Espécie em extinção

O cotidiano do trabalhador em meio ao desemprego

Estava sentado na sala de um amigo, tomando um café, quando tocou a campainha. Aberta a porta, surgiu um senhor alto, corpulento, vestindo uma camisa do Madureira Futebol Clube.

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Fila de desempregados, Centro do Rio de Janeiro (RJ), 2016
Fila de desempregados, Centro do Rio de Janeiro (RJ), 2016

— Este é o porteiro, seu fulano de tal — fui apresentado. Antes que eu terminasse de estender a mão, o homem já foi emendando:

— Porteiro, não. Ex-porteiro. Acabei de ser demitido.

Apesar da postura digna, notei um fio de amargura na sua voz, o olhar vagamente entristecido. Tudo sutil, mas muito palpável. Antes de se despedir, ele ainda falou:

— Fazer o quê? Agora vou abrir o meu próprio negócio.

Em meio à recessão, aquele trabalhador calejado, do alto dos seus prováveis cinquenta e poucos anos, nem cogita conseguir outro emprego de nível semelhante. A abertura do “negócio próprio” – há alguns anos idealizada como sinal de crescimento pessoal e profissional (não significa que fosse sempre isso, de fato) – surgiu na sua boca como uma fatalidade na luta pela sobrevivência em tempos de desemprego epidêmico.

Por conta (e risco) própria

Dados divulgados recentemente pelo IBGE, referentes a 2017, demonstram que, pela primeira vez desde que existe entre nós a legislação trabalhista, o número de ocupados por conta própria e sem carteira assinada ultrapassa, em termos absolutos, o número de empregados com carteira assinada. Esta explosão da informalidade, chamada por alguns autores de “uberização”, parece ter se convertido na nova regra da exploração da força de trabalho, e não um mero complemento ou refúgio temporário nas épocas de crise. (A propósito, se pensarmos na recente greve dos caminhoneiros, categoria na qual 40% dos profissionais são autônomos, é possível compreendê-los – guardadas as devidas diferenças e proporções – como “uberes” gigantes, que recebem abaixo do mínimo necessário para repor sua força de trabalho).

Uma companheira da luta, outro dia, me falou:

— Vou embora do Rio.

— Por quê? — espantei-me. — Você não passou no concurso do estado?

Notem: ela é professora de artes, mas por mais que procure não consegue vaga de emprego na sua área. Seu último trabalho foi como operadora de telemarketing, mas foi demitida há mais de seis meses e já não tem mais nenhuma parcela a receber do seguro desemprego. Ela me respondeu:

— Passei, mas até agora não chamaram. Parece que eles vão abrir um outro edital para chamar por contrato temporário, pode?

Poder, sinceramente, não sei se pode, mas “eles” fazem mesmo assim. Quem são “eles”? Ora, muito simples: aqueles que mandam no Estado, aqueles a quem o Estado serve. “Eles” são os mesmos que asseguraram, celeremente, um bilhão de reais para custear a infame intervenção militar no Rio (o general interventor pedira o triplo), mas não se sensibilizaram um pouco sequer com as imagens de servidores da ativa e aposentados passando fome, enquanto o dinheiro para quitar os seus salários era arrestado pela União a fim de pagar débitos do estado com o Tesouro. “Eles”, por enquanto, podem quase tudo.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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