Energia para lutar

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Por que foi tão significativo o apoio popular à greve dos caminhoneiros?

Muito tem sido escrito e dito sobre o significado da histórica greve dos caminhoneiros. O fato objetivo é que se falou demasiadamente, nos últimos anos, em greve geral contra o governo de Temer e, agora, quando a oportunidade de fazê-la apareceu, nenhuma das centrais sindicais pelegas deu o ar da graça. Ao invés de enfrentar a luta real, cheia de contradições e interesses divergentes (não pode ser de outro modo!), muita gente que se pretende de esquerda preferiu elucubrar sobre a natureza supostamente “conservadora” do movimento, (enquanto espera pacificamente a chegada das eleições), talvez sem perceber que esta atitude é a melhor ajuda que se pode dar à extrema-direita. Provavelmente a única exceção tenha sido AND, que tratou a fundo do tema no editorial da última edição. 

Banco de dados AND
Greve nacional dos caminhoneiros sacudiu o país e ganhou apoio popular. Rio de Janeiro, maio de 2018
Greve nacional dos caminhoneiros sacudiu o país e ganhou apoio popular. Rio de Janeiro, maio de 2018

Creio que, para entrarmos com segurança nesta questão, é preciso fazer as perguntas certas. Sobretudo, estas: contra quais interesses as reivindicações dos caminhoneiros chocaram-se? De que lado da contenda estavam os monopólios? Por que tamanha adesão popular ao movimento?

Lênin nos recomendava julgar os movimentos políticos pelos seus atos, e não pelo que dizem de si mesmos. Creio que este é o fio que devemos agarrar para compreender esta história. Impõe-se, de cara, uma constatação: se olharmos as condições concretas de trabalho desses caminhoneiros, veremos que as suas reivindicações são justas. Tanto a greve não era patronal (um locaute clássico) que, após a primeira rodada de negociações, com direito à ampla publicidade no monopólio de imprensa, a categoria simplesmente rejeitou o suposto acordo de cúpula firmado entre seus “representantes” e o governo federal. Mesmo a aplicação de multas e a ameaça de repressão militar não dobrou o movimento, que de fato só cedeu quando pautas evidentemente caras aos autônomos, como a questão dos pedágios, o preço do diesel e uma tabela de fretes foram alcançadas.

O frete barato, garantido às custas do trabalho não pago dos caminhoneiros, é uma forma de contemplar tanto os interesses do latifúndio exportador, numa ponta, como das grandes redes de distribuição (por exemplo, os supermercados), na outra, estes sim, grandes monopólios profundamente enquistados no aparato estatal. Também deve ser lembrado que a dita política de preços da Petrobras, considerada “intocável” por Temer e Rede Globo (convergem nesta questão), escancara o que todos já sabem: esta empresa é, atualmente, mero tentáculo do monopólio internacional do petróleo, propriedade de um punhado de financistas que exigem que os seus superlucros sejam defendidos, ainda que o País, exaurido por anos de recessão, não possa suportar os aumentos diários do preço do óleo. 

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Portanto, recapitulando, ainda que politicamente um setor expressivo dentre os caminhoneiros tenha manifestado posições políticas direitistas, o fato concreto é que eles levantaram reivindicações justas, que mexeram com interesses poderosíssimos desta república de bananas e de vampiros. Ora, Pedro Parente resistiu a uma semana de desabastecimento, e só caiu quando ficou claro que era Temer ou ele! Não é culpa da categoria que o governo retalie a população descontando o preço do diesel sobre as áreas como saúde e educação: é preciso, então, que a revolta popular ganhe as ruas, como acabou de fazer nas estradas.

‘Não foi só o combustível’

Evidentemente que são muitas as diferenças entre este movimento dos caminhoneiros e aquele que eclodiu em junho de 2013. A base social diretamente mobilizada, a forma de luta empregada e as ideias e pautas levantadas marcam bem as distinções. Mas há semelhanças importantes, que não podem passar despercebidas: o seu caráter espontâneo, o fracasso da tática criminalizante do governo associado ao monopólio dos meios de comunicação e, principalmente, o apoio massivo da população, que ultrapassou em muito a reivindicação específica erguida no começo dos protestos (“não é apenas por vinte centavos”, este foi um dos bordões mais vistos nas ruas há cinco anos atrás).

O constante aumento do preço do petróleo e derivados golpeia, em cheio, sobretudo os mais pobres. Este é o caso do gás de cozinha. Em depoimento ao El Pais, durante o auge da greve, a cozinheira Vera Lúcia declarou, enquanto fazia comida para o pessoal do piquete: “Estou aqui apoiando a greve porque não tenho mais gás para trabalhar. O botijão está custando 150 reais, é impossível comprar”. Na mesma reportagem, a costureira Idaiara explicou assim seu apoio: “A semana está parada, mas é por uma boa causa. Faz muitos anos que temos prejuízos, não é por causa dos caminhoneiros”1.  

Na verdade, a greve funcionou como um catalisador de diversas insatisfações populares, muitas delas vindas de setores tão pauperizados e divididos pelo desemprego que têm sido persistentemente mantidos à margem do processo político. Este é o caso da cozinheira Vera Lúcia e da costureira Idaiara, elas próprias “autônomas”, expressão nua e crua do que é o capitalismo selvagem do século XXI. O autônomo é, em 99% dos casos, alguém muito mais próximo da fome e das condições mais precárias de trabalho e de vida do que de tornar-se um burguês, mesmo que raciocine frequentemente como um proprietário. Não entender isso é não entender absolutamente nada do que seja organizar a luta popular nos dias de hoje.

De fato, não é possível separar o amplo apoio com que contaram os caminhoneiros dos alarmantes dados divulgados recentemente pelo IBGE, por exemplo, de que aumentou o uso de fogão a lenha no Brasil, simplesmente porque as pessoas não têm dinheiro para pagar pelo botijão de gás2. O retorno a este método tem provocado aumento do número de vítimas de queimaduras ingressando nos hospitais, e no futuro significará mais mortes em decorrência de problemas respiratórios3.  

Portanto, a única forma de disputar seriamente os rumos do País e, no limite, barrar o golpe militar em marcha é apostar na mobilização crescente dos trabalhadores, sobretudo das suas camadas mais profundas – o “povo do abismo”, segundo dizia o literato socialista Jack London. Estes seres pisoteados, massacrados e embrutecidos pela exploração mais encarniçada não virão para a luta com um programa político completo formulado em suas cabeças. É preciso conhecer seus interesses, o que os move, e ter claro que as velhas táticas de luta pacífica e parlamentar não respondem às suas expectativas. E, finalmente: o que faria o Exército no dia seguinte a um golpe senão seguir aplicando (e ainda mais desapiedadamente) o diktat do capital financeiro, responsável por todos os males que nos assolam? É preciso dizer isso com todas as letras, enquanto se apoia e participa decididamente da luta de classes. 


Notas:

1. Link disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/29/politica/1527550010_174130.html

2.  Ver: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/04/com-alta-do-gas-12-mi-domicilios-apelaram-a-lenha-ou-carvao-em-2017.shtml

3. “A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o fogão a lenha o fator ambiental responsável pelo maior número de mortes, no mundo inteiro. Morre mais gente como consequência desse tipo de poluição doméstica do que de malária (causadora de 800 mil mortes/ano). Mulheres e crianças que vivem em pobreza extrema correm risco mais alto, porque ficam mais expostas – os homens tendem a passar menos tempo em casa”. Drauzio Varella, link em: https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/fogao-a-lenha/

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