Pau D’Arco: Encontro define avanço da luta pela terra

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O histórico Encontro Camponês do Sul do Pará, realizado nos dias 28 e 29 de outubro nas terras retomadas da fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco, afirmou o caminho da luta pela conquista da terra e fim do latifúndio com importantes definições para a organização e mobilização camponesa na região.

Ellan Lustosa/AND
Juventude presta homenagem solene aos dez camponeses vitimados em Pau D'Arco, 28/10 (Foto: Ellan Lustosa/AND)
Juventude presta homenagem solene aos dez camponeses vitimados em Pau D'Arco, 28/10

Os movimentos populares, sindicatos e associações que participaram do Encontro decidiram pela imediata mobilização dos camponeses de diferentes áreas do sul do Pará para a preparação e organização da luta pela terra e também a realização de um novo encontro camponês em Redenção, em janeiro do próximo ano.

Como resultado do vitorioso Encontro também foi redigida a Carta de Pau D’Arco, que aponta para a união de camponeses, indígenas, quilombolas e atingidos por barragens e minerações na luta pela conquista da terra para quem nela vive e trabalha.

O jornal A Nova Democracia realizou a cobertura exclusiva do evento, registrando as vibrantes falas dos presentes e as graves denúncias contra os crimes do latifúndio.

Um marco na luta camponesa

O Encontro é considerado um importante marco na luta camponesa no país, especialmente para o estado do Pará. Foi um espaço de reorganização do movimento camponês no sul e sudeste do estado e de afirmação do caminho pela tomada de todas as terras do latifúndio como única saída para pôr fim à exploração e opressão camponesa e libertar o país da subjugação imperialista e acabar com a crise, levantando bem alto a bandeira da Revolução Agrária e aglutinando os setores mais consequentes.

O dirigente da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) do Norte de Minas e Sul da Bahia conversou com a nossa equipe sobre o Encontro.

— Estamos aqui nessa atividade nos solidarizando com as famílias dos camponeses assassinados de Pau D’Arco. Pau D’Arco é um marco na história mais recente do movimento camponês. Cada vez mais o movimento camponês se conscientiza de que precisa-se dar um salto, principalmente nessa situação de crise política e moral, e a saída é o movimento camponês apontar para uma Revolução Agrária, começando uma transformação no nosso país.

Também conversamos com um professor que participava do Encontro, que assinalou:

— Hoje, Pau D’Arco representa o símbolo de resistência. Mesmo com a brutalidade e a violência da repressão contra os camponeses pobres, a luta continuou e fizeram uma nova ocupação de terras, demonstrando que a luta camponesa representa uma saída para toda a crise. A luta de Pau D’Arco é uma luta fundamental para a transformação do nosso país, porque hoje em dia a saída para a miséria que existe nas cidades, para o desemprego, para a corrupção, se encontra na Revolução Agrária.

O ativista das Brigadas Populares no Pará, Raimundo, comentou que a Chacina de Pau D’Arco se insere em mais um dos crimes hediondos praticado pela associação criminosa entre os latifundiários do sul e sudeste do Pará com os três podres poderes do velho Estado.

— Entendemos que a Chacina de Pau D’Arco faz parte de um projeto histórico nessa região, arquitetado pelos latifundiários com o apoio do Estado. Os trabalhadores aqui sempre resistiram e sempre foram ameaçados, sempre tiveram quedas diante do latifúndio. Mas também é preciso que se entenda que os trabalhadores têm resistido e a resistência é realmente o que vai garantir que eles deem um basta nesta situação para que possam colocar esses latifundiários para fora daqui e os trabalhadores assumirem essas terras de vez.

O representante da Associação Brasileira de Advogados do Povo (Abrapo) abordou a importância da advocacia popular apoiar decididamente a luta camponesa no país e de servir à luta pela terra.

— Para nós, advogados do povo, essa luta é extremamente importante para que exista de fato uma democracia no nosso país. A gente vê os camponeses lutando pelo direito à terra e a resposta do Estado é sempre a repressão, a violência e o corte de direitos. Precisamos estar unidos para apoiar e prestar solidariedade a esse povo.

Avançar na organização para novas lutas

Ao longo do Encontro foi frisada em várias falas a importância do movimento camponês combativo elevar o seu grau de organização para realizar novas tomadas de terras do latifúndio, garantir a posse das terras ocupadas e avançar na realização do Corte Popular, impulsionando o desenvolvimento da Revolução Agrária no país.

O dirigente da Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres destacou que o que vai garantir a conquista de um pedaço de terra é a luta, com a tomada da terra do latifúndio e depois o Corte Popular.

— Quem ganhou terra é quem entrou e cortou, com ou sem documento. É ilusão, companheiros, achar que vai sair algum documento para os camponeses no próximo ano. Não tenhamos ilusões com os canalhas que administram o Estado. Na Área Revolucionária Gabriel Pimenta tem casa, estrada, tudo com as mãos do povo, sem choramingar ao governo, sem caçar documento no Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], porque foi cortado. Por isso, companheiros, temos que aumentar a nossa organização. Quem garante o lote do meu vizinho sou eu - frisou o dirigente.

Pelé, dirigente da LCP do Sul Pará e Tocantins completou: — O que vai determinar a posse da fazenda Santa Lúcia será a luta, com a união, coragem de ocupar rodovia e o Incra.

O aprofundamento da crise do velho Estado e de suas instituições, a falência da “reforma agrária” e a ofensiva do latifúndio e dos seus bandos paramilitares exigem o salto na organização do movimento camponês combativo, destacaram as falas durante o Encontro.

— Não vamos conseguir mudar as coisas em uma tacada só, nossa luta aumentou de dificuldade e a dificuldade exige uma organização maior, uma clareza maior de quem são os inimigos e uma capacidade maior. A Liga dos Camponeses Pobres chama para essa união para fortalecer dentro das áreas a defesa do Corte Popular - afirmou o dirigente da Comissão Nacional das LCPs.

A camponesa do Acampamento Jane Júlia, Sterfia da Silva Gonçalves, que teve o seu marido assassinado na Chacina de Pau D’Arco, falou da importância de permanecer ocupando as terras, honrando assim aqueles que tombaram na luta.

— A luta está difícil, mas nós não vamos parar. Eu saí do luto para a luta. Eu não vou desistir. A terra está lá e nós não vamos sair.

Uma liderança do povo Terena ,do Mato Grosso do Sul, comentou a importância de persistir na luta, não se intimidar com os ataques do latifúndio em conluio com o velho Estado e transformar a dor e o ódio de perder companheiros e companheiras tombados na luta pela terra e território em força para avançar na organização e na resistência.

— Dói ver um guerreiro tombando levando um tiro. Isso dói, mas também nos fortalece ainda mais para lutar e defendermos nosso território, em busca de nossa terra, daquilo que vai nos sustentar. É da terra que tiramos nosso sustento. Nós só sairemos do nosso território tradicional, o qual nós ocupamos, se o governo mandar um monte de caixão para nos buscar, pois o território é nosso. Nós aqui já estávamos e daqui só vamos sair se formos mortos.

Carta de Pau D’Arco

No Encontro foi aprovada a Carta de Pau D’Arco, que ressalta a importância da luta camponesa travada em Pau D’Arco como marco de resistência e de avanço da luta camponesa no Brasil, além prestar solidariedade aos familiares dos dez camponeses assassinados pelo velho Estado na fazenda Santa Lúcia em 24 de maio deste ano.

A Carta destaca que a Chacina de Pau D’Arco foi um crime de Estado, sendo mais um dos incontáveis crimes hediondos praticados pelos órgãos de repressão do Estado brasileiro, antecedidos este ano pelo massacre em Colniza (MT), no qual nove camponeses foram barbaramente assassinados.

O documento ainda denuncia o conluio entre os latifundiários e o velho Estado e que os grandes proprietários de terra do sul e sudeste do Pará há décadas mantêm grupos paramilitares e grupos de extermínios compostos por pistoleiros, policiais e ex-policiais, cometendo uma série de crimes que têm como resultado a impunidade.

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“Denunciamos o sinistro propósito dos latifundiários e grandes burgueses, de seu velho Estado e seus governos de turno, bem como de seus amos imperialistas de afogar nossa luta em sangue, proclamando em alto e bom som, que muito ao contrário do que pretendem, o precioso sangue derramado de nossos heróis e heroínas regam a nossa luta e faz maior e mais gloriosa nossa causa de uma nova sociedade sem exploração e opressão, sem ricos e sem pobres, de igualdade e solidariedade!”, ressalta o documento.

Em outro trecho da Carta afirma-se que “assim como ao longo dos séculos a nossa luta pela terra nunca parou, cada vez mais, está chegando a hora do acerto de contas, em que o povo do campo, sofrido e mil vezes pisoteado e humilhado, com o apoio dos pobres da cidade, se levantará para acabar de vez com todo o latifúndio, tomando todas suas terras, parte por parte, através da Revolução Agrária, entregando a terra aos camponeses pobres sem terra ou com pouca terra e, unido com o povo da cidade, irá pôr fim a este sistema de exploração e opressão sobre nosso povo e de subjugação e saqueio das riquezas de nossa Pátria, para conquistar a nova democracia, nova economia, nova cultura e o novo Brasil!”.

Homenagens

Os 11 camponeses assassinados na tomada e retomada da fazenda Santa Lúcia foram homenageados no Encontro. Os seus nomes foram pronunciados e as suas fotos expostas, sendo esta solenidade encerrada com a canção Aroeira de Geraldo Vandré, que nos diz que o povo está “escrevendo numa conta” os crimes dos seus inimigos, “pra junto a gente cobrar”, pois “no dia que já vem vindo” vai ser “a volta do cipó de aroeira / no lombo de quem mandou dar”.

A história de vida e luta da companheira Jane Júlia de Oliveira, então presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais de Pau D’Arco, foi relembrada no momento das homenagens. A história de uma mulher que teve um importante papel de organização dos seus companheiros na tomada da fazenda Santa Lúcia e que não se acovardou perante os seus inimigos de classe.

Uma camponesa do Acampamento Jane Júlia falou emocionada do covarde assassinato de seu irmão pelo velho Estado em Pau D’Arco e a importância de familiares e amigos não desistirem da luta pelas terras da fazenda Santa Lúcia.

— Ele era um rapaz alegre e brincalhão. Era um grande pai, esposo e irmão. A última vez que vi meu irmão ele estava com brilho no olhar porque ele estava ali lutando por um pedaço de terra para trabalhar. Ele dizia que queria aquela terra para criar os filhos dele. Mas ali ele perdeu a vida. Isso me deu coragem para que eu continuasse a luta dele e estou lá dentro para lutar com os companheiros e vou até o fim!

Crimes do latifúndio

O Encontro também foi um importante espaço de denúncias para os camponeses vindos de diferentes localidades do Pará e de Tocantins.

Ellan Lustosa/AND
Faixa: Viva a Aliança Operária-camponesa(Foto: Ellan Lustosa/AND)

Uma senhora camponesa de Santana do Araguaia (PA) tomou a palavra para denunciar os ataques de pistoleiros a soldo do latifúndio em conluio com as forças militares do velho Estado contra o acampamento em que reside.

— Pistoleiro em Santana do Araguaia é a polícia, mandado pelo prefeito e pelo delegado. Nós queremos terra. As famílias de Santana do Araguaia necessitam de trabalhar e levar o alimento para a mesa dos filhos. Nós temos que fazer revolução, pois as terras estão na mão dos bandidos.

Uma camponesa da Associação Rosa de Saron de Tocantins também falou dos três despejos que a sua comunidade sofreu. Os camponeses haviam feito um acordo em Brasília para suspender a reintegração de posse da fazenda ocupada - fazenda que já havia sido adquirida pelo Incra para a “reforma agrária” - mas mesmo assim o despejo foi realizado.

— Viemos aqui em apoio aos camponeses de Pau D’Arco. Nós fomos reintegrados da primeira fazenda, corremos para essa fazenda. De repente fomos reintegrado de novo pelo fazendeiro. O Incra foi lá e comprou a terra. Todo mundo lá dentro fazendo as suas roças e seus barracos, de repente vem a justiça de novo, que justiça é essa? O camponês lá produzindo, tentando tirar seu sustento da roça e eles vêm de novo com a reintegração e ainda com covardia.

Ex-prefeito ameaça estudantes

Funcionários da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) que dirigiam o ônibus que levou estudantes desta instituição ao Encontro denunciaram que foram ameaçados pelo ex-prefeito de Pau D’Arco, o latifundiário Luciano Guedes, e dois capangas no dia 29 de outubro.

O ex-gerente municipal teria afirmado que a Unifesspa não poderia apoiar “assassinos e nem comunistas”, referindo-se aos integrantes da LCP. Os estudantes foram obrigados a deixar o evento antes do seu término. Em nota publicada na internet, o movimento Brigadas Populares do Pará também denunciou a covarde ameaça.

Celebrações

Um grande banner de celebração do centenário da Grande Revolução Socialista de Outubro foi colocado na frente do salão onde ocorreu o Encontro como parte da celebração desse evento que abriu uma nova era na história da humanidade: a Era da Revolução Proletária Mundial.

O cinquentenário do Levantamento Camponês de Naxalbari na Índia também foi celebrado. Um grande banner produzido pela Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo (FRDDP) foi estampado no encontro. Uma jovem leu um poema em homenagem ao trovão de primavera que ecoou sobre a Índia, marcando o início da Guerra Popular Prolongada neste país. “Naxalbari / 50 anos de luta, 50 anos de labuta. [...] O povo contra o latifúndio se levantou, / dando início a uma nova era. / Estava ali o seu Partido Comunista / desencadeando a Guerra Popular. [...] A luta armada sacudiu o país [...] Naxalbari segue firme na nossa memória,  / nada pode destruir a sua história. / É um marco que faz tremer o imperialismo [...]”, diz trechos da poesia.

Ameaça de despejo

O Acampamento Jane Júlia, erguido sob as terras retomadas onde ocorreu a chacina e local da realização do Encontro, está sob ameaça de despejo após a Vara Agrária de Redenção emitir um mandado de reintegração de posse. Até o fechamento desta matéria (10/11), os camponeses não haviam sido notificados oficialmente da decisão.

– O que fica evidente neste caso todo é que a Justiça para atender os interesses do latifúndio é extremamente rápida. Já para os familiares das vítimas, o Estado sequer prestou um apoio jurídico, deixando-os à própria sorte em relação à pensão para as viúvas, filhos e demais dependentes. Tem criança de 5 meses que perdeu o pai, e a mãe não tem emprego. – denunciou um representante da Abrapo ao AND.

Ainda segundo a Abrapo, durante reunião com camponeses do Acampamento Jane Júlia realizada em Brasília no dia 24/10, o Ouvidor Agrário Nacional, Jorge Tadeu Jatobá Correia, afirmou que não há perspectiva de negociação entre o Incra e o pretenso proprietário para a entrega  das terras às famílias acampadas.

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