senhor de 94 anos. Devido às substâncias tóxicas lançadas pelos policiais, quase todas as crianças apresentavam bolhas nos lábios e sangramento no nariz. Muitas foram jogadas ao chão e arrastadas pelo cabelo, outras receberam tiros de borracha na perna e na cabeça.

Uma bomba foi arremessada no colo de uma criança, deficiente física, que sofreu queimaduras. Uma mãe, com seu bebê de apenas 2 meses nos braços, também foi lançada ao chão a pontapés. Com a queda, o bebê sofreu sangramento no ouvido. Outros bebês não conseguiam mais mamar. Após ter o contingente policial causado toda essa destruição, 41 homens e 2 mulheres foram algemados, permanecendo 5 horas sob intenso frio, na beira da estrada. Seus respectivos documentos pessoais foram arrancados dos bolsos, cartões de aposentadoria e bolsa-renda quebrados.

Havia muita pressão, particularmente sobre as mulheres do acampamento Floresta/Salitre, pois recaía em seus ombros a proteção de todos e, mais uma vez, a valentia destas combatentes do povo se fez presente. Elas se recusaram a sair do acampamento, enquanto não houvesse notícias dos seus companheiros aprisionados, evitando assim mais torturas e até mesmo assassinatos. Sebastiana Maria foi agredida na cabeça com coronhadas, ainda no chão recebeu um tiro de bala de borracha no abdômen e teve sua coluna pisoteada por um "gorila" do Gate — Grupo de Ações Táticas Especiais. O senhor Joaquim, de 94 anos, devido a sua dificuldade auditiva, não percebeu quando o policial o mandou deitar. Foi prontamente algemado, espancado e atirado ao chão.

Dos 43 camponeses ilegalmente presos, 37 foram liberados somente no dia seguinte às 21 horas. Permanecem arbitrariamente presos: Ênio Antônio da Silva, Genivaldo Oliveira Domingos, Gervásio Vilaça da Silva, João de Deus Rodrigues, Osair Pinto de Oliveira e Vanir Pires de Oliveira. Na delegacia, sofreram tortura, coisa comum em Patrocínio. Manoel recebeu choques elétricos e passou por sessões de afogamento. Agulhas foram colacadas debaixo das suas unhas para que ele dissesse que havia armas dentro do acampamento e denunciar nomes de lideranças. Vanir foi torturado em um córrego, também submetido a sessões de afogamento. Obrigaram Ênio e Ceará a assinar um depoimento que os incriminam como assaltantes de banco e ladrões de caminhão. João de Deus urina sangue por ter sido violentamente agredido por cinco policiais, principalmente pelo sargento, ou tenente, Couto. Seguravam sua cabeça e batiam-na contra o chão. As vítimas apresentam muitas lesões..

Conforme ANDnº 17, o acampamento existia desde 8 de novembro de 2003 e, em 12 de março deste ano, já havia sofrido outro ataque da PM, sendo os camponeses obrigados a se retirarem temporariamente da área. Na época também não faltaram tentativas de intimidar e humilhar os camponeses, que com sua dignidade e força costumeiras logo retornaram à Fazenda Salitre, no município de Patrocínio, Oeste de Minas Gerais, terra que elegeram como sua, onde querem criar seus filhos e já estavam produzindo.

Luzes, câmara e ação

Fatalmente as "autoridades competentes", dependendo do barulho que se faça, afirmarão, diante das câmeras e microfones, que houve excessos.

Tentarão também repartir a responsabilidade entre a coronha e a cabeça atingida, alegando que, se houve violência de parte à parte, possivelmente foi a cabeça que iniciou o conflito, atingindo violentamente a coronha. Caso as mentiras dos policiais excedam a paciência dos próprios burocratas, não faltarão pronunciamentos dando conta de que "tudo será apurado" e se, por ventura ficar comprovado o abuso, os policiais envolvidos serão punidos.

O festival de cinismo e hipocrisia já teve início. A representante do Incra, Moema Fátima de Sales, chorava e se mostrava preocupada com os camponeses na frente dos repórteres. Momentos antes, ela ria e debochava de uma camponesa que era espancada pela polícia.

Hoje a fazenda está tomada por pistoleiros pagos pelo latifundiário Alaor Ribeiro de Paiva portando armas de grosso calibre. Óbviamente não são incomodados por policiais, afinal campanha de desarmamento e crime de porte são coisas só para o povo.

Ódio proporcional ao medo

Camponeses organizados para conquistar a terra, colocá-la para produzir imediatamente e não para fazer ocupações cinematogáficas em fazendas de gente famosa, e depois voltarem para a beira da estrada. Camponeses que não mendigam cesta básica, que não dão voto a político e quando recebem algo do Estado entendem que foi uma conquista e não uma dádiva. Gente que não se curva, é sempre considerada perigosa e deve ser combatida violentamente.

Para justificar tão covarde e brutal ataque, é necessário criar o monstro. As invenções vão desde os crimes ambientais à preparação de guerrilha. Se nada é encontrado, pode-se afirmar que existia a intenção. O problema é que os próprios inventores da mentira passam a temer o monstro e como ele é na verdade gente decidida, valente, lutando por uma causa justa, causam derrotas aos seus opressores. O ódio e o medo aumentam. Torna-se uma questão de honra (melhor seria falta de) expulsar aqueles camponeses da terra, expediente ao qual não faltam todo o aparato do Estado latifundiário, ao nível municipal, estadual e federal.

Os camponeses, por outro lado, sabem que sua única alternativa é lutar para conquistar a terra e destruir o latifúndio. Inevitavelmente sofrem derrotas neste prolongado processo, que foi apenas uma batalha, ainda não concluída, mas sua vitória é inevitável. As Corumbiaras, os Eldorados, e os Patrocínios não intimidam, ao contário servem de exemplos.

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