2º Encontro Camponês do Sul e Sudeste do Pará

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Camponeses, indígenas e quilombolas unem-se contra o latifúndio e as mineradoras

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O 2º Encontro Camponês em Marabá unificou a luta contra latifúndio e as mineradoras, nos dias 7 e 08/04
O 2º Encontro Camponês em Marabá unificou a luta contra latifúndio e as mineradoras, nos dias 7 e 08/04

Nos dias 7 e 8 de abril a cidade de Marabá sediou o 2º Encontro Camponês do Sul e Sudeste do Pará. O vigoroso Encontro foi um importante momento de debate sobre a luta pela terra e território e da reafirmação da necessidade de avançar na unidade entre os movimentos populares combativos contra o latifúndio, as mineradoras e o velho Estado.

“Unir camponeses, indígenas e quilombolas! Com o apoio dos operários e demais trabalhadores da cidade! Varrer todo esse lixo de corrupção, miséria, injustiça, exploração, opressão e genocídio, para conquistar a Nova Democracia e o Brasil Novo!”, afirmava a convocatória do Encontro, que teve cobertura exclusiva do jornal A Nova Democracia.

Elevar a organização e a resistência

O Encontro reuniu diferentes entidades e organizações populares, democráticas e revolucionárias, sendo um importante espaço para a reafirmação da necessidade de se continuar avançando na Revolução Agrária, com a intensificação da tomada de terras do latifúndio e a sua distribuição entre as famílias.

O assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, executada por denunciar os assassinatos de jovens negros por policiais militares na periferia, e a prisão do oportunista Luiz Inácio da Silva/PT foram consideradas pelos participantes como mais uma etapa de preparação para o golpe militar orquestrado pelas classes dominantes reacionárias. As intervenções ao longo do Encontro afirmaram que somente a luta das massas organizadas pode resistir ao golpe militar, abandonando qualquer ilusão de que as eleições mudarão alguma coisa.

Durante o evento, que contou com a participação de camponeses, indígenas e quilombolas, além de apoiadores da luta pela terra, destacou-se o aumento da repressão no campo, bem como a necessidade e disposição dos camponeses, indígenas e quilombolas em resistir aos ataques.

As falas das lideranças de acampamentos, associações e sindicatos relataram que assim como tem aumentado a repressão e a morte daqueles e daquelas que lutam pela terra e pelo território, também tem aumentado na mesma proporção a disposição de camponeses, indígenas e quilombolas em ocupar e resistir a todo custo, não mais esperando, portanto, a atuação de órgãos como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a Fundação Nacional do Índio (Funai).

Segundo um dirigente da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) de Rondônia e Amazônia Ocidental, a luta camponesa se intensifica e as posições combativas estão garantindo vitórias por todo o país, pois somente a organização independente do campesinato em suas organizações pode garantir melhorias para o povo.

— Fica cada vez mais evidente a necessidade de ação direta das massas, como nos casos em que as áreas tomadas pela LCP só obtiveram acesso a certos direitos de responsabilidade dos órgãos públicos, como fornecimento de remédios e incentivos à pequena produção, não pela boa vontade desses órgãos, sempre tão prestativos com os grandes proprietários, mas sim, pela ocupação de seus prédios. – disse o dirigente.

União entre o campo e a cidade

De acordo com o coordenador da Comissão Nacional da Liga dos Camponeses Pobres, Ronaldo, o mais importante do 2º Encontro foi a unidade criada em torno da necessidade de se elevar o grau de organização das massas para a defesa dos seus direitos.

— Os participantes do Encontro mostraram uma qualidade de ter clareza da luta que se está colocando neste momento. A expectativa de criar uma unidade entre as Brigadas Populares, a LCP e os sindicatos rurais de trabalhadores com presença na mobilização para se ter mais gente cumpriu o objetivo melhor do que se esperava. – destacou entusiasmado o dirigente camponês.

Um representante das Brigadas Populares afirmou ao AND que o evento mobilizou os sindicatos de Canaã dos Carajás e Marabá para um debate político sobre a atualidade da luta pela terra e território no país e na região.

— A perspectiva é ampliar os debates dos trabalhadores do Pará, objetivo que está proposto na carta do encontro. A mensagem é que se faz urgente a necessidade ampla dos trabalhadores do campo e da cidade no sentido de fortalecer a luta camponesa no sul e sudeste do Pará. – afirmou o ativista.

— Muito interessante os debates sobre como se unificar. É importante travar lutas sobre as dificuldades em comum. A troca de experiências de resistência são importantes, pois fornecem lições de validade geral. O Encontro distribuiu conhecimento a respeito da situação no Brasil e da luta no campo. – pontuou Volnei, liderança do Acampamento Planalto da Serra Dourada (situado em Canaã dos Carajás).

O presidente da seção sindical dos docentes da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Rigler Aragão, e professores da instituição participaram do Encontro e relataram a disposição de apoiar a luta dos camponeses, indígenas e quilombolas.

Eles mencionaram a criação do Núcleo de Estudo Agrário na Unifesspa, que nasceu com o objetivo de fazer estudos nos acampamentos ameaçados de despejo pelo velho Estado em conluio com o latifúndio e as mineradoras. Os docentes organizam estudos com os camponeses destas áreas para demonstrar que as famílias dependem da terra para viver. Relataram  também que presenciaram a ação de pistoleiros no despejo do Acampamento Helenira Rezende (ver  AND 202), em Marabá. Constou entre as denúncias: intimidações e ameaças às famílias, corte de energia elétrica antes do prazo concedido pelo Judiciário para desapropriar a área. Na remoção do Acampamento Dalcídio Jurandir, em Eldorado dos Carajás, os estudos ajudaram a denunciar a forma como as reintegrações foram feitas com o prazo de apenas 30 dias entre o aviso e a data do despejo.

As decisões tomadas

Uma carta foi aprovada durante o Encontro, que foi assinada por organizações como a LCP do Sul do Pará e Tocantins, Frente Nacional de Luta (FNL), Brigadas Populares do Pará, Associação Nova Vitória (Acampamento Jane Júlia), Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Canaã dos Carajás, Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal do Estado do Pará (Sintesep) - Regional Sul e a Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo).

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Também foi discutida e aprovada a organização de um encontro no município de Pau D’Arco, no dia 24 de maio, dia em que dez camponeses foram barbaramente executados por policiais civis e militares no ano passado.

A prisão do ativista da Comissão Pastoral da Terra (CPT) - ler página 10 desta edição -, José Amaro Lopes de Sousa, no dia 27 de março em Anapu, foi denunciada durante o evento, que aprovou uma campanha de solidariedade a ele, com a exigência de sua libertação imediata.

Mulheres atuantes na luta

O 2º Encontro Camponês do Sul e Sudeste do Pará contou com a importante presença de mulheres camponesas na coordenação e debates. A participação feminina na luta contra o capitalismo burocrático, latifúndio, imperialismo e o patriarcado foi destacado ao longo do evento.

As camponesas que vieram de municípios como Canaã dos Carajás e Redenção avaliaram o Encontro como de suma importância para a conscientização das mulheres na participação da luta camponesa tanto nas organizações internas, quanto em espaços políticos externos, nos quais puderam presenciar e relatar as dificuldades encontradas para a realização desses debates, que em sua maioria são realizados por homens.

Assim como os homens da cidade, os homens do campo, influenciados pelas ideologias burguesa e latifundiária, ainda propagam preconceitos diante da capacidade das mulheres de agir e ocupar espaços importantes na luta contra o latifúndio.

As mulheres relataram também as dificuldades de se incorporar na luta pela terra e território diante da dupla exploração do trabalho (no campo e doméstico), da violência doméstica, da necessidade de levar os filhos para os encontros, tendo que se responsabilizar sozinhas no cuidado para com eles e a luta por espaços de liderança política dentro das organizações populares.

De acordo com os relatos das participantes, o Encontro proporcionou às mulheres camponesas o espaço político no debate e a tomada de consciência da participação de outras mulheres na luta, atribuindo perspectivas a estas de como se organizar e enfrentar as dificuldades da opressão latifundiária. Assim, puderam colocar suas demandas, discussões e apoio aos seus companheiros e companheiras na luta que é de todos aqueles e aquelas que na terra vivem e trabalham.

O papel nefasto do Incra e Iterpa

Ao longo do Encontro diferentes intervenções destacaram que o Incra e o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) desrespeitam sistematicamente os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do campo, com o objetivo de dificultar a posse da terra pelos camponeses.

Segundo as denúncias, o Incra tem tentado inclusive organizar ações para criar contradições internas entre os camponeses e também para jogá-los contra o restante da população local.  Uma destas ações é a organização de listagens de pessoas que nunca tiveram envolvimento na luta pela terra, mas que poderão ser beneficiadas com lotes em futuros assentamentos. No Acampamento Monte Sião, em Canaã dos Carajás, o Incra já listou até comerciantes e empresários como beneficiados com prioridade para a titulação das terras, tentando enganar os camponeses que resistem no local.

Mineradoras denunciadas

Os crimes ambientais e as ações violentas das empresas mineradoras como a Vale e a Hydro Alunorte também foram lembradas e denunciadas durante o Encontro.

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Os movimentos populares e combativos firmaram compromisso de unificarem-se na luta contra o latifúndio e mineradoras
Os movimentos populares e combativos firmaram compromisso de unificarem-se na luta contra o latifúndio e mineradoras

Em Canaã dos Carajás, sete acampamentos ligados às Brigadas Populares têm resistido às pressões da Vale para expulsá-los das terras. A mineradora está realizando um cinturão de despejos no entorno do projeto Ferro Carajás S11D, que abrange municípios do sudeste do Pará e do oeste do Maranhão, e chegou a conseguir liminares no Judiciário aprovando os despejos, mas os camponeses voltaram a ocupar as áreas.

— Não adianta ir por meios legais. Não adianta fazer pressão no Fórum. Se não for contra a Vale, não adianta - afirmou uma liderança camponesa em entrevista ao AND, destacando também que as ações diretamente contra a empresa como o fechamento de ferrovias, atingindo-a economicamente, surtem mais efeitos para conquistar avanços na luta contra a mineração.

Segundo as denúncias, a Vale tem atacado e pressionado os camponeses que vivem próximos às áreas de mineração. Monitoramento por meio de drones e helicópteros – com direito a voos rasantes nos acampamentos –, ameaças e intimidações realizadas por “seguranças” e policiais militares, a criminalização dos movimentos populares e de seus integrantes, especialmente as lideranças, são alguns dos artifícios utilizados pela mineradora para incutir o terror nas famílias e expulsá-las das terras.

Em Canaã dos Carajás, o gerente municipal Jeová Andrade/PMDB e seu vice, Alexandre dos Santos/PT, respectivamente, tem organizado agitações públicas para atacar as quase 350 famílias do Acampamento Planalto da Serra Dourada e se colocado ao lado da Vale, que adquiriu irregularmente terras neste acampamento. No dia 28 de fevereiro deste ano, Jeová Andrade foi afastado do cargo por 180 dias devido a suspeita de improbidade administrativa.

— As mineradoras e o latifúndio, ao chegarem nas áreas, trabalham e oferecem mundos e fundos, de fato chegam a ofertar alguns empregos e benefícios. Contudo, tão logo se retiram das áreas de extração e gado, as empresas agem de forma diferente dos discursos que proferem e sugam da terra e dos trabalhadores tudo de riqueza que possuem. Ao contrário do que pensa o povo em geral, estas empresas e o latifúndio, após seu enriquecimento descomunal, apenas deixam o povo ainda mais pobre e oprimido. – denunciou o presidente da associação do Acampamento Jane Júlia, Manuel Gomes.

A luta camponesa do Jane Júlia

O presidente da Associação Nova Vitória, que reúne as famílias do Acampamento Jane Júlia, Manuel Gomes, conversou com o AND e falou da importância do encontro e da luta pela produção no acampamento.

O dirigente frisou que o Encontro foi um importante momento de se estabelecer a unidade entre os camponeses da região contra os inimigos em comum: o latifúndio e o velho Estado.

— Quanto mais há conversas, discussões e relatos dos companheiros presentes no Encontro, mais se reforçam as lideranças, mais auxiliam na organização e na forma como estas lideranças agirão em conjunto aos companheiros assentados, contra os latifundiários e o Estado. A forma do judiciário ilude ao se fazer de cega, quando na verdade usa sempre dois pesos e duas medidas quando se trata dos ricos, em detrimento do povo, do trabalhador. A saída é e sempre será a luta e a unidade política entre os camponeses, que se reforça neste Encontro – afirmou Manuel Gomes.

Ele destacou que desde a realização do Encontro de Pau D’Arco nos dias 28 e 29 de outubro do ano passado as famílias vêm resistindo e avançando na luta pela produção.

— Estamos lá dentro e estamos trabalhando. – frisou o dirigente.

Com o apoio da LCP do Sul do Pará e Tocantins, os camponeses do Acampamento Jane Júlia ocupam parte da fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco, desde o dia 13 de junho do ano passado, que já conta com uma pequena plantação dividida por meio do Corte Popular, no qual as famílias plantam tanto para consumo próprio como para a venda.

— Os camponeses não desejam ser escravos, mas sim independentes, donos da terra que lhes é de direito  tornando-a de fato produtiva e sem agressões à natureza. Acho que o povo em geral necessita compreender que o movimento do governo em retirar o povo do campo para a cidade apenas agrava mais a miséria do país, pois ao chegar na cidade se depara com mais desemprego e falta de infraestrutura. O povo camponês é merecedor do pedacinho de terra que está ocupando, vivendo, pois é isso que sabe fazer de melhor: trabalhar na terra. – concluiu o dirigente.

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