Conhecimento interditado: Infectada por fungos, biblioteca do Instituto de Filosofia da UFRJ funcion

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A biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) “comemorou”, no mês de setembro, um incômodo aniversário: dois anos de interdição, por causa de uma série de problemas estruturais. Por conta disso, cerca de 3 mil alunos do Instituto não podem ter acesso à maioria do acervo de aproximadamente 100 mil títulos (apenas uma parte está liberada). Não bastasse isso, o estabelecimento vem funcionando com apenas cinco bibliotecários que permaneceram após o seu fechamento parcial. Muitos se aposentaram ou tiveram de interromper suas atividades por problemas de saúde causados pelos fungos que infestaram o local.

No dia 9 de setembro, estudantes promoveram um ato na reunião do Conselho Universitário (Consuni) exigindo uma imediata solução para o problema que se arrasta por décadas.

Parece, no entanto, que a pressão surtiu algum efeito. A universidade, em nota de 17 de setembro, declarou que “as obras já estão em andamento”.

Fernando Cerqueira, responsável pela biblioteca, confirmou, em entrevista à AND, que a higienização dos livros vem sendo realizada — a previsão é de que seja concluída em meados de novembro. Fernando também disse que a manutenção do acervo, um dos pontos cobrados por ele e outros funcionários, está garantida. Outro aspecto importante é que foi assegurado o atendimento de um médico especializado em segurança do trabalho.

Essas soluções emergenciais, contudo, não encerram os problemas do IFCS. Conversas com o próprio Fernando e com alunos revelaram que o antigo prédio (veja um pouco de sua história no box) precisa de um tratamento bem mais profundo. 

Poucos funcionários

O bibiotecário Fernando Cerqueira, responsável pela Biblioteca Maria São Paulo de Vasconcellos (primeira diretora do IFCS) nos contou um pouco sobre a riqueza do acervo, as dificuldades diárias e os problemas do prédio do IFCS:

— Esta biblioteca foi criada em 1960, sendo o somatório de várias já existentes: uma da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), uma de Letras, outra de Ciências Sociais, conta Fernando. Em 1996, foi feita uma grande obra para reorganizar a atual biblioteca com o formato atual. Hoje está próxima dos 100 mil volumes.

É razoável pensar que, para cuidar de um acervo desse porte, haja a necessidade de um bom número de funcionários. Entretanto, a situação atual é preocupante: apenas cinco bibliotecários tem de se desdobrar para atender aos pedidos dos alunos e visitantes. Mesmo com a biblioteca funcionando parcialmente, a tarefa é árdua.

— Montamos uma biblioteca provisória, com apenas 2 mil títulos de bibliografias básicas dos cursos. Algumas obras de coleções especiais não podem ser colocadas no acervo normal: ficam numa sala à parte. Quem quiser acessar, tem de agendar antes, porque é preciso deslocar um funcionário para atender esta pessoa, até o término da consulta. Com a falta de funcionários, fica muito difícil. Antes éramos 19, entre bolsistas de projetos variados e terceirizados. Agora, somos apenas cinco para os quatro andares. Com a interdição, três se aposentaram, outros ficaram doentes e outros se foram, diz o bibliotecário.

O esforço dos atuais funcionários para atender ao público é patente. Fernando dá um exemplo de que, apesar das tempestades, é preciso habilidade e dedicação para comandar o barco. — Aqui está tudo improvisado. Eu e mais uma menina, que me ajudou muito, montamos toda a rede de computadores que, apesar da precariedade, funciona- conta ele.

E por que tudo está dessa maneira?

— A biblioteca foi interditada pela suspeita de contaminação por fungos, que só foram encontrados nas paredes e não atingiu o acervo. Este acervo está muito sujo e precisa ser higienizado, o que não ocorre. Eu tinha um orçamento. Houve uma licitação, mas não apareceu nenhuma empresa. Na segunda licitação, apareceu somente uma, impossibilitanto o processo. Agora, o departamento jurídico estuda uma forma, porque do jeito que está não pode continuar.

Ele nos disse depois que a higienização dos livros já havia sido iniciada (em meados de setembro) e que em aproximadamente 60 dias estaria concluída. Tal informação também foi veiculada no folheto “Biblioteca: informação sobre o desenvolvimento das obras”, de 17 de setembro, dando conta de que a Bio-Manguinhos vem cuidando disso.

Estudantes reclamam

Mas, ao que tudo indica, os problemas do IFCS, em geral, e os da biblioteca, em particular, não serão sanados por essas medidas emergenciais. Sublinhe-se também o fato de que o “emergencial”, nesse caso, chegou com um atraso de dois anos, prejudicando estudantes, funcionários e professores. — Eu consultava a bilbioteca normalmente. A biblioteca faz muita falta. Principalmente para quem não pode comprar os livros. A situação, assim, fica muito difícil, até pra concluir o curso — conta Jorge Luís, aluno do oitavo período de filosofia, deixando claro uma verdade óbvia: a de que as universidades públicas não foram feitas para o povo.

— O que mais faz falta é o espaço para estudar, onde agora tem muito barulho. Antes era tudo fechado, com ar condicionado, bom para estudar —lembra Isabel, que já concluiu a graduação em Ciências Sociais no Instituto.

Como uma síntese de todo esse descontentamento, estudantes de História, Filosofia e Ciências Sociais ocuparam as cadeiras dos conselheiros do Conselho Universitário — Consuni — no dia 9 de setembro. O objetivo da manifestação, segundo o Sintufrj (Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro), foi o de exercer pressão para o início imediato da recuperação da biblioteca e que o Consuni assumisse o compromisso de acompanhar o andamento da obra, com informes a cada sessão. No aniversário de dois anos de interdição, os alunos doaram uma réplica de um caixão com a inscrição “Aqui jaz a biblioteca do IFCS”.

O sindicato também lembrou a desastrada participação do prefeito (reeleito) César Maia, que procurou o reitor e ofereceu ajuda, após assistir a uma entrevista do diretor do IFCS em maio de 2003. A universidade apresentou o valor estimado da obra: R$ 1 milhão. A Rio Urb foi acionada para fazer a licitação para a escolha da empresa de engenharia. Depois de oito meses de espera, no entanto, o prefeito “informou que não estava mais disposto a recuperar uma instituição federal”. Porém, antes ele havia lançado um panfleto intitulado: “Prefeitura investe R$ 1 milhão para recuperar patrimônio federal”. No papel constava que a obra já estava em andamento, tanto na biblioteca quanto no prédio do instituto. Tudo mentira. Diante desses fatos, estudantes do IFCS organizaram uma manifestação diante da subprefeitura do centro.

Pontos positivos

Nem tudo é tragédia na Biblioteca Maria São Paulo de Vasconcellos. Mesmo sentindo os efeitos de anos de descaso, ela continua sendo motivo de orgulho, tanto para alunos quanto professores e funcionários. Alguns breves minutos de colóquio com Fernando nos dão a exata noção da riqueza do acervo. Uma parte dele é composta pelos periódicos, importantes ferramentas para pesquisadores e estudantes.

— Temos obras de referência, periódicos, mapas, um acervo de recortes de jornais e um Centro de Documentação Européia, conta ele.

— Um dos destaques é o setor de periódicos. Temos um acervo retrospectivo muito importante. Aqui no IFCS se editam algumas revistas. Duas são de História: a Topoi — da pós-graduação em História Social — e a Phôenix — do Laboratório de História Antiga. Temos três revistas eletrônicas na página do IFCS www.ifcs.ufrj.br .

O melhor é que o acesso é facultado a toda população, apesar dos empréstimos serem restritos à comunidade da UFRJ e só é permitido fotocopiar 10 por cento de cada obra. Fernando explica que a procura maior é por livros de História, já que o curso tem dois turnos. Os alunos dos cursos de Ciências Sociais e História consultam mais do que os da área de Filosofia. A última aquisição para o acervo foi realizada em 2000, para as 42 bibliotecas da UFRJ, prevalecendo as doações sobre as compras.

Falando sério

Por que o povo pobre não frequenta as bibliotecas? Sem pretensões de tecer uma demolidora crítica à literatura presente, cabe lembrar: um proletário, sem maiores informações, não pode esperar que nas bibliotecas sejam encontradas obras que respondam e correspondam às suas ansiedades mais prementes. E com que autoridade alguém poderá tirar suas razões?

Nesses dias de maior sonegação de verbas para manter antigas políticas públicas, não há mais nenhum pudor em sabotar o ensino público. A ordem econômica e política nas semicolônias indicam que se esgotaram as razões para manter estabelecimentos de ensino nacionais, nem há o que pesquisar já que não existe produção. Portanto, para que universidades e bibliotecas, mesmo as especializadas? Obras catalogadas, classificadas e conservadas durante longos anos, a duras penas — entre ficção, livros de referência, didáticos, técnicos e científicos, ensaios etc —, seja numa biblioteca especializada ou aberta a ‘toda comunidade’, como se diz no linguajar burocrático, perdem sua finalidade, até mesmo a de ostentação.

Para os estudantes há a indústria de apostilas com suas redes, inclusive as de luxo, o copiar das enciclopédias, a indústria da fotocópia...

Antes de afirmar que não há verbas para ampliar acervos, é preciso dizer franca e honestamente que ler é proibido.

Quem ainda, entre os que cultivam o hábito da leitura comprovadamente útil não se deu conta de que não se editam mais obras de cunho literário, senão que a imprestável literatura do império no formato de livros? Que o digam as livrarias que adotaram a “classificação literária” da auto-ajuda e coisas do gênero. As maiores editoras são, em primeiro lugar, distribuidoras, ou especuladoras do ramo, e os lançamentos estrangeiros, páginas impressas de iletradas publicações, produzidas a um custo muito baixo que ostentam preços impiedosamente altos.

A literatura religiosa, madrasta das obras pornográficas, irmã dos insultos filosóficos e místicos, do Direito da pilhagem, da Economia e da Política - arbitrárias ou servis - e da Arte afeminada, nisso se resume toda a “nova” escrita literária à disposição nas colônias.{mospagebreak}

Um pouco da história do IFCS (*)

Situado no Largo de São Francisco de Paula, no centro da cidade do Rio, o IFCS passou por diversas reformas e teve variadas funções ao longo de quase três séculos.

Em 1749, foi iniciada no local a construção da Igreja de São Sebastião, futura Sé (igreja episcopal, arquiepiscopal ou patriarcal) da cidade. Essa função inicial, todavia, foi alterada pelo regente Dom João, em 22 de janeiro de 1811, que determinou a adaptação do prédio para uma nova finalidade: sediar a Real Academia Militar, criada em 1810.

Foram feitos reparos para que o edifício pudesse hospedar o Arquivo Militar, as aulas da Academia e os gabinetes de Física, Química, História Natural e Mineralogia — na época, áreas tradicionalmente ligadas ao ensino militar.

Em 1858, a Academia se desdobrou em duas escolas: uma segunda Escola Militar, que foi para a Urca, e a Escola Central (de estudos científicos e engenharia), que continuou no prédio do atual IFCS. Em 1874, nova transformação: a Escola Central passa a se chamar Escola Politécnica, que era, no século XIX, uma das três grandes escolas de ensino superior no centro da cidade — junto com a Academia de Belas Artes e a Faculdade de Medicina.

No início da década de 1870, há um processo de expansão, com a contratação de professores estrangeiros. A maioria dos engenheiros da cidade se formava ou lecionava na Politécnica —André Rebouças e Paulo de Frontin são dois exemplos.

Em 1966 a Escola Politécnica transforma-se em Escola de Engenharia e muda-se para a Cidade Universitária na Ilha do Fundão.

Nas origens do IFCS, encontra-se a Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), criada em 1939. A reforma universitária de 1968 reuniu em Institutos e em Faculdades os cursos que, até então, faziam parte da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil (atual UFRJ). O IFCS originou-se da junção dos antigos cursos de Ciências Sociais, de História e de Filosofia da antiga FNFi. As atividades acadêmicas e de pesquisa estão sendo realizados hoje por 140 professores (122 doutores, 10 mestres e 8 bacharéis). O IFCS congrega atualmente três departamentos: Ciências Sociais, Filosofia e História, responsáveis por três cursos a nível de graduação; três Programas de Pós-graduação, Sociologia, História e Filosofia, todos com mestrado e doutorado, além de programas específicos de pesquisa, tais como o Laboratório de Pesquisa Social, que reúne 11 núcleos temáticos. Atualmente são 1500 alunos de graduação e Pós-graduação, além de outros 1000 que freqüentam os cursos introdutórios vindos de outras unidades da UFRJ.


(*) Fonte: IFCS e o livro Escola Politécnica do Largo de São Francisco. Berço da engenharia brasileira, de Mário Barata, edição da Associação dos Antigos Alunos da Politécnica e do Clube de Engenharia, Rio de Janeiro, 1973)

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