Entre o trágico e o grotesco

“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais... Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. (...) Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel”. (Machado de Assis, Pai contra Mãe).

Este conto, um dos maiores libelos contra a escravidão produzidos em língua portuguesa, veio-me à mente assim que assisti à série de selfies tiradas por policiais com Rogério Avelino da Silva, suposto chefe do tráfico de drogas na Rocinha, imediatamente após sua prisão. Tratam-se, realmente, de imagens que definem a nossa época. Época em que a busca por “escravos fujões” persiste sob nova forma, no caso, a caça ao “narcotraficante”, não o de terno e gravata, naturalmente, mas aquele que, na ponta do processo, gerencia o comércio varejista, é preto e cria da favela. “Caça” que, segundo a ideologia dominante, justifica a trágica realidade da guerra movida contra os pobres, expressa nos altíssimos índices de letalidade policial (sem par no mundo), nas incursões que semeiam “balas perdidas”, nas creches e escolas fechadas, nos presídios superlotados. Caça trágica.

As selfies estampam isto: Rogério existe nelas como prêmio, como troféu, como coisa a ser exibida. Como escravo fujão “restituído” – não ao cativeiro da casa ou da fazenda, mas a um cativeiro quiçá pior, o do presídio. Houve um tempo em que as folhas-de-flandres eram naturais, como descreveu Machado; hoje, surgem-nos como intoleráveis e odiosas. Sem dúvida, o mesmo ocorrerá, algum dia, com o maquinário de terror institucional que usa o “combate às drogas” como desculpa para o saqueio e assassinato de nosso povo. Talvez, quando este tempo chegar, encontraremos um “Caveirão” exibido nos museus, como algo grotesco, inimaginável.

Do que sorriem aqueles policiais mesmo? “Dever cumprido”, disse a maioria, em interrogatório à Corregedoria. Terá, com a prisão de Rogério, findado o tráfico de drogas, não digo no Brasil, nem mesmo no Rio de Janeiro, mas na própria Rocinha? Sabemos que não. Ao contrário, novas pequenas guerras começaram e logo outros “Rogérios” surgirão entre os becos e as vielas da imensa favela. Porque as causas do tráfico, tanto as econômicas como as sociais, seguem intocadas. A proximidade de São Conrado, bairro nobre (“exclusivíssimo”), bem como a assiduidade dos “gringos” fazem da Rocinha o lugar onde mais se lucra com a venda de drogas, segundo a própria polícia. Alguém ouviu falar em “operação policial” em São Conrado nos últimos dias?

Indo para a outra ponta deste processo, parece natural que, de cada 100 jovens nascidos na Rocinha, uma parte deles recuse a perspectiva de trabalhar em balcão de farmácia, telemarketing, supermercado em troca de salário mínimo. Rejeitam, ao seu modo, a outra forma, contemporânea, de escravidão, a assalariada. Exatamente como ocorria outrora no sertão brabo, em que nem todos eram Fabiano1, alguns preferindo ser mesmo Lampião ou Corisco2.

Sobre as fotos, teria declarado uma policial, em áudio de WhatsApp: “É a mesma coisa que ir a Roma e não ver o papa. Vou prender Rogerinho 157 e não vou tirar foto do lado dele pra dizer que prendi? Palavra cai no esquecimento. Quem não fotografou dançou. Só lamento”. 

Também aí temos um sinal dos tempos. Tudo se converte num grande espetáculo, até mesmo uma prisão. Não foi assim também com o filme Tropa de elite, há alguns anos, fazendo o exibicionismo de tortura e execução de prisioneiros? Ou com a espalhafatosa ocupação do Complexo do Alemão? Numa das fotos, Rogério mantém-se indiferente, aparentemente, o mais lúcido entre eles. Logo estará numa cela, em Bangu, e poderá pensar no que fazer. Que fazer? Comer a quentinha oferecida pelo Estado, apresentar-se para o “confere”, aguardar transferência para um presídio federal, onde sofrerá as agruras do Regime Disciplinar Diferenciado. É mau? É bom? É um produto típico desta época, como o são os policiais que o cercam. Até ontem, era o inimigo número 1 da “segurança pública”; agora, rei morto, rei posto, em breve estará esquecido. Será preciso fabricar outro número 1 para pôr em seu lugar, afinal, o show de horrores tem que continuar.


Notas:

1 - Fabiano, personagem do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, publicado em 1938, que se indigna com sua sorte, sem, contudo, chegar a rebelar-se.

2 - Célebres cangaceiros nordestinos.

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