Lucro máximo com pedacinhos de gente

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A comunidade científica manifesta uma constante intranquilidade com a enorme quantidade de animais sacrificados em testes para a produção de remédios, cosméticos e artigos de limpeza domiciliar. Mas quando os números descem, a preocupação aumenta. Embora os fabricantes sustentem que, com suas experiências, zelam pela saúde do consumidor, na verdade estão lançando mão de subterfúgios para não serem pesadamente responsabilizados e terem sua imagem de mercado seriamente prejudicada. Que novos desastres podem advir no mundo desgovernado pelo lucro máximo e pelas guerras de rapina?

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Milhares de novos produtos anualmente são lançados à venda depois de aprovados em processos que envolvem experiências nas quais as mais variadas espécies de animais são mutiladas, queimadas, envenenadas e expostas à ação de gases. Os fabricantes de medicamentos justificam o sacrifício de cobaias argumentando que com isto preservam a vida dos seres humanos, mas suas informações sobre procedimentos efetivos em caso de danos à saúde são precárias. As indústrias de cosméticos e produtos químicos de limpeza limitam-se a advertir discretamente sobre a toxicidade encontradas nas suas mercadorias.

No Brasil não existem estatísticas oficiais, mas pelo menos um grande fabricante de cosméticos, a Natura, fornece informações. De acordo com a empresa, em 2003, foram usados 308 animais em seus laboratórios, número bem menor do que o registrado em 1999, quando realizou testes com 4.077. Entre os testes mais cruéis realizados nos laboratórios destacam-se o Draize e o LD50. O primeiro serve para medir a ação tóxica das substâncias químicas de produtos de limpeza e cosméticos. Observam-se as reações causadas na pele e nos olhos dos animais aplicando-se diretamente o produto. A investigação pode durar até uma semana, durante a qual os animais sofrem dores extremas e mutilação. Para esses testes, os coelhos são imobilizados em suportes de onde somente suas cabeças se projetam; os olhos são mantidos abertos, permanentemente, através de clips metálicos. Ao final, os animais são mortos para averiguação dos efeitos internos das substâncias aplicadas. O tamanho de seus olhos permite melhor observação dos resultados, embora não constituam o modelo ideal para comparação com a vista humana. Há grandes diferenças em espessura, estrutura de tecido e bioquímica das córneas.

Ao contrário dos humanos, coelhos possuem ductos lacrimais mínimos e quase não produzem lágrimas. Mas a preferência aos coelhos para o teste de Draize é devida ao baixo custo de obtenção de cada animal e a facilidade no seu manuseio. É óbvio, toda essa perversidade se justifica por um motivo nada desprezível, pois faz parte dos métodos para baixar custos de produção. E se a recusa de evitar o tormento dos animais nem de longe tem o objetivo de diminuir o preço do produto posto à venda, essa mesma prática é um entre tantos outros artifícios que ampliam o lucro. Já com o teste LD50, a sigla serve para mascarar a crueldade. Trata-se de Lethal Dose 50 Percent (dose letal de 50%), utilizada em experiências com medicamentos, cosméticos e produtos de limpeza. Um determinado número de animais é forçado a ingerir a substância em teste. A dose ministrada vai sendo diminuída progressivamente, até sobreviver apenas 50% da população inicial. Cada teste LD50 é conduzido por alguns dias e utiliza mais de 200 animais. Durante o período experimental, os animais sofrem de dores angustiantes, têm convulsões, diarréia, sangramentos nos olhos e na boca. Ao final dos testes, mesmo os sobreviventes são sacrificados.

Macacos são cobaias preferidas para pesquisas e desenvolvimento de medicamentos e tratamentos contra doenças como hepatite e malária, assim como na pesquisa de vacina contra a AIDS. Gatos são os animais mais utilizados para a compreensão do funcionamento dos neurônios e da organização do cérebro. Assim, é obtida a quantidade ideal na prescrição do produto para humanos. Porcos são os preferidos para se estudar a cicatrização da pele, sendo também muito utilizados para testar métodos que impeçam o estreitamento das artérias após a angioplastia. Novamente, mantém-se a idéia ilusória de que se sacrificam animais inferiores para salvar a espécie superior e, assim, oculta-se um dos subterfúgios do lucro.

A saúde financeira

A indústria farmacêutica é a menos visada quando o assunto é a utilização de animais em testes de substâncias químicas, pois alega que o procedimento tem a finalidade de salvar vidas humanas. Entretanto, os resultados obtidos variam muito, dependendo da espécie animal utilizada. Prognósticos seguros da dose letal de uma substância para os humanos tornam-se impossíveis de ser determinados. Há, por exemplo, a sacarina (adoçante) que causa comprovadamente câncer na bexiga de ratos, mas que na bexiga de humanos nada provoca, devido a diferença nas características urológicas. Estudos têm demonstrado que as reações a diferentes substâncias podem variar até mesmo entre humanos, dependendo do sexo e da idade, por exemplo. Sabendo-se que essas variações de resultado podem ocorrer até mesmo entre os humanos, como é possível um rato ou cachorro servir como modelo de base para qualquer comprovação científica?

O número de medicamentos testados em animais que foram liberados para o comércio e depois retirados de circulação é grande. O Opren, uma droga para artrite, matou 61 pessoas. Mais de 3500 casos de reações graves foram documentados, embora tenha sido testado sem problemas em macacos e outros animais. A dose indicada de isoproterenol, substância usada para o tratamento de asma, funcionou perfeitamente em animais, porém causou a morte de 3500 asmáticos por overdose na Inglaterra. Outra droga para artrite, Suprofen, foi retirada do mercado quando pacientes apresentaram intoxicação renal. Antes de seu lançamento, os pesquisadores informaram que os testes tiveram "perfil de segurança excelente, sem efeitos cardíacos, renais ou no Sistema Nervoso Central". O diurético Selacryn foi intensivamente testado em animais, mas em 1979 teve de ser retirado do mercado por causar a morte de 24 pessoas de insuficiência hepática. Até o flúor, no início de seu desenvolvimento, ficou retido como preventivo de cáries, por ter causado câncer em ratos. Recentemente o Vioxx1 começou a ser recolhido. Nenhuma outra providência foi adotada, exceto restituir à vítima o preço do "medicamento", mediante entrega da caixa não violada ou dos comprimidos restantes. O que foi consumido pela vítima não sugere indenização. Outros produtos nocivos, proibidos nas grandes potências, não encontram o mesmo tratamento no Brasil. Quanto aos placebos, como não fazem mal nem bem... O mais assustador é que isso significa apenas alguns aspectos da obtenção do lucro máximo na área de higiene, beleza e saúde. Outra pergunta que surgiu é se os efeitos são do Vioxx ou de toda a família de fármacos a que este medicamento pertence: cientistas ingleses pediram a revisão nos estudos realizados com o Celebra e o Bextra, que são do mesmo grupo químico e a Agência Européia de Medicamentos já declarou que vai rever todos os medicamentos desta categoria.

Alega-se que a única razão para os testes com animais é de ordem financeira. Cobaias de baixo custo não elevam os orçamentos da empresa nem atendem com rigor às exigências da legislação. Tempo, dinheiro e recursos humanos devotados aos experimentos com animais, poderiam há muito, ter sido investidos em pesquisas com base em humanos.

Acredita-se que estudos clínicos, pesquisas invitro, autópsias, acompanhamento da droga após o lançamento no mercado, modelos computadorizados, pesquisas em genética e epidemiologia, não apresentariam perigo para os humanos e propiciariam resultados precisos. No entanto, em se tratando do homem, essa lógica também serve ao lucro máximo, em particular nas colônias e semicolônias, porque se pode sugerir cobaias humanas, onde a espécie tem o preço em baixa constante. Afinal, qual o problema para que tecido humano se transforme em mercadoria, senão que seccionar o elemento de um organismo determinado e colocá-lo à venda? Francamente, o que está em discussão são os custos acompanhados de remarcação de preços; necessidades da medicina que, atendidas, trariam benefícios sociais resguardado o direito do lucro máximo.

A redução dos testes nos animais, verificada agora, deve-se ao surgimento de "técnicas alternativas". O uso de células humanas cultivadas em laboratórios vem substituir outros animais em testes que objetivam detectar irritação, alergias e até câncer. Até plantas estão sendo utilizadas para detectar a toxicidade dos produtos. Na Inglaterra, o laboratório Pharmagene vem desenvolvendo a técnica de estoque de tecidos humanos retirados durante biópsias ou de algum tipo de tratamento de pacientes em hospitais e fazendo sua utilização nos testes, em vez de outros animais.

Estão as corporações que operam no ramo de laboratórios mais atentos à saúde humana, em razão disso? Não. Mas, entre outras coisas, os tecidos humanos passaram a ter um custo menor porque, a princípio, são desprezados nos hospitais, enquanto que as células de outros animais, dependendo do preço, são utilizados em grande ou pequena escala.

Célula-tronco

O uso da célula-tronco, tão polêmico e tão discutido atualmente, é outro caminho. Mas seu manejo está limitado e concentrado nas mãos de poderosas indústrias, o que pode favorecer um outro tipo de comércio. A célula-tronco é ideal para todo tipo de experimento científico, mas o lado negativo está na ganância de seus controladores. A cada dia são descobertas novas fontes de célula-tronco além das tão conhecidas, como o embrião e o cordão umbilical e a cada descoberta se torna mais simples a obtenção desse tipo celular. Pelo mesmo procedimento utilizado no transplante de medula, pode-se obter as células que se transformam em qualquer tipo de tecido. A última fonte descoberta é o dente de leite, de custo baixo para ser extraída. Mas num país cujo planejamento se fundamenta nas iniciativas estrangeiras, quando os experimentos aparecem com facilidade, com baixo custo, é na conservação do material ou em outro segmento qualquer da industrialização e comercialização que então passa a residir o custo proibitivo para ramos de menor capital, onde os desprotegidos empresários nacionais se revelam mais aptos. No caso do dente de leite, a conservação fica a cargo dos grandes laboratórios (transnacionais) que atuam livremente, monopolizando e fazendo o seu preço em função da ordem e do progresso do lucro máximo.

No Brasil, antes mesmo da metrópole autorizar, nos bastidores do Legislativo já se movimenta experimentos com célula-tronco. Cientistas brasileiros vêm trabalhando em conjunto com japoneses no desenvolvimento de diversas pesquisas. Desde setembro do ano passado, pesquisadores japoneses conseguem induzir células-tronco a se transformarem em espermatozóides e óvulos, o que ajudará a entender como as células reprodutivas se formam e como casais inférteis podem se beneficiar da descoberta.

O humanismo do lucro

Os avanços da ciência japonesa com as células-troco foram estudados no Brasil durante o II Simpósio de doença do Neurônio Motor, realizado em agosto do ano passado, quando discutiu-se sobre essa terapia em várias patologias como esclerose lateral amiotrófica (ELA), esclerose múltipla, infarto do miocárdio, lesão medular, síndrome de Parkinson e distrofia muscular de Ducheinne. Existem no país mais de 40.000 embriões congelados que poderiam estar contribuindo com o tratamento. Na guerra entre as corporações da indústria de cosméticos destinada a obter fatias sempre maiores do mercado, esses monopólios buscam promover a desqualificação do concorrente. Grandes marcas como L`Oreal, Nívea e Natura mostram-se apreensivas. Ao contrário desses, a empresa inglesa The Body Shop vem fazendo sucesso com cosméticos que não são testados em animais.

Na Europa, já foram baixadas proibições aos testes de cosméticos em animais. Há países que pretendem também banir a comercialização e importação de produtos que façam esse tipo de experimentação. Para os incautos, o problema é que no Brasil "não se dispõe de legislação reguladora da criação e do uso de animais para pesquisa e ensino". Mas "graças ao bom senso e à conscientização de parte dos pesquisadores e professores, já foram adotados alguns princípios éticos fundamentais e imprescindíveis".

Como sempre, existe até um projeto de lei para regular a matéria, todavia, "em tramitação na Câmara dos Deputados". Mas a questão é, porque não a aprovam e, se a aprovarem, com que intuito a farão. Até lá, a única lei que pode ser considerada aplicável à prática da experimentação animal, de forma ainda bastante inadequada, é a que dispõe sobre os crimes ambientais (Lei nº 9.605/1998) que, como qualquer lei, é aplicada com rigor contra os pobres e com brandura para os ricos.

No mais, os negócios numa semicolônia latino-americana como o Brasil, que lida diretamente com a ciência dos animais de laboratório há mais de 30 anos, não permitiram dispor ainda de uma única legislação nessa área. Ou, se existisse, à maneira de tantas, estaria devidamente desprovida de conteúdo e efeito prático.

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