A liberdade não tem preço!

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Lemos, recentemente, um interessante artigo da Escritora Meredith F. Small, Professora de Antropologia na Universidade de Cornell, publicado no The New Scientist, intitulado “Duração excessiva da infância intriga pesquisadores.” Nele, a autora chama a atenção para os seguintes fatos: "Os chimpanzés estão preparados para se reproduzir aos oito anos. Os gorilas são adultos aos seis. Mas a infância humana dura duas vezes mais do que duraria no caso de um símio de nosso tamanho e com o nosso ritmo de crescimento".

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Logo após a leitura, percebemos que houve um possível motivo para essa infância prolongada que nem a professora Meridith abordou, nem o fez nenhum pesquisador que ela tenha citado. Trata-se de que os seres humanos têm uma capacidade muito grande de intervir nos processos da Natureza, havendo, portanto, a necessidade de um período de tempo grande para que possam amadurecer intelectualmente, antes que atinjam a maturidade física, que lhes permita o uso de todo o seu poder de interferência. Com isso, talvez, fosse evitado maior risco para a humanidade e para a vida na Terra, de um modo geral. Infelizmente, parece que as defesas naturais não foram suficientes para impedir que um hominídeo mentalmente na Idade da Pedra, ainda não amadurecido aos 56 anos, utilizasse-se da melhor tecnologia do século XXI, para ameaçar 2000 anos de civilização cristã ocidental e, talvez, a própria prevalência do Homem no Planeta.

É verdade que muito tem sido dito sobre a invasão do Iraque, e que a esmagadora maioria das manifestações, em todos os rincões do mundo têm condenado essa barbárie covarde e irracional. Mas aqui, também, alguns aspectos relevantes não têm sido abordados pelos formadores de opinião e pelos analistas políticos e militares da agressão. Uns poucos são extremamente simples e tão óbvios que custa crer que não tenham sido, até agora, completamente dissecados. Desconhecemos as razões dessas omissões, mas é, indiscutivelmente, imprescindível que as mais importantes sejam trazidas à luz. Vamos, de início, acabar com essa bobagem de chamar de terrorismo os únicos meios disponíveis de emprego militar pelas nações menos desenvolvidas.

Ouvimos, há pouco, com grande preocupação, um repórter chamar de ataque terrorista a ação de supostos iraquianos que teriam lançado granadas contra uma barraca em que dormiam soldados americanos invasores de seu País. Como terrorismo? Devemos ter muito claro que é absolutamente legítimo qualquer tipo de ação contra uma invasão militar, no interior do próprio território. E quando o agressor está em guerra de conquista e tomou a iniciativa das ações, passa a ser um dever o uso dos meios mais devastadores disponíveis, sejam quais forem.

Da mesma forma que não foi imposta nenhuma restrição aos desproporcionais meios americanos, aceitemos que o Iraque se defenda como puder e com tudo o que tiver. Não existe terrorismo contra invasor. Essa palavra, tantas vezes generalizada e, outras tantas, restringida no seu significado segundo a conveniência de quem a emprega, somente se aplica à ações contra populações civis inocentes. No mais, é negar aos mais fracos o direito de autodefesa, que as grandes potências tanto prezam.

Mas, voltando ao terrorismo, não seria o Pavor, do nome dado à operação — Choque e Pavor—, eufemismo cínico e mal disfarçado para terror? E as armas usadas pelos Estados Unidos, com seu grande poder de fogo, e pelo desmedido número de bombas e mísseis que estão sendo empregados, não poderiam ser consideradas armas de destruição em massa?

Em momento de grande “inspiração”, Werner von Braun comparou, uma vez, a Terra com uma nave perdida no espaço, cujos astronautas enfurecidos jogavam fora todos os seus suprimentos. Ninguém desempenha melhor o papel de astronauta furioso do que os Estados Unidos. Esse país, faz tempo, vem destruindo, com intensidade crescente que, hoje, atinge proporções devastadoras, os recursos naturais do nosso planeta, indispensáveis à sobrevivência das gerações futuras de todas as demais nações.

Como esses recursos estão a esgotar-se rapidamente, parece claro, após essa desproporcional demonstração de força, materializada com o massacre no Iraque, que os Estados Unidos pretendem tomar tudo aquilo de que necessitem, como, aliás, já vêm fazendo desde as suas origens. Essa voracidade por petróleo não é nova. Todos ainda se lembram do ditado atribuído ao presidente mexicano Lázaro Cárdenas: (1934-1940): “Pobre México! Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. Os tempos fizeram o mundo ameaçadoramente pequeno e, assim, colocaram-nos, a todos, perigosamente próximos daquele país. A melhor imagem que encontramos para caracterizar os Estados Unidos é a de um câncer que consome toda energia vital do planeta para o seu próprio crescimento, em detrimento de toda a humanidade.

Está na hora de dar um basta! A experiência histórica mostra que a excessiva prudência não é a melhor forma de lidar com as ditaduras imperiais, que só se limitam com oposição por forças que lhes causem, ou possam causar, danos, sejam políticos, econômicas ou militares. Neste caso, os Estados Unidos aceitaram o enorme desgaste político decorrente da ilegitimidade das suas ações, e é evidente que pressões políticas não mais produzirão quaisquer efeitos. Com a União Européia dividida, tornam-se, virtualmente, impraticáveis as sanções econômicas. Restam as militares.

É um erro imaginar que ceder às pressões e aderir às posições da potência hegemônica vá trazer qualquer vantagem. Passado o conflito, aqueles que o tenham feito serão tratados com o desprezo que os fracos e os covardes merecem dos poderosos. Foi assim no Império Romano, foi assim na Alemanha, quando foram tolerantes com Hitler, que adotara postura semelhante à dos Estados Unidos de hoje, e será assim na aventura em que se envolveram os ditos aliados.

Com exceção da Inglaterra e, talvez, da Austrália, todos os que participaram da “quadrilha” serão descartados, quando deixarem de ser necessários. O Brasil foi aliado na 2ª Guerra Mundial e não conseguiu ficar, sequer, com as migalhas que sobraram da ajuda aos derrotados.

O problema é realmente muito difícil. Deram muita liberdade de ação aos Estados Unidos, e agora está quase impossível contê-lo. De qualquer modo, quanto mais o mundo demorar a perceber que o confronto é inevitável , piores serão as conseqüências. Em verdade, nós nunca pensamos que fôssemos ter saudade do equilíbrio proporcionado pela União Soviética. Mas não adianta chorar o leite derramado. É indispensável restabelecer-se a bipolaridade, já que a tentativa com a União Européia foi implodida pelos Estados Unidos, com as suas últimas ações suicidas — porquanto eles precisam da bipolaridade, tanto quanto nós (o resto do mundo).

Sem nada que os limite, eles prosseguirão, de desatino em desatino, a aumentar a área de influência imperial, até que, por fim, desmoronem, ou por perda de controle, ou por incapacidade de arcar com os custos do aparelho militar, hipertrofiado pela necessidade de impor a força, simultaneamente, em todos os cantos do globo, como aconteceu em todos os outros precedentes históricos. Já vemos sinais disso.

Mas não é aceitável esperar todo esse tempo para recuperar a liberdade por gravidade. Alguma outra solução deve ser pensada. E, talvez já se esteja esboçando uma alternativa. Recentemente, foi noticiado que Alemanha, França e Bélgica poderiam assinar um acordo de defesa mútua. Isso poderia ser o embrião do outro pólo, que se concretizaria com a adesão de todos aqueles que se opusessem ao projeto de poder hegemônico dos Estados Unidos.

É mais do que evidente que a superpotência tudo fará para impedir essa e qualquer outra ação contra suas pretensões. Mas, ironicamente, o maníaco presidente Bush talvez tenha trazido a solução, com a sua Doutrina de Guerra Preventiva. Como já vimos, mais cedo ou mais tarde, os Estados Unidos poderão atacar a qualquer país que a eles se oponha ou que possua algum recurso de que necessitem. Assim, seria absolutamente legítimo àqueles países, que disponham de armamento nuclear, realizar um ataque preventivo contra o referido futuro agressor.

Se aderisse ao acordo de defesa um grande número de nações, entre as quais, França, Rússia e China, os signatários do acordo reuniriam grande quantidade de ogivas nucleares e, também, disporiam dos mísseis para empregá-las. Esse poder de fogo, capaz de devastar os Estados Unidos enquanto eles não possuíssem o Escudo Antimísseis, talvez, fosse suficiente para dissuadi-los de algumas de suas pretensões, impondo-lhes os limites para que se comportem como nação civilizada. Entre os fatores favoráveis podemos citar um possível insucesso na campanha contra o Iraque, cujo prolongamento teria sabor de derrota; a aceleração da crise que se vem delineando na economia americana; e uma possível derrota do governo Bush nas próximas eleições. São cenários possíveis que, talvez, levassem os Estados Unidos a aceitarem, com mais facilidade, a nova bipolaridade como um fato político bom para todos, facilitando, completamente, o equilíbrio nas relações internacionais.

Há, porém, um ingrediente indispensável para que tudo isso funcione. É a determinação inabalável de empregar o armamento atômico, se isso for absolutamente necessário. Caso contrário, não haveria credibilidade, e os resultados seriam desastrosos. Mas seria possível conseguir-se essa disposição para o emprego de arma nuclear? Até agora é impossível saber, embora o que se tem observado dos diversos atores sugira que não.

A outra opção é pavorosa: viver, por período imprevisível de tempo, como escravos da potência hegemônica fora de controle.

Há ainda outra boa motivação para o emprego da Doutrina de Guerra preventiva: também os Estados Unidos sabem, perfeitamente, que poderão ser, um dia, atacados por qualquer das potências nucleares, assim, pela mesma Doutrina Bush, mais cedo ou mais tarde eles farão o ataque preventivo. Isso reforça a ameaça, ao dar mais um motivo para o ataque ianque. Por que não se haveriam de antecipar os países que se sentissem possíveis futuras bolas da vez?

E se o câncer americano se tornasse intratável, e fosse necessário extirpá-lo, isto é, se fosse indispensável o ataque atômico aos Estados Unidos? Bem, nesse caso, eles sairiam tão destruídos que perderiam a capacidade de operar como potência, mas, sem dúvida, retaliariam, fazendo o mesmo com os agressores preventivos. Desse modo, não haveria mais potências, e a desorganização política, econômica e social seria completa. O paciente estaria morto. A civilização, tal como a conhecemos, teria desaparecido.

Mas, muito provavelmente, haveria herdeiros. Logo, os sobreviventes iniciariam a penosa tarefa da reconstrução e, apesar das dificuldades e da escassez de recursos, dilapidados que foram pelos genitores, outra civilização ressurgiria das cinzas, restando-nos, apenas, esperar que ela fosse melhor do que esta que os Estados Unidos vêm modelando, injusta e violentamente, há pouco mais de meio século e que, agora, procuram destruir. Se não houvesse sobreviventes? Paciência. Nós seríamos mais uma espécie extinta. Uma entre as muitas outras que a nossa imbecilidade original já extinguiu. Parece terrível. Mas mais terrível seria viver subjugados por um povo, cujo ditador não tem compaixão e não sabe o que é piedade. A sua sede de sangue já se manifestava quando, Governador do Texas, trocava a vida de condenados por votos, para satisfazer um eleitorado, ávido de sangue, em um ritual macabro, ainda hoje usado em vários Estados americanos, que mais lembra os sacrifícios humanos praticados por sociedades primitivas.

Gostaríamos de esclarecer que pensamos muito, antes de escrever este artigo, por receio de sermos considerados lunáticos. Mas não temos visto a insanidade mental do Presidente Bush alardeada, com muita freqüência, nos meios de comunicação, o que nos animou um pouco. Além disso, é desperdício imperdoável uma idéia não compartilhada. Gostaríamos, também de tornar público que não estamos arrependidos de havermos contribuído com a Cruz Vermelha Americana, para prestar ajuda às vítimas de 11 de setembro, mas lamentamos, profundamente, que a estupidez dos governantes daquele país, cujo povo é tão vítima dessa minoria quanto nós, tenha desperdiçado o clima de quase irrestrita solidariedade que se seguiu ao trágico atentado, preferindo o caminho da violência injusta e arbitrária à contribuição efetiva para construção de um mundo mais justo, solidário e, sobretudo, mais pacífico, sob a sua liderança. Por fim, gostaríamos de lembrar que há valores inegociáveis, sem os quais não vale a pena viver.


Luís Mauro Ferreira Gomes é coronel Aviador RR

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