Editorial - A covarde execução de Marielle

A- A A+
 

O atentado covarde que assassinou com 4 tiros na cabeça Marielle Franco, vereadora pelo Psol na cidade do Rio, na noite do passado 14 de março, chocou e comoveu milhões de pessoas no Brasil e no exterior. Retumbando indignação, levantou o clamor por justiça tantas vezes entalado no peito de milhares de mães diante do extermínio cruel de seus filhos e filhas, e que por sua condição de humildes trabalhadoras, sua dor e voz não tem eco senão entre seus vizinhos de infortúnio, nas cidades e nos campos do Brasil.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

As declarações de solidariedade aos familiares de Marielle se avolumaram, entre muitas demagógicas, quando não descaradas e cínicas, tais como as de autoridades do velho Estado, políticos de várias siglas e, em particular, da canalha que monopoliza os meios de comunicação, especialmente a Rede Globo, com seu labor refinado em torcer os fatos, mentir e ventilar gases venenosos para entorpecer mentes.

Por sua vez, os gigantescos protestos que não querem calar, cobram respostas muito mais além das choramingas de “atentado à democracia” de tíbios reformistas e das “furiosas” promessas dos oportunistas eleitoreiros de fazer “vingança” nas urnas. As massas mobilizadas, principalmente da juventude, recorreram aos protestos na expectativa de não apenas punir os criminosos, executores e mandantes, mas elevar os protestos ao nível e às formas da luta revolucionária, a fim de derrocar todo este sistema de exploração e opressão, sustentado e mantido por este velho e genocida Estado de grandes burgueses e latifundiários, serviçais do imperialismo, principalmente ianque.

Pelo contexto e evidências, a execução de Marielle foi uma demonstração de descontentamento pelos interesses contrariados de grupos de poder bem estruturados nos órgãos de segurança pública, principalmente cúpulas da polícia militar, frente à ameaça que representou a intervenção militar a seu monopólio da violência e do abuso de autoridade, que ademais de rendosos negócios é parte considerável do Poder político. Jogar um cadáver na mesa do general interventor, além de demonstração de força, foi um recado fascista aos lutadores do povo. E, para demonstrá-lo com grande repercussão, ceifaram a vida de uma mulher negra, defensora dos “direitos humanos” e militante da esquerda legal como membra do parlamento.

O assassinato torpe e os massivos protestos de repúdio a ele assinalam que não só a crise política que sacode o país desde 2015 se aprofundou como crise de segurança pública e militar, mas também e principalmente, que a situação revolucionária que despontou  em 2013, com as massivas explosões da juventude em todo o país, está passando a um novo momento, prenunciando novas e maiores ondas do protesto popular.

Pelo lado da reação significa que os seus ataques à luta popular se desenvolveram. Os constantes ataques contra a luta pela terra (com massacres e o assassinato de ativistas e dirigentes, no campo), a prática sistemática das chacinas de pobres na cidade e as perseguições políticas e condenações draconianas de ativistas e lideranças dos protestos de junho/julho de 2013 e 2014, passaram a desenvolver-se com a eliminação de militantes políticos e de lutadores populares.

Pelo lado do povo representa a passagem da convicção crescente das massas no rechaço à farsa eleitoral e ações de rebelião, nas expectativas e esperanças no caminho cada vez mais belicoso, aos quais se somarão muitos outros, até então crentes nas promessas de mudanças de um país melhor para o povo pela via pacífica e eleitoral, desiludidos que se acham pelo crime brutal contra quem acreditava e atuava por mudanças por dentro do sistema.

Da parte da intervenção militar, há de questionar: o silêncio e desfaçatez de declarações lacônicas de membros do Alto Comando militar e do interventor sobre a execução de Marielle contrasta ou coaduna com a prédica especializada do general Heleno, de eliminar todo e qualquer suspeito de hostilidade? E mais: como julgar, neste contexto, a exigência do Comandante geral do exército por “segurança jurídica” para as ações de suas tropas? É ou não um eufemismo para impunidade de autores de violações e crimes que serão cometidos? E o que dizer das bravatas de saneamento nas forças policiais, quando a intervenção militar, depois de 30 dias, sequer tocou na situação do 41º Batalhão da PM, conhecido por espalhar o terror e a extorsão às populações do Chapadão, Acari, Rocha Miranda e outras áreas contíguas (fatos sabidos e por demais conhecidos da corregedoria da polícia). E o que dizer do silêncio sobre a denúncia feita pelo coletivo “Fala Akari” e repercutido por Marielle, quatro dias antes de sua execução, sobre o assassinato de dois jovens que tiveram seus corpos jogados num valão? E, por fim, o que falar do fato de as Forças Armadas darem cobertura às truculências praticadas pela Prefeitura do Rio na Vila Kennedy?

Esta guerra civil reacionária contra o povo e a quem lhe apoia, seja na cidade como no campo, não é obra do acaso. É a crua realidade da decomposição avançada de uma máquina burocrática-administrativa-policial genocida e decrépita. Como reflexo da crise geral do seu enfermiço capitalismo burocrático, a crise política e moral, agravada pela crise da segurança pública, já ingressou no terreno de uma crise de dominação do velho Estado. Ela é expressa na luta sem quartel entre as frações das classes dominantes locais e seus respectivos grupos de poder pelo controle da máquina do velho Estado, em todas suas esferas.

Nessa luta desesperada, as forças políticas e partidárias do corrupto e falido sistema político só numa questão se unificam: apoiar o incremento da repressão ao povo pobre, seja através dos grupos de extermínio organizados pelas máfias do aparelho policial-militar, seja através da forma mais declarada: a intervenção militar. Todas essas formas são voltadas a conter a revolta popular crescente e prevenir-se de um levantamento revolucionário, sob o pretexto de combater o “crime organizado”. Dão esse pretexto como se a delinquência que se exacerba exponencialmente na sociedade – filha da miséria e desigualdade imperantes e putrefação geral do Estado – fosse o principal e maior problema do país - o que de fato não é. Está muito longe de sê-lo, pois não passa de mero sintoma da natureza do vigente sistema de exploração e opressão do povo e de subjugação da Nação.

Mesmo porque, em matéria de crime organizado, as agremiações políticas oficiais do país, como estarrece a Nação a cúpula do partido do presidente da república, são insuperáveis em seu roubo e pilhagem dos cofres públicos, ao ponto do próprio sistema ter que mover uma Operação “Lava Jato”, na tentativa de, salvando as aparências, buscar recuperar um mínimo de legitimidade e credibilidade das instituições de seu “Estado Democrático de Direito”. Operação esta que, diga-se de passagem, fracassou frente à resistência do mundo político oficial em ter suas cúpulas derrocadas.

Daí que a intervenção militar, por uma razão maior do que a crise de segurança pública no Rio – como já temos afirmado aqui – cumpre planificação de longo curso em função da gravidade da crise de dominação que se instalou no país. Ela é a marcha pela imposição da centralização de um poder que ameaça fragmentar-se e se lança como balão de ensaio para criar opinião pública favorável à intervenção militar ampliada, no objetivo de futuro golpe de Estado contrarrevolucionário.

Regime de monopólios e dominação imperialista secular que condena a produção nacional a seu mero complemento; concentração da propriedade da terra e miséria ao campesinato, salários de fome e crises constantes com desemprego massivo, retirada de direitos dos trabalhadores,  submissão cultural, científica e tecnológica. Enfim, injustiças, abusos, repressão e genocídio continuados sobre o povo e privilégios indecentes e sem fim para uma ínfima minoria de ricaços. Estes são os problemas cruciais de nosso povo e de nosso país, são a manifestação da situação histórica em que a revolução democrática tem sido aplastada a ferro, fogo e sangue. Nunca realizada, estagnada e pendente.

A solução desta contradição só poderá ser resolvida pela violência revolucionária das massas aplicada contra seus opressores e exploradores. A sua crescente rejeição à farsa eleitoral já se torna algo além de uma mera demonstração do que elas não aceitam mais. O velho Estado e seu putrefato sistema político, em sua sanha por manter intacta sua velha ordem, só podem oferecer às massas mais repressão, controle social opressivo e enganações.

Para remover as três montanhas de exploração e opressão sobre o povo e a Nação – a semifeudalidade, o capitalismo burocrático e o imperialismo – se faz necessária maior determinação das massas sob a direção firme do partido de vanguarda do proletariado e assentado na aliança operário-camponesa, para demolir estas montanhas, o que cobrará tempo relativamente longo e o inseparável e implacável combate à sua força auxiliar no seio do movimento popular, o montão colossal de lixo do oportunismo eleitoreiro, para estabelecer a Nova Democracia sobre a base de uma Nova Economia e uma Nova Cultura.

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja