Crítica ao filme Livres

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Estreou no festival de cinema do Rio de 2017 o documentário dramatizado (“docudrama”) Livres. Concebido por seis ex-detentos, o filme aborda a situação carcerária a partir do ponto de vista dos que viveram na pele a realidade degradante dos presídios brasileiros. Em tempos de encarceramento em massa – recentemente, o Brasil alcançou a posição de terceira maior população aprisionada do mundo – reconhecemos como positivo o caráter de denúncia que marca o longa, dirigido por Patrick Granja, jornalista e colaborador de AND.

Corrupção de funcionários e péssimas condições dos presídios são denunciadas
Corrupção de funcionários e péssimas condições dos presídios são denunciadas

São contundentes os depoimentos de Gilson da Maia, Ivonildo Alves, Fabio Gomes, Fabio Gregorio, Renee e Márcio Souza. Ainda como parte das denúncias, Livres evidencia o grau de decomposição do sistema carcerário, que alimenta todo tipo de corrupção e ilegalidade promovidas pelos próprios agentes do velho Estado que o administram e dirigem. Contudo, o filme também peca em aspectos essenciais, sobretudo, quanto às perspectivas apresentadas para combater e superar este grande encarceramento. Por isso, enumeraremos aqui questões que, à luz da linha editorial do jornal, nos parecem fundamentais neste debate.

Ressaltamos que esta crítica não se propõe a abordar os aspectos estéticos do filme e se concentrará nos problemas políticos.

A falácia da ‘ressocialização’

Atualmente, a chamada “vida do crime” aparece como uma solução individual para os filhos do povo ascenderem socialmente. Sentindo-se no direito de desfrutar dos privilégios oferecidos pela “sociedade de consumo”, uma parcela dos jovens das favelas e bairros pobres buscam ascensão rápida pelas vias que a sociedade burguesa - um tanto hipocritamente, é verdade - chama de “ilegais”. Trata-se de solução falsa, evidentemente, uma vez que os verdadeiros “chefes” do tráfico de drogas não moram nos morros – mesmo os supostos “donos” das bocas não passam de gerentes – e sim habitam luxuosas mansões, tramando suas redes a partir das altas esferas empresariais e governamentais. Aos pobres, resta cumprir o papel de “soldados”, encher as cadeias ou ser assassinados antes de completarem vinte e cinco anos.

Qual o discurso que o Estado propõe como alternativa para este problema? Por um lado, os setores mais descaradamente fascistas sustentam que “bandido bom é bandido morto”, legitimando as execuções sumárias e os infames “autos de resistência” praticados por policiais. Por outro lado, os defensores de um “capitalismo humanizado” (reformistas) opõem àquele argumento à necessidade de fazer “ressocializar” os presos. Nem um nem outro atacam o cerne do problema, qual seja, a marginalização econômica, política e social que empurra milhares e milhares de jovens proletários para as prisões. A “ressocialização” individual é uma completa falácia, porque ressocializar significa “retornar à sociedade”, mas aqueles presos jamais saíram dela; ao contrário, são o seu produto mais típico.

O filme mantém-se rigorosamente nos marcos daquela falsa polarização, que parece a única possível: “bandido bom é bandido morto” vs defesa do “Estado de direito”. Ou: fascismo vs democracia burguesa. É como se o máximo que uma posição de “esquerda” pudesse atingir fosse a defesa do cumprimento estrito da Lei de Execuções Penais, ou a descriminalização das drogas. Nós, do jornal A Nova Democracia, pensamos que há ainda uma outra alternativa (essa sim uma verdadeira saída), e por isso única capaz de superar este abominável estado de coisas: a da Revolução de Nova Democracia, baseada na aliança operário-camponesa, que derrube este velho Estado burguês-latifundiário serviçal do imperialismo. Em suma, o Caminho de Outubro, cujo centenário celebramos. Pensamos e trabalhamos arduamente por isso. Não acreditamos em soluções individuais. Qual a conclusão de Livres? Ao cabo e ao fim, que essas soluções individuais são, sim, possíveis, sendo a arte um dos seus caminhos. Isso, que pode ser alcançado por alguns, é completamente fictício quando pensamos na realidade de dezenas de milhões de brasileiros miseráveis na cidade e no campo.

O papel das massas

Mas o filme comete ainda outro erro imperdoável. Ao mostrar depoimentos de trabalhadores no Largo da Carioca fazendo coro com as posições reacionárias de Bolsonaro, sem tomar sequer um depoimento contrário (!), o filme induz o espectador à falsa conclusão de que somente os intelectuais manifestam uma posição crítica a respeito do sistema penitenciário. Silencia, assim, as extensas parcelas do nosso povo que rechaçam esses discursos raivosos da extrema-direita, não apenas por uma consciência formada com base na observação da sua dura realidade, mas também porque são os filhos desses trabalhadores que morrem nas mãos das polícias ou são encarcerados no contexto da “guerra às drogas”.

Roteiro do filme foi baseado em relatos de ex-detentos
Roteiro do filme foi baseado em relatos de ex-detentos

Além do evidente erro político, nos parece que essa é uma visão externa, notadamente pequeno-burguesa, sobre as massas. As posições reacionárias e fascistas não brotam da “ignorância” ou da “incultura”, mas do interesse de uma ínfima parcela de exploradores, a quem realmente servem. E, se há setores das massas que abraçam esta ideologia retrógrada, isso se dá tão-somente porque não vislumbram, ainda, uma solução possível. Muitas vezes, a “esquerda” aparece como ingênua defensora da “paz” e da “legalidade” (estes são os reformistas), ao passo que a “direita” como belicosa e imediatista. É preciso dizer claramente que a verdadeira esquerda, os revolucionários, não recusam o uso da violência, mas distinguem, a cada passo, a violência justa da injusta. O povo tem, evidentemente, direito de defender sua vida e seus parcos bens, se o Estado ou grupos paramilitares (ligados a ele, de um jeito ou de outro) os viola. E, ainda mais importante do que isso, tem o direito sagrado de rebelar-se contra todos aqueles que o subjugam, exercendo crescentemente sua autoridade.

*

 É preciso tratar a arte com responsabilidade: nenhum filme, ou expressão artística de qualquer ordem, está fora da luta de classes e das contendas ideológicas que dela emanam, nem pode haver aqui um meio termo. Se um veículo tão poderoso como o cinema apoia-se no exemplo individual de pessoas que, excepcionalmente, conseguiram sair da condição de indigência para propagandeá-los como “exemplos de superação”, para usar o linguajar tão em voga da reação, isto serve para alimentar ilusões e embelezar esta velha ordem, independentemente das boas intenções dos seus idealizadores. E o fato é que Livres, sendo embora uma importante denúncia, passou longe de uma visão genuinamente democrática e revolucionária a respeito.

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