Em nome do povo

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À meia-noite do dia 22 de agosto de 1927, em Charlestown, USA, três homens foram executados pelo Estado. Presos sob a acusação de assalto e duplo homicídio (ocorridos em abril de 19201, em South Braintree, Massachusetts), eles estavam condenados à morte desde abril de 1927. Dois desses homens — os imigrantes italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti — eram inocentes. As arbitrárias execuções de Sacco e Vanzetti foram resultado de um ardil contra o movimento operário. Todo o processo foi uma farsa judicial, arrastada até o término do assassinato oficial.

O proletariado de todo o mundo imediatamente denunciou a Corte do USA e o caráter de classe do processo contra os dois trabalhadores italianos radicados naquele país. Houve ampla divulgação na imprensa operária e foram realizadas intensas mobilizações de massas, como greves em diversos países (incluído o Brasil). O escritor estadunidense Howard Fast2 escreveu um livro sobre o caso: The Passion of Sacco and Vanzetti, publicado pela primeira vez em 1953. Reproduzimos, abaixo, alguns trechos. As páginas aqui indicadas referem-se à edição de Jornalivro n° 9, de fevereiro de 1986, tendo sido preservada a sua tradução. 

A cilada

"No dia 15 de abril de 1920, esse ladrão, Celestino Medeiros, entrou num carro com mais três homens. Dirigiram-se para norte de Providence, Rhode Island, rumo à cidade de South Braintree, no Massachusetts, onde chegaram pouco antes das três da tarde. Estacionaram o carro em frente de uma fábrica de sapatos. No interior da fábrica estavam a ser contados 15.776 dólares destinados ao pagamento de salários. Eles sabiam disso pelos seus contatos no interior da fábrica. Portanto, estacionaram o carro à espera que o dinheiro fosse contado e os dois guardas saíssem (...) transportando o dinheiro em pesadas caixas de metal. Faltavam precisamente um minuto ou dois para as três horas. Quando os dois guardas apareceram, dois dos homens que estavam no carro saíram e, dirigindo-se para eles, abateram-nos friamente a tiros — sem lhes dar qualquer oportunidade de se renderem ou fugirem. Os homens apoderaram-se do dinheiro e saltaram para o carro, que se afastou imediatamente." (p.3)

Assim, Howard Fast começa a reconstituir o crime de South Braintree, iniciando pela descrição do imigrante português Celestino Medeiros, um dos quatro homens envolvidos no latrocínio. Um crime pelo qual dois outros homens iriam morrer injustamente.

"Medeiros sabia disto. Conhecia esses dois homens. Um deles era o sapateiro chamado Sacco. O outro um peixeiro chamado Vanzetti, e ambos eram simples trabalhadores italianos.

(...) Durante os anos que passara na prisão, tinha pensado profundamente nesses dois homens condenados à morte por um crime que não haviam cometido e com o qual nada tinham, mas que ele próprio cometera e com o qual tinha muito." (p.3).

O terceiro capítulo expõe — ainda que a imprensa imperialista procurasse omitir — a comoção que o caso Sacco-Vanzetti causara por vários cantos do mundo. Mas os magnatas da comunicação somente permitiram que a história chamasse a atenção já no seu desfecho, quando o circo montado em torno da acusação — que visava ocultar a repressão a todo o movimento socialista — começou a despertar a curiosidade do povo em geral.

Dessa forma, a estratégia previa que o caso permanecesse nos estreitos limites de uma enternecida curiosidade por parte da "opinião pública", produzindo nada mais que compaixão pelo terrível destino que aguardavam Sacco e Vanzetti. Afora os leitores da imprensa operária e o proletariado atuante, poucos sabiam se tratar de uma manobra para atacar o movimento operário, razão pela qual durante longos anos as peças do processo dos dois sindicalistas se acumularam de maneira irreversível.

"Sacco e Vanzetti, porém, eram comunistas, ou socialistas, ou anarquistas, ou elementos profundamente subversivos de uma espécie ou doutra, e houve muitos jornais em todo o país que não imprimiram uma linha a respeito deles antes de chegar a hora de eles morrerem (...). " (p.5)

Medo e coragem

Fast narra a aproximação do momento (meia-noite) em que seriam executados os condenados e a tensão que dominava os três homens. Sacco (temperado nos enfrentamentos não apenas contra a criminosa magistratura, mas contra toda a máquina de repressão ianque) consola o ladrão Medeiros, desesperado com os piques de luz na cela. Eram indícios de que testavam a corrente que alimentaria a eletrocução.

"Quando Nicola Sacco se encontrava sentado à beira do seu catre e via isto acontecer, ouviu um grito, agudo e penetrante (...). Esse grito vinha da cela vizinha, a de Medeiros. (...) Pôs-se de pé num salto, correu para a porta da sua cela, e gritou através da grade:

— Medeiros, Medeiros, você está a ouvir-me?

— Estou a ouvi-lo. Que quer? perguntou Medeiros.

— Quero confortá-lo um pouco. Quero que tenha ânimo."(p.11)

Sua serenidade permitia dizer coisas como:

“— Eles podem crucificar hoje os nossos corpos como estão a fazê-lo, mas não podem destruir as nossas idéias, que ficarão para os jovens do futuro...” (p 11)

Ao lado do drama pessoal dos prisioneiros, Fast dá conta dos inúmeros protestos e mobilizações que antecederam o assassinato dos italianos.

"Há três ou quatro dias, pessoas preocupadas com o caso de Sacco e Vanzetti afluíam a Boston, vindos de todos os Estados Unidos. Quando o governador do estado tomou a decisão final de que Sacco e Vanzetti deviam ser supliciados à meia-noite de 22 de agosto, muita gente, em muitas partes dos Estados Unidos, teve a impressão de poder ouvir o surdo mas amargo gemido de angústia que saía de Boston. (...) A execução é tão velha como a humanidade e é grande o número de inocentes que foram supliciados. Contudo, nunca nesta terra uma execução iminente afetou e abalou tantas pessoas." (p.14)

Em Nova Iorque, a multidão era encarada com temor pelas forças repressivas:

"Ainda antes das quatro horas da tarde do dia 22 de agosto, já muita gente estava na Union Square em Nova Iorque, centenas de pessoas, algumas delas sossegadamente paradas em pequenos grupos, outras ainda movendo-se como se andassem à procura de qualquer coisa que não era fácil encontrar. E a polícia também lá estava. Nos telhados em volta da praça, a polícia instalara postos de observação e ninhos de metralhadoras, e as pessoas que se encontravam na praça, olhando para cima, podiam ver as figuras dos polícias recortadas contra o céu e as feias bocas rombas das metralhadoras apontadas para baixo, para elas." (p.21)

Numa outra passagem, a narrativa revela o amor de Sacco pela esposa Rosa:

"De olhos muito abertos, Sacco sonhava na sua vigília, os seus pensamentos viajando para trás como um barco a navegar num mar de amargura. (...) Recordava todas as ocasiões em que sua mulher, Rosa, tinha tomado parte nesta ou naquela récita de amadores. Rosa era bonita, graciosa e talentosa; ele sempre achara que ela devia ter sido uma atriz célebre. (...)
Ele só tinha olhos para Rosa. Não que o seu casamento fosse sempre um sonho de amor romântico. Às vezes zangavam-se um com o outro, (...) mas a coisa acabava sempre por rebentar e eles deitavam tudo cá para fora sem deixar nada oculto. Era uma posição de igualdade e também de franqueza (...)" (p.29)

A coragem das massas parecia ter se juntado aos condenados. De acordo com a narrativa de Fast, o outrora covarde Medeiros se encheu de dignidade e recusou a "ajuda" de um sacerdote, chamado pelo diretor do presídio para conceder-lhe o direito do arrependimento. Assim respondeu Medeiros à tentativa de aplicar-lhe a norma que prescreve ao condenado a liberdade de resignar-se pela vida miserável que lhe deu o modo de exploração capitalista:

"Às nove horas veio o padre. Por nascimento, todos os três homens que se encontravam na casa da morte eram católicos romanos, mas Sacco e Vanzetti já tinham tornado claro que nenhum deles desejava ou necessitava desse tipo de assistência. Visto isso, o padre veio para Celestino Medeiros, ladrão e assassino, e o diretor introduziu-o na câmara da morte, lúgubre e silenciosa.(...)
— Não quero um padre — disse Medeiros lentamente, organizando as suas palavras e os seus pensamentos com grande dificuldade e com grande seriedade —, porque isso pode trazer com ele o medo. Agora não tenho medo. Hoje durante todo o dia, e ontem, e anteontem, e no dia antes de anteontem e no dia antes desse, eu tive medo. Morri vezes sem conta, e de cada vez que morria sofria muito. Esse medo é a coisa mais terrível que há no mundo. Mas agora tenho aqui dois camaradas chamados Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti que falaram comigo e me libertaram do medo. É por isso que não preciso de um padre. Se não tenho medo de morrer, então não tenho medo de nada que possa suceder depois da morte." (p.31)

Também o Brasil

No último capítulo, Fast contrapõe o momento final dos três condenados com as manifestações que aconteciam por diversas partes do mundo, exigindo a suspensão da execução:

"Em Londres, não eram ainda cinco horas da manhã, e aí o ponteiro da morte tinha-se deslocado penosamente durante toda a noite no seu círculo. Agora as caras dos mineiros do carvão, dos operários têxteis e dos estivadores britânicos estavam cinzentas e marcadas pelas sua longa vigília (...)
No Rio de Janeiro, era entre a uma e as duas da manhã e uma multidão crescente concentrava-se diante da embaixada dos Estados Unidos, rugindo um protesto de desafio e um apelo — em tão alto clamor que por certo os céus deviam repercutir-lhe o eco à distância, levando-o tão longe como a própria cidade de Boston, no Massachusetts. (...)
Em Bombaim, os trabalhadores mal tinham iniciado o seu turno numa grande fábrica de algodão, quando um deles saltou para cima de uma máquina, ágil como um acrobata, e gritou para os outros:
— Agora vamos fazer uma greve de braços caídos durante esta hora, esta última hora, em honra a dois camaradas que vão morrer."

A covardia do Estado, no entanto, foi concretizada. E a execução dos prisioneiros foi assim decrita pelo autor:

"E agora dentro da prisão a hora final alcançou o seu fim e chegou o momento de o primeiro homem morrer. Esse primeiro homem era Celestino Medeiros (...)

O segundo a morrer foi Nicola Sacco. (...) Com grande calma e dignidade encaminhou-se para a cadeira elétrica e sentou-se. Manteve o olhar fito em frente enquanto lhe aplicavam os eletrodos. As luzes baixaram e, passado um momento, Nicola Sacco estava morto.

O último dos três era Bartolomeo Vanzetti. (...) Depois do silêncio que acompanhara a morte de Sacco, ouviu-se um suspiro que se elevou do meio daqueles homens, e a seguir um murmurar de vozes a perguntar como agiria Vanzetti. (...) Vanzetti penetrou-lhes as defesas. Olhou para eles com o que só pode ser descrito como um olhar de juiz e pronunciou as palavras que tinha decidido dizer, lenta e claramente:

— Desejo dizer-vos (...) que estou inocente. Nunca cometi um crime... (...)

Eram homens duros os que ali se encontravam, mas por duros que fossem, sentiram um aperto na garganta, e muitos entre eles principiaram a chorar. Não lhes ocorreu nesse momento secar as lágrimas com o argumento de que estavam simplesmente a chorar por dois radicais italianos supostamente alheios a tudo que é conhecido por americanismo. (...)
Então as luzes baixaram, e quando tornaram a acender, Bartolomeo Vanzetti estava morto".


1 O USA criou, após a Primeira Guerra, um clima permanente de repressão, que se acentuou e ganhou outros nomes em sucessivas oportunidades. Nesse período, vigorou o Red Scare (Pânico Vermelho), sustentado pelas classes dirigentes durante a administração Warren Harding (1921 - 1923). Harding era um racista confesso que se destacou na direção das perseguições contra o proletariado (particularmente o imigrante) e nas chantagens contra as organizações socialistas legais. Ao final de sua administração, foram descobertos terríveis crimes — cometidos por ele e seus assessores diretos — contra as liberdades democráticas e também contra o Tesouro. Esse período corresponde à segunda estratégia do imperialismo ianque, mais conhecida por Big Stick — o Grande Porrete.
2 Walter Ericson Fast (Howard Fast) nasceu em Nova Iorque, em 11 de novembro de 1914. Estréia na literatura com a novela As crianças (1937). Em 1950, Fast — vítima do nascente macarthismo — passa três meses na prisão, após corajosa presença nos movimentos antifascistas. O macarthismo (1950 -1956) — expressão que referencia o senador MacCarthy — é um desmembramento da quarta estratégia de dominação do USA, que engloba a Guerra Fria, a chantagem nuclear, campanhas de terror dirigidas pela CIA em todo o mundo, a Aliança para o Progresso e a implantação de gerenciamentos militares na América Latina (1945-1975), entre outras políticas contra-revolucionárias. Entre os episódios de maior destaque na época do macarthismo, que vitimou 6 milhões de pessoas no USA, está a execução do casal Rosemberg (Ver AND 19, pág. 27). Fast foi perseguido pelo resto de sua vida pelo terror infinito, política praticada pelas pessoas marcadas pelo Departamento de Estado, chegando a ponto de declarar neutralidade na questão internacional, renunciar ao Partido Comunista de seu país etc.
Sua obra mais conhecida é Spartacus, romance em que narra a epopéia dos gladiadores na revolta contra a Roma antiga. Fast faleceu em 12 de março de 2003.
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