O ritmo o reverencia, Jackson do Pandeiro!

A- A A+
 

Nos idos da década de 1920, em Alagoa Grande, na região do Brejo paraibano, quem fazia sucesso entre a meninada em suas brincadeiras eram os personagens dos filmes de faroeste. O pequeno José Gomes Filho incorporava então o Jack, ou “Jaque”, inspirado em Jack Perrin, ator estadunidense protagonista de uma série de aventuras de “bangue-bangue”.  

Banco de dados AND
Autodidata, Jackson dedicou-se inteiramente à música desde os 17 anos de idade
Autodidata, Jackson dedicou-se inteiramente à música desde os 17 anos de idade

Filho de uma talentosa cantora de coco, Flora Maria da Conceição, que utilizava o nome artístico Flora Mourão, e do oleiro* José Gomes, o pequeno Jaque nasceu em 31 de agosto de 1919. Sua infância foi entre o trabalho na roça, as brincadeiras e as rodas de coco. Foi no compasso das cantorias de sua mãe que, aos sete anos, aprendeu a tocar zabumba. No início dos anos de 1930, após o falecimento de seu pai, partiu a pé de Alagoa Grande com dona Flora e seus outros dois irmãos, Severina, (“Briba”), e João (“Tinda”), rumo a Campina Grande, onde chegaram após quatro dias de caminhada.

Ganhando o pão

Jaque percorreu as feiras da cidade fazendo pequenos serviços e trabalhando como engraxate. Depois de um tempo empregou-se em uma padaria onde trabalhou como entregador e ajudante de padeiro. Trabalhava de dia e, à noite, frequentava as rodas de coco, xaxado, rojão, se deliciava com os desafios dos repentistas. Queria ser sanfoneiro, mas o instrumento era caro. Graças à cotização feita por amigos, ganhou um pandeiro e assim começou o seu “reinado”.

Aos 17 anos decidiu largar o emprego na padaria e se dedicar inteiramente à música. Autodidata, fazia um batuque diferente, mudava o compasso sem perder a toada, impressionava os mais experientes músicos. Em 1939, formava dupla com José Lacerda (irmão de Genival Lacerda). Zé Jaque, como era conhecido, passou a ser disputado pelos artistas e grupos musicais de Campina Grande, tocava em clubes e festas.

Nos anos de 1940, mudou-se para João Pessoa. Tocava nas boates e cabarés da capital e não demorou para ser contratado pela Rádio Tabajara para tocar na orquestra da emissora sob a regência do maestro Nozinho. E foi pela batuta do maestro que chegou à Rádio Jornal do Commercio, em Recife. Era um devorador de ritmos e técnicas de percussão. Por onde passava, aprendia a tocar um novo instrumento. No seu caminho de Alagoa Grande a Recife, tocou zabumba, bongô, tamborim, reco-reco, bateria, e o pandeiro, que em suas mãos se transformava em uma verdadeira orquestra.

Eu vou mostrar pra vocês...

Foi Hernane Sérgio, chefe da locução de Pernambuco, quem fez seu “batismo”: Jaque não soava bem, “botaram um esse-ó-ene que ficou mais sonoro”. Virou Jackson, Jackson do Pandeiro!

“Eu vou mostrar pra vocês/ como se dança o baião/ e quem quiser aprender / é favor prestar atenção...”. Baião, canção-manifesto de  Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que apresentou o novo gênero musical brasileiro em 1946, fez escola e encontrou em Jackson do Pandeiro um dedicado discípulo. O rojão - como também é chamado o baião - nasceu da tradição popular, de um pequeno trecho musical executado pelas violas dos repentistas durante os intervalos entre um e outro desafio ou à espera da inspiração - explica o historiador José Ramos Tinhorão no livro Pequena História da Música Popular – Da Modinha ao Tropicalismo (Art Editora).

No programa de rádio intitulado 1ª Revista Carnavalesca, cantou pela primeira vez Sebastiana, composta por Rosil Cavalcanti. O sucesso foi tamanho que cantou, repetiu uma, duas vezes... o mês inteiro. “Só deu Sebastiana no carnaval de Pernambuco” naquele ano, declarou em uma entrevista concedida a Grande Otelo.

Em 1953, Jackson do Pandeiro gravou o coco Sebastiana e Forró em Limoeiro, um rojão de Edgar Ferreira, que compuseram seu primeiro compacto. Sucesso!

Também foi na Rádio Jornal do Commercio que Jackson do Pandeiro conheceu a professora, atriz e cantora Almira Castilho de Albuquerque, com quem se casou em 1956. Formavam uma dupla sensacional: ele cantava e tocava o pandeiro, ela dançava, cantava e compunha. De compleição franzina, Jackson era um gigante no palco. Gingava, cantava, brincava com os ritmos e, para o deleite do público, trocava umbigadas com Almira. Suas atuações chamaram logo atenção da indústria cinematográfica e lhes rendeu aparições cantando e dançando em pelo menos oito filmes nacionais entre 1958 e 1962.

Gênio musical

E “dividia” como ninguém. Fazia da música o que queria. Dividir, em termos musicais, é transformar a estrutura das frases, quebrar a lógica das estrofes reconstruí-las sobre o compasso original. Tão naturalmente o fazia, com a voz e com o pandeiro, que deixava músicos experientes boquiabertos. Era também exímio “sanfoneiro de boca” e que, apesar de não tocar aquele instrumento, imitava seu som mostrando aos músicos o que queria que eles executassem.

Depois do sucesso do primeiro compacto, Jackson do Pandeiro já não cabia mais apenas no Nordeste. Mudou-se para o Rio de Janeiro em meados dos anos de 1950. Empregou-se na Rádio Nacional e emplacou um sucesso seguido de outro: O Canto da Ema, Chiclete com Banana, Um a Um. Na TV Tupi, entre 1954 e 1958, apresentou programas musicais em que revelava artistas e seu próprio repertório.

Aventurou-se por todos os ritmos. Compôs sambas e marchinhas de carnaval e foi campeão de festivais carnavalescos na capital fluminense, deixando muitos “bambas” no chinelo. Há quem diga que devemos também a Jackson do Pandeiro o ritmo do Frevo como o conhecemos hoje, pois foi ele quem o acelerou com sua batida. A esta altura, Jackson do Pandeiro já era Sua Majestade, o Rei do Ritmo, título de um de seus LP’s, gravado em 1954.

Seu maior feito foi alcançado ao lado de Luiz Gonzaga: eles promoveram a nacionalização das canções e gêneros populares nordestinos. Foi entusiasta e ativista da cultura popular do Nordeste: “Mesmo com a perseguição da música estrangeira, eu aguentei a barra durante doze anos, eu e o Luiz Gonzaga, nunca parei de fazer gravações mesmo com toda a perseguição do iê iê iê...”, revelou na mesma entrevista a Grande Otelo.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja