Editorial - A visita do inspetor

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O inspetor geral é gente fina. Sorridente, atencioso, aberto a sugestões. Prova disso é que ele próprio, quando chegou, convidou a sociedade civil organizada das ONGs para participar de um encontro, onde respondeu às críticas sobre as exigências do Fundo Monetário Internacional. Imediatamente, foi explicando que o receituário do FMI deu certo lá para as bandas da Ásia. Disse também que a estabilidade macroeconômica é imprescindível para a redução da pobreza. Explicou que são os países endividados que desenham dívidas maiores quando solicitam planos de financiamento. Também esclareceu que o Fundo não afeta a soberania das nações, apenas não apóia políticas contrárias aos seus planos.

Bem informado, o inspetor não poupou elogios à economia brasileira e foi mais otimista que o Banco Central. Adiantou ele que o “aumento sustentado” de investimento público deve se fundamentar na transferência de despesas correntes de áreas não prioritárias.

Num outro encontro, com Palocci, três dias antes do governo deflagrar a campanha patriótica eleitoral, o ministro corajosamente assegurou ao senhor inspetor que o Brasil sequer reinvindica “enfraquecer o esforço fiscal” para reduzir o pagamento de juros.

Rato, é o nome dele, também elogiou a capacidade da economia brasileira de “absorver impactos externos”, como a importância de seguir a orientação do FMI para proceder o que chama de “reformas estruturais”.

O senhor Rodrigo Rato foi ministro da Economia de José Maria Aznár, defenestrado nas últimas eleições espanholas. Na época, Aznár achou por bem culpar a oposição pelos atentados de Madri para manter-se no cargo. O povo preferiu outras versões e, então, cairam o primeiro-ministro e os demais, inclusive Rato, que havia dado imensas contribuições ao FMI na época. O ministro da Economia, entre outras proezas, cometeu o desmantelamento da previdência social em seu país. Não ficou desempregado. Tornou-se diretor-gerente do Fundo.

II

Rodrigo Rato é declaradamente de ultra-direita, fascista de carteira assinada e emprego garantido. Com ele, a qualidade de vida das classes populares baixou sensivelmente na Espanha e o nível do “trabalho temporário” tornou-se o mais alto da União Européia. Em compensação, os conhecimentos escolares situam-se entre os mais baixos na Europa, assim como a assistência médica às criança.

Já as respostas do inspetor nos remetem a outras perguntas: Como os “asiáticos” reergueram alguma coisa se os tão decantados “tigres”, após a depressão dos anos 90, se transformaram em gatos de beco? A estabilidade macroeconômica para os do FMI, como para os seus agentes internos, por acaso não significa colocar grande parte da população abaixo da linha da pobreza, a exemplo do que aconteceu durante os 10 anos do blefe real? Certamente, são mesmo os países que escolhem planos de financiamento de agiotagem, mas porque já não têm mais dinheiro algum para pagar dívidas ao próprio FMI. Ainda assim, não é verdade que o empréstimo é feito com operações de papel sem valor, resultando em novas e catastróficas dívidas?

As cláusulas do FMI, ao contrário do que afirma, só não admitem soberania, senhor Rato. E a cada dia, a imprensa a serviço dos agiotas fala de um novo “acordo” lesivo aos interesses nacionais.

Imperturbável, o astuto, o piedoso gerente aconselha a transferir recursos de áreas secundárias para as prioritárias, mas não lhe ocorre que estas últimas, pelo seu próprio caráter, já absorvem toda a disponibilidade de dinheiro arrecadado. Ainda, esse senhor não se lembra que os recursos do Fundo raspam todo o tacho, não sobrando verbas nem para o atendimento prioritário, sendo também discutível o significado de prioritário, tanto mais que ele é traçado pelo FMI. A propósito, "Enquanto se privilegiam as metas — fixadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) — e os pagamentos para os bancos internacionais, se retira um dinheiro do Brasil que deveria ser aplicado em sua infra-estrutura e na diminuição da desigualdade social", afirmou Roberto Busato, presidente da OAB e autor da ação declaratória de negativa de vigência de dispositivo constitucional” que questionará a formação da dívida externa brasileira. Quem é esse Brasil que não repudia os acordos do superávit traçado pelo FMI? O país dos brasileiros ou hipotético mundo dos traidores e colonizados? Quanto à capacidade de absorvermos impactos externos, grande Rato, a próxima crise lhe dará a melhor resposta.

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