A barbárie da polícia que mais mata no mundo

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A matança de pobres nas favelas do Rio de Janeiro fez mais vítimas no fim de maio e início de junho, quando a intervenção militar nos aparatos de repressão do estado completou 100 dias. No evento que celebrou a marca, realizado  dia 30 de maio no observatório militar da Praia Vermelha, zona sul do Rio, o secretário de segurança, general Richard Nunes, elogiou a intervenção espetaculosa das Forças Armadas. Somente em abril, os registros de letalidade violenta em todo o estado cresceram 9,8% atingindo a marca de 592 casos, contra 539 registrados no mesmo período do ano passado. Para quem comanda essa barbárie, quanto maior a pilha de corpos, maior o sucesso da ação.

Dinho Moreira
Exército atua em operação de guerra contra o povo no Morro dos Macacos, 06/2018; em um único dia de maio oito pessoas foram mortas pelas polícias em diferentes favelas
Exército atua em operação de guerra contra o povo no Morro dos Macacos, 06/2018;
em um único dia de maio oito pessoas foram mortas pelas polícias em diferentes favelas

De acordo com os números do aplicativo Fogo Cruzado, nos primeiros três meses de intervenção militar no Rio de Janeiro foram registrados 2.309 tiroteios ou disparos de arma de fogo na Região Metropolitana. Um crescimento de 86% se comparado ao mesmo período do ano passado, quando o aplicativo registrou 1.239 notificações. Na grande maioria dos casos, os tiroteios acontecem em bairros pobres, favelas e, muitas vezes, terminam com pessoas mortas e feridas.

Em um único dia, 19 de maio, as Polícias Civil e Militar, com o apoio do exército, mataram oito pessoas após operações em diferentes favelas, como noticiamos em AND 209.

No dia 30 de maio, ao menos quatro pessoas foram mortas em operação do batalhão de operações especiais da Polícia Militar  (PM) na Favela do Caju, zona portuária do Rio de Janeiro. Segundo informações da própria assessoria de imprensa da PM, a ação foi uma resposta à disputa entre facções do tráfico varejista de drogas que aconteceu no Caju na manhã do mesmo dia. No entanto, os moradores, já assolados por um conflito entre gangues, foram os maiores castigados pela ação da PM. Pelas redes sociais, relatos de pessoas que vivem na região davam conta de toda ordem de violações cometidas por policiais contra a população.

“Eu moro na Avenida Brasil e meu filho sempre vai no Caju entregar quentinha. O policial do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) jogou as marmitas no chão e agrediu meu filho perguntando sobre o traficante. O coitado nem mora lá e foi humilhado, como se fosse um bicho.”, disse uma senhora no grupo “Sou do Caju”, em uma rede social.

No dia 2 de junho, duas pessoas morreram após ação de policiais do 12º Batalhão da PM na favela Peixe Galo, no bairro de Jurujuba, em Niterói. A operação começou pela manhã e levou pânico aos moradores da região. Policiais chegaram à favela pela área conhecida como Travessa Percílio atirando para todos os lados e ferindo ao menos cinco pessoas. Os feridos foram socorridos no Hospital Estadual Azevedo Lima, no Fonseca. Dois deles, com ferimentos leves, foram liberados no mesmo dia e outras três pessoas seguem internadas. Uma delas em estado grave.

Em 5 de junho foi a vez das favelas Parada de Lucas, Vigário Geral e Cidade Alta, na zona norte da cidade, serem atacadas pelas tropas do velho Estado. Foram seis horas de operação, que começaram antes mesmo do dia clarear. Policiais do 16º Batalhão da PM começaram a ação simultaneamente com o apoio do Bope e do Batalhão de Choque. Em Parada de Lucas, moradores ficaram trancados em casa durante todo esse período por conta do intenso tiroteio e quem já havia saído para trabalhar ficou no meio do fogo cruzado.

No dia seguinte (6), várias favelas da Baixada Fluminense foram invadidas em uma operação conjunta da 54ªDP e cerca de 90 equipes da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat), Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC), Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) e Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM). Foram atacadas as favelas Gogó da Ema, Guacha, São Leopoldo e Morro do Machado. Em todas elas houve intenso tiroteio e, por um aplicativo de mensagens, moradores relataram ter suas casas invadidas e reviradas por policiais.

Dinho Moreira
Exército atua em operação de guerra contra o povo no Morro dos Macacos, 06/2018; em um único dia de maio oito pessoas foram mortas pelas polícias em diferentes favelas
Exército atua em operação de guerra contra o povo no Morro dos Macacos, 06/2018;
em um único dia de maio oito pessoas foram mortas pelas polícias em diferentes favelas

“Eu cheguei em casa e encontrei minha porta arrombada e tudo revirado. Nós somos uma família de trabalhadores, na nossa casa moram oito pessoas e duas crianças. Todo mundo sai cedo para trabalhar e não é justo a gente ser tratado como criminoso, ter nossas coisas destruídas, tudo comprado com muito custo. Não foi só na nossa casa que fizeram isso. Vários vizinhos passaram pelo mesmo esculacho. Eles vêm aqui, atiram para tudo que é lado, os bandidos fogem e a gente é que vira bucha da polícia. Isso é porque a gente é pobre.”, afirma a auxiliar de serviços gerais, Marília de Souza, de 53 anos, moradora da favela Gogó da Ema, em Belford Roxo.

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