Lições da história como bússola para a organização proletária

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As razões para um estudo profundo da filosofia moderna e contemporânea estão nos princípios das discórdias entre uma estrutura de retórica dominante, que sempre criminalizou organizações sociais e pessoas que lutaram juntamente com os oprimidos. Houve vários filósofos que foram massacrados e torturados pelo poder dominante de uma classe que se outorgou o direito de ser proprietária dos bens materiais. Mas entre os pensadores, o primeiro e mais famoso foi Sócrates, por ter destruído a estrutura da retórica que legitimava o poder e as injustiças. Tudo o que sabemos sobre ele foi escrito por Platão. Entre as obras, a mais famosa dos clássicos da política é A República.

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Lenin formulou o protótipo do partido de novo tipo, clandestino e de vanguarda
Lenin formulou o protótipo do partido de novo tipo, clandestino e de vanguarda

Quais os elementos clássicos de ligação entre o pensamento da filosofia antiga, da moderna e contemporânea? Nas teorias da justiça, nos diálogos de Platão, com Sócrates como principal personagem, havia uma flagrante contradição que expressava os interesses de classes naquele momento histórico. Essa contradição é manifesta também no presente momento, quando se trata dos conceitos de justiça. Em “A República de Platão” o sofista Trasímaco já dizia para Sócrates que “a justiça é a conveniência do mais forte” (PLATÃO, 1991, p. 25). E foram os mais fortes daquela época que conseguiram abrir um processo para condenar Sócrates.

Mas em seguida Sócrates refuta os argumentos de Trasímaco,  afirmando que para se realizar justiça, é necessário antes a conquista dos elementos necessários para a sobrevivência e vida em sociedade. Diz que “a primeira e a maior de todas as necessidades é a obtenção de alimentos (...); a segunda é a habitação; a terceira o vestuário, e coisas do gênero” (p. 56). Essas são as premissas básicas para a vida com liberdade. Ao retirar dos ser humano os meios para obter alimentação, moradia e vestuário retiram-se também a liberdade e o direito de viver. Por isso em Marx os primeiros passos para libertação são também a conquista desses direitos fundamentais.

“(...) nem a servidão sem a melhora da agricultura, e que, em geral, não é possível libertar os homens enquanto estes forem incapazes de obter alimentação e bebida, habitação e vestimenta, em qualidade e quantidade adequadas”1.

Vê-se que o dilema é o mesmo. Enquanto uns têm em excesso, outros não conseguem o básico para viver. E o velho dilema da ganância infinita daqueles que não produzem nada e se intitulam os produtores. Platão, ainda na antiga Grécia, mesmo sendo um idealista, tentou projetar um Estado objetivando a garantia desses direitos básicos, por entender que os indivíduos no poder não têm o pudor e substituem as necessidades populares por seus desejos e vontades individuais. A base de Platão era a moral. Ele acreditava ser possível encontrar entre filósofos pessoas com senso de humanidade. Mas no livro X ele mesmo reconhece que o projeto de A República seria somente para os Deuses. Contudo, chama atenção que seres humanos com compromissos pela humanidade poderiam perseguir esse projeto.

A falta desses bens para viver entre tantas riquezas que a natureza oferece expressa as contradições de classes. É o contraste patente entre a riqueza e a pobreza; o contraste entre a produção por parte do trabalhador e a concentração por parte do explorador; o contraste entre as riquezas imobiliárias e o povo que vive nas periferias, nas favelas e os próprios moradores de rua; o contraste entre os armazéns abarrotados de alimentos e o povo que vive abaixo da linha da pobreza em estado de miserabilidade absoluta. Essa é a contradição fundamental que a humanidade vive na sociedade de classes. Essas contradições foram desveladas por Marx e Engels, servindo de bússola para a organização dos trabalhadores na luta contra a agressão do capital e seu estágio máximo de desenvolvimento: o imperialismo, descrito por Lenin. O atraso e o desenvolvimento é uma das contradições de nosso tempo: difusão da ignorância sob o rótulo de conhecimento para os trabalhadores, e tecnologia de ponta para a burguesia. Essas contradições foram desveladas por Lenin na Rússia, e Mao Tsetung na China, servindo de instrumentos para organização dos explorados contra os opressores. No período revolucionário da China, Mao fez a seguinte afirmação:

“Por exemplo, na sociedade capitalista, as duas forças em contradição, o proletário e a burguesia, formam a contradição principal; as outras contradições, por exemplo, a contradição entre os restos da classe feudal e a burguesia, a contradição entre a pequena burguesia camponesa e a burguesia, a contradição entre a burguesia liberal e a burguesia monopolista, a contradição entre a democracia e o fascismo no seio da burguesia, as contradições entre os países capitalistas e as contradições entre imperialismo e as colônias, todas são determinada pela contradição principal ou sujeita a influência desta”2.

Essas são teorias que servem de bússola para orientação da organização de uma classe que pretende lutar pela superação deste modo de produção. Sem conhecimento das classes sociais, sem o domínio dessas teorias, com base no voluntarismo das massas, sem uma vanguarda, como aconteceu na Rússia e China, não se supera este modo de produção. Porque a ideologia burguesa está petrificada na consciência da massa proletária e o que se vislumbra é aproveitar a luxúria, as mercadorias supérfluas que o capitalismo oferece. E de mais a mais a educação oferecida pelo Estado burguês promove o individualismo, a ilusão da ascensão social, não a consciência de classe para superação deste estado social. As entidades, que deveriam representar os interesses de classes, representam a vontade da classe. Ou seja, lutam por melhores salários, e não apresentam propostas para superação do sistema de salário. Essas seriam premissas básicas para debater apenas no interior da organização proletária, mas sem as vaidades do espírito da concorrência individual como estão se apresentando as lideranças, principalmente aqueles que se inspiram na concepção trotskista.


* Sebastião Rodrigues Gonçalves é professor de Filosofia na Unioeste e membro do Conselho Editorial de A Nova Democracia.

Referências:

1. MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 29.

2. Mao Tsetung. Obras escolhidas. v.1. São Paulo: Alfa-Ômega, 2011, p. 559.

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