Arte consciente nos trens da Central

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Nascido e criado no bairro de Olinda, em Nilópolis, região metropolitana do Rio de Janeiro, o rapper e poeta popular Saulo Afide se expressa através da sua arte nos trens da Supervia, em ramais que transportam milhares de pessoas diariamente pela periferia carioca e grande Rio. Guerreiro e determinado, Saulo conseguiu gravar um disco e vários vídeos até o momento, e hoje pode afirmar com orgulho que sobrevive da sua arte.

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Saulo Afide, na Bienal do livro, RJ
Saulo Afide, na Bienal do livro, RJ

— Sou rapper, trabalho com ritmo, poesia e tenho levado isso para os transportes públicos, principalmente o trem, recitando as minhas letras aos passageiros, juntamente com meus amigos. Levo poesia do cotidiano, da vivência do Brasil, da vida, compartilhando com a sociedade letras críticas a política, entre outras realidades que abrangem toda a sociedade – conta Saulo.

— Minha intenção é tratar da realidade com poesia viva, cantar e transmitir através do rap, do hip hop, minha vivência e o mundo que observo. Fora esse trabalho nos trens tenho outros trabalhos autorais na internet, poesias em alguns canais, músicas, videoclipes e participo de eventos (às vezes cantando e outras só recitando) rodas culturais, batalhas de Mcs e slams, que são batalhas de poesia – explica.

O poetry slam ou apenas slam surgiu no USA na década de 1980, mas apenas se difundiu pelo Brasil a partir dos anos 2000.

— Me identifico com o trabalho que faço, é o que realmente tenho satisfação em realizar, me sinto vocacionado a me expressar através da arte, da música, e acredito que essas mensagens são choques de realidade que fazem diferença na vida das pessoas. É importante compartilhar, alertar, provocar as pessoas para que possam despertar para a realidade a sua volta.

As apresentações de Saulo são feitas de acordo com as circunstâncias do momento em que vive.

— Já trabalhei muito tempo sozinho, com uma caixinha, um microfone e uma batida, muitas vezes fazendo rimas de improviso, e também recitando poesia autoral em cima da batida, outras vezes a capella, sem instrumental. Ultimamente tenho trabalhado em dupla, com amigos de coletivos poéticos, e a capella – relata.

— A maior parte das vezes trabalho o rap, mas também não limito e se encontro um amigo que toca violão então canto algumas música da MPB, as mais populares, e também arranho alguma coisa de um violãozinho. E é isso, o importante é levar a arte até as pessoas e musicalmente, poeticamente passar uma mensagem – afirma.

Ferramentas de expressão do povo 

— Sou nascido e criado no bairro de Olinda, Nilópolis, e moro aqui até hoje. Cresci ouvindo samba e MPB, meu pai, Adilson Vieira Salgado, é compositor e sempre escreveu para escola de samba, participou de vários concursos de samba-enredo na Beija-Flor, como compositor e também como intérprete – conta.

— Minha família sempre foi muito festeira, sempre gostou muito de música, então aprendi a amar música desde cedo. Por volta dos nove anos de idade comecei a ouvir rock, e já ia em estúdios, porque meus primos tinham uma banda de rock e eu os acompanhava – recorda.

— O rap eu conheci em 1998, com 10 anos de idade, quando ouvi o CD do Gabriel o Pensador, “Quebra-Cabeça” [lançado em 1997]. Em 2005 comecei a fazer rimas de improviso em rodas de ruas e dali em diante me envolvi cada vez mais, só que no decorrer disso eu tive compromisso com estudos e outras responsabilidades e precisei deixar meio de lado.

— Mas, em 2015 voltei  realmente com vontade de viver da arte, e daí em diante passei a me dedicar com afinco e exclusivamente para levar a poesia, o rap como compromisso total na minha vida. Abandonei o trabalho formal e fui a luta atrás dos meus sonhos e objetivos – diz.

Com muito sacrifício e força de vontade Saulo conseguiu gravar em 2016 o álbum Faz parte do meu flow.

— As letras são de minha autoria, exceto na faixa seis, que se chama Gata vem cá, que tem a participação do meu amigo MC Magnata, a parte que ele canta é dele. As sete demais são todas minhas. O disco foi feito de forma independente, pago com sacrifício, na época eu ainda estava empregado e consegui fazer o pagamento parcelado.

— Saiu caro, desde a compra dos instrumentais ao pagamento de estúdio, mas valeu a pena. Agora as coisas começaram a melhorar, porque fui conhecendo pessoas que gostaram do meu trabalho e apostaram em mim, me abriram portas, algumas estão investindo em mim com produção audiovisual, e estou com mais facilidade para gravar – fala.

Saulo começou a compor desde criança e sua inspiração se dá de diferentes formas.

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