A vida de Grande Othelo no teatro

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Está em cartaz, no Rio de Janeiro, como parte do projeto de comemorações dos 90 anos de Grande Othelo, a peça Grande Othelo, Êta moleque Bamba!, que já no início da temporada provocou episódios emocionantes, como o do ator que, ao final de uma das apresentações, não conseguiu conter as lágrimas, tamanha a responsabilidade de viver a história dessa que foi uma das mais ricas e autênticas personalidades da arte brasileira: o mito que veio de Uberlândia.

Apesar disso, não é a imagem de mito que a montagem quer passar para o espectador, mas a de uma pessoa humilde e criativa, que usava de extrema inteligência e talento para vencer como ator. A descoberta da profissão aconteceu quando, ainda menino, viu um filme de Chaplin chamado Our Gang, com o pequeno ator negro Allen Clayton Hoskins interpretando Farina. Ao assistir ao filme, pensou: "Se ele pode fazer isso, por que eu não posso?". Na primeira oportunidade que teve, Othelo fugiu de Uberlândia com uma companhia de teatro Mambembe, aos cuidados da diretora do grupo, Abgail Parecis. Com direção de André Paes Leme e texto de Douglas Tourinho, a história não é contada de maneira linear, mas como uma sucessão de lembranças aparentemente desordenadas que vão sendo relatadas pelo próprio Grande Othelo — na fase mais madura — e pelas pessoas que, entre parentes e amigos, tiveram o privilégio de conviver com ele: a atriz Ruth de Souza, o escritor Mário Prata, o cineasta Roberto Moura, a pesquisadora Ângela Nenzy, o compositor Wilson Moreira, o amigo de infância José Gomes Talarico, e seus filhos Carlos, Mário e Pratinha. As cenas são intercaladas por números musicais que evocam, de alguma forma, as memórias dos acontecimentos que desfilam sobre o palco, a exemplo de "Praça Onze" — samba de 1942 composto por Grande Othelo e Herivelto Martins —, um dos passaportes do artista para o estrelato.

O espetáculo evidencia, nesse sentido, as múltiplas facetas da vida e da arte de Sebastião Bernardes de Souza Prata, o Othelo, que de pequeno passou a grande, graças ao seu talento e à intervenção do diretor teatral Jardel Jercólis, que o batizou da forma que conhecemos quando o ator desembarcou no Rio de Janeiro. Ator, dançarino e compositor — talento que muitos desconhecem —, até conseguir um lugar ao sol, "Tiãozinho", como era chamado pelo amigo Talarico, passou por maus bocados na cidade com a qual tanto sonhou, dormindo em bancos de praça, abrigando-se em instituições para menores e tendo que fazer números de dança a fim de ganhar a simpatia de casais burgueses que procuravam uma criança para adotar. Criança, diga-se de passagem, interpretada com maestria pela atriz carioca Vilma Mello. Cabe mencionar que outros dois atores encarnam Grande Othelo na fase adulta: Maurício Tizumba e Flávio Bauraqui.

Depois de muito cantar e dar piruetas, o menino foi finalmente adotado por uma família abastada e influente da sociedade, a família Queiroz, que o matriculou no colégio Sagrado Coração de Jesus. Ali, Othelo tinha do bom e do melhor. O único problema residia no fato de que seus pais adotivos sonhavam com o dia em que ele se tornaria um advogado — mais um inconveniente do qual ele teria que superar.

A despeito dos contratempos, Grande Othelo não desistiu de atuar, conseguindo seu primeiro papel num musical de Carlos Machado, devido a ausência do ator principal que, por estar doente, não compareceu ao teatro. Othelo, que até então trabalhava como uma espécie de office-boy da companhia, pediu para substituí-lo e ganhou o personagem. É assim que participa da época áurea dos cassinos até o momento em que eles são fechados pelo presidente Dutra, em 1946, estagnando igualmente as esperanças de muitos artistas brasileiros.

As chanchadas da Atlântida

Outra marca na carreira de Grande Othelo foi sua participação na fundação da empresa Atlântida Cinematográfica desde a elaboração de seu projeto inicial, escrito a quatro mãos junto com os criadores oficiais José Burle, Moacir Fenelon e Alinor Azevedo, e não a três, como registra a história — fato que a peça faz questão de frisar.

O filme de estréia da produtora Moleque Tião é protagonizado por Grande Othelo e conta justamente o enredo da vida pré-artística do ator, que viria a formar em 1945 com Oscarito a dupla mais famosa dessa etapa do cinema nacional. Foi o tempo em que as chanchadas — comédias precariamente produzidas e de grande apelo popular — reinaram absolutas, sobretudo em função da versatilidade desses dois profissionais.

Todo esse período é regado de uma sorte de canções que no passado foram interpretadas por Grande Othelo nos filmes e musicais, como No tabuleiro da baiana, Marchinha do Gago, Boneca de Piche, Rasguei minha fantasia, etc., com arranjos originais de Luiz Felipe de Lima e Ernani Maletta. Muito embora a vida profissional do "pequeno grande ator" estivesse indo de vento em popa, ao som das mais alegres marchas de Carnaval — que pipocavam ano após ano dando boas-vindas aos sucessos da Atlântida — sua vida pessoal sofreu uma dramática reviravolta enquanto filmava Carnaval no fogo: sua esposa, Lúcia, matou o filho do casal, de seis anos, e se suicidou, deixando Othelo completamente desesperado. Mesmo assim, extraindo forças sabe-se lá de onde, o ator foi no dia seguinte ao set de filmagem e fez, com Oscarito, a hilária cena na qual parodiam Romeu e Julieta, sem dúvida a mais tragicômica do cinema universal. Traumatizado, o ator só viria a assistir à seqüência 25 anos depois.

O espetáculo não deixa passar em branco o encontro um tanto inusitado de dois gênios: Grande Othelo e o cineasta norte-americano Orson Welles, que, encantado com o ator, rodou com ele o filme Its all true, que permaneceu inacabado. Othelo, em retribuição, o levou para conhecer a Praça Onze e os locais onde se escondia a verdadeira alma carioca.

Outras reminiscências também ganham destaque no texto: o casamento conturbado de Othelo com Josephine Helene, que lhe deixa como saldo uma facada na barriga; a bela amizade cultivada com a atriz Ruth de Souza, que o via como uma referência; sua passagem por Macunaíma, Rio, Zona Norte e outras pérolas do cinema.

Gênio sem rótulo

Em uma certa altura do espetáculo, Grande Othelo conta a um amigo, com bastante pesar, que não agüentava mais a fama que havia adquirido. Isso porque ela tinha virado, para muitos, motivo de chacota. E relata um episódio no qual uma mulher o reconheceu em uma mesa de bar e veio em sua direção, extremamente contente. Ao invés de lhe pedir um autógrafo, pediu que fizesse "boca-flor". Ele relutou por um instante, sem saber exatamente o que ela pedia, mas logo percebeu que ela só queria vê-lo simulando a careta que usualmente fazia em seus filmes, e, quando ele fez, ela saiu satisfeita e às gargalhadas. Naquele momento, Othelo sentiu que o público estava valorizando nele tudo o que ele jamais quis ser.

"O grande conflito da vida de Othelo é que ele queria ser reconhecido como um grande artista e não como um cômico, como um bufão", explica o roteirista da peça, Douglas Tourinho, que se baseou no livro do cineasta Roberto Moura sobre o ator para a compôr a peça .

Hoje não há dúvidas de que Grande Othelo também foi um ator dramático de capacidade sem igual, assim como podia trafegar por qualquer espécie de papel sem perder o rumo.

Antes de falecer, vivia de maneira simples, tendo como únicos bens um apartamento na rua Siqueira Campos (Copacabana/RJ) e um Corcel que, segundo narra o espetáculo, havia sido comprado com muita dificuldade. Talvez o medo de Othelo fosse que a genial veia cômica que permeou boa parte da sua carreira, principalmente no que tange a época das chanchadas, o tivesse rotulado de tal maneira que fizesse com que seu trabalho parecesse um pouco menor.

Em dezembro de 1993, quando o ator partia com destino à França para ser homenageado no Festival des Trois Continants, em Nantes, sofreu um ataque cardíaco e faleceu ao desembarcar no aeroporto de Paris, aos 78 anos de idade.

Vale a pena conferir no Teatro Sesi, no Rio de Janeiro, o espetáculo que, nas palavras do diretor Paes Leme, "com descontração, irreverência, vitalidade, e um toque de improviso", tenta lançar mais luz na história desse gênio.

Enfim, o acervo é preservado

O mesmo projeto que concretizou a montagem do espetáculo, prevê também a recuperação do acervo do ator. Ainda em vida, como revelou a peça, Grande Othelo se preocupou com a conservação e a catalogação de seus pertences, os quais, entre partituras, roteiros, artigos, peças de teatro, fotos, objetos etc., traçavam um panorama de sua brilhante carreira. Até gravações de secretária eletrônica foram encontradas entre os guardados de Othelo. O próprio ator entrou em contato com uma pesquisadora que se comprometeu em ajudá-lo.

Hoje, passados alguns anos de sua morte, o desejo de Grande Othelo parece estar se tornando realidade, e o acervo que deixou como legado está sendo catalogado e em breve estará disponível, inclusive em um site na internet, para aqueles que quiserem consultá-lo. A iniciativa é de Andréa Alves e Ana Luisa Lima, da Sarau Agência de Cultura Brasileira, que com o apoio da família do ator conseguiram sistematizar um projeto e captar recursos.

Para Andréa, "Deveria existir uma lei de adoção de acervos importantes como esse, para que a sociedade pudesse ter a sua memória preservada e para que as gerações futuras tenham acesso a tudo que diz respeito à cultura brasileira. Recuperar o acervo de Grande Othelo é acertar contas com a memória de um homem que lutou pela cultura brasileira e se tornou um mito, um ícone do cinema mundial."

Esse projeto de "acerto de contas", ao qual fez referência Andréa Alves, além do espetáculo e do acervo, também inclui o lançamento de uma biografia escrita por Sérgio Cabral, e um documentário, ainda em fase de captação de recursos, com direção de Evaldo Mocarzel.

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