A Medicina na China revolucionária

Seus reflexos no Brasil e Índia

'Médicos de pés descalços' foram exemplos na prática da medicina popular
'Médicos de pés descalços' foram exemplos na prática da medicina popular

A prática da Medicina na China durante o período revolucionário (de 1949 a 1976) foi marcada por excepcionais avanços, principalmente nas áreas de Epidemiologia, Atenção Básica à Saúde e Cuidados Paliativos. As formas e os métodos empregados na luta contra sérios desafios, como a altíssima mortalidade infantil (que chegava a 200 mortes a cada 1 mil nascimentos no ano de 1949), constituem material de extremo valor e aplicabilidade empírica e por isso devem ser disseminados, compreendidos e estudados a fim de extraírem-se valiosas lições para  as  áreas de políticas públicas relacionadas à saúde. Este breve artigo tem portanto a função de contribuir para a divulgação destas valiosas experiências históricas que a reação faz questão de obscurecer.

Os ‘Médicos de pés descalços’

Pouco depois da fundação da República Popular da China, em 1º de outubro de 1949, Mao Tsetung como Presidente do Comitê Central do Partido Comunista da China postula as principais metas e objetivos para sanar a situação sanitária lastimável no I Congresso Nacional de Saúde, cuja principal diretriz era a atenção prioritária de serviço médico na zona rural, onde residia 80% da população, sem prejudicar as regiões urbanas.

Após quase duas décadas de esforço para enviar periodicamente mutirões de profissionais médicos às áreas mais remotas do país de proporções continentais, em 1968 (em meio à Grande Revolução Cultural Proletária) o Presidente Mao conclama no órgão de imprensa Bandeira Vermelha a criação de cursos populares formativos na práxis médica. Tendo em vista o pouco progresso adquirido com as políticas empregadas anteriormente, a nova formação focava na atenção primária à saúde e controle de epidemias, cujos participantes futuramente seriam conhecidos como “Médicos de pés descalços”. A etimologia deste apelido remete justamente ao caráter de classe daqueles que ingressavam em tais atividades: camponeses pobres.

A formação do médico de pés descalços iniciava após o término dos estudos de grau secundário e durava cerca de quatro anos. Os alunos moravam perto da clínica onde eram ministradas as aulas, e retornavam em tempos de safra e colheita para suas vilas, comunas e cooperativas agrícolas. Além de noções acerca de processos de saneamento, o futuro médico camponês recebia também aulas de fisiologia, anatomia, patologia e microbiologia, assim como aprendia técnicas de exames de rotina e identificação/controle de doenças transmissíveis.

Outro aspecto sedimentado pelo curso era a conciliação de crenças da população com os tratamentos convencionais, como a prática da acupuntura, sendo estes métodos usados apenas como paliativos e ornamentos aliados ao tratamento clássico. Era requisitado inclusive dos futuros médicos o conhecimento farmacológico das ações bioquímicas de ervas comumente usadas pelo povo chinês. Posteriormente, os estudantes dedicavam-se ao estudo dos espectros patológicos de cada órgão e sistema, além de aprenderem noções de obstetrícia, planejamento familiar e praticarem vacinação e compostagem agrícola.

A formação de um exército de quase meio milhão de médicos de pés descalços na década de 1970, assim como o emprego de medidas sanitaristas contundentes e eficazes, foi responsável por mais uma revolução em território chinês, paralela à Grande Revolução Cultural Proletária (1966-1976): a mortalidade infantil havia caído para 18,6 óbitos a cada 1.000 nascimentos; a expectativa de vida, em 1935, de 29 anos, saltou para os 70 anos, na década de 1980.

Infelizmente, grande parte dos avanços na área de Atenção Primária à Saúde foi eliminada após a introdução das reformas liberais de Teng Siao-ping na década de 1980, após seu golpe de Estado sustentado pelo encarceramento ou execução sumária dos partidários da linha revolucionária dentro do Partido Comunista da China, como a dirigente Chiang Ching. Extinguindo as cooperativas agrícolas e comunas populares (presentes em 90% das vilas na década de 1960 e em 5% delas em 1985), muitos vilarejos perdiam a capacidade de remunerar os médicos camponeses, os quais perderam gradativamente seu papel decisivo na saúde pública chinesa, concomitante à progressiva privatização do Sistema Público de Saúde do país.

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