Terror estatal aprofunda guerra contra o povo

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Como se tem noticiado com frequência em matérias de AND, a população que mais sofre com o acirramento feroz da guerra civil reacionária perpetrada pelo velho Estado no Rio de Janeiro são as massas empobrecidas, na maioria negras, oriundas das favelas e de regiões periféricas. Com o decreto da intervenção militar no estado, imposto pelo comando das Forças Armadas e assinado pelo governo ilegítimo de Michel Temer/PMDB, em fevereiro deste ano, essa situação chegou a níveis catastróficos, ainda mais inadmissíveis.

Banco de dados AND

"Caveirões voadores" sobrevoam a favela da Maré, 20/06

As polícias – inclusive as Forças Armadas, que hoje dirigem todos os aparatos repressivos no estado – aplicam uma política terrorista, que consiste em promover grandes operações que visam assassinar moradores de favelas, em odiosas chacinas. Sempre que são mortos policiais em suas brigas com os grupos delinquentes, o nível de violência e aparato militar empregados conseguem ser ainda mais bárbaros do que de costume.

Essa política, forjada com o apoio do monopólio de imprensa com o palavreado de “guerra às drogas”, não poupa sequer crianças, que são alvos corriqueiros dessas operações terroristas. O fato de serem negras na imensa maioria dos casos escancara o racismo dessas corporações, e como a pobreza está vinculada à questão racial em nosso país.

A constatação de consecutivos assassinatos de crianças e jovens, uniformizados, a caminho ou mesmo dentro de colégios – como o caso de Maria Eduarda, estudante de 13 anos, alvejada com dois tiros no crânio na quadra da escola em que estudava, na favela de Acari, zona norte do Rio, em março do ano passado – é uma das provas de que essa política é uma regra, e não exceção. As formas de violência são inúmeras, e desembocam em estatísticas alarmantes relacionadas ao número de mortos pela Polícia Militar – como noticiamos na Editoria Especial da edição anterior –, e também na completa ineficiência de políticas públicas, que só se fazem presente na forma de agentes da repressão e em última instância, quando não assassinam, superlotam ainda mais o já apodrecido sistema penitenciário.

É regra e não exceção

Segundo dados do aplicativo “Fogo Cruzado”, baseados em informações fornecidas pelos próprios moradores de cada região, nos primeiros dez dias de comando das FF.AA. ao menos 47 mortes violentas ocorreram e 250 tiroteios ou disparos com armas de fogo foram registrados na região metropolitana do Rio. Nos dez dias anteriores à entrada das tropas, 206 tiroteios ou disparos e 36 mortes haviam sido registradas.

No mês seguinte em que as Forças Armadas começaram a comandar a política de segurança pública, oito homens foram assassinados em operação durante um baile funk na Rocinha. Segundo relatam os moradores ao monopólio de imprensa, policiais do Batalhão de Choque (BPChoque) chegaram atirando: “A polícia chegou quebrando tudo. Atiraram na direção de quem estava na festa do LC (DJ) e também em quem correu quando ouviu os tiros. Há menos de uma semana, ouvi os PMs conversando que não queriam levar ninguém preso da Rocinha. Queriam era sair com corpos. Foi exatamente o que fizeram”, relatou uma moradora da parte alta da favela1.

Ellan Lustosa/AND
Operação das Forças Armadas na Vila Kennedy, Rio de Janeiro, 23/02 (foto: Ellan Lustosa/AND)
Operação das Forças Armadas na Vila Kennedy, Rio de Janeiro, 23/02

Esse relato tanto corresponde com a realidade que em oito dias, 12 pessoas foram assassinadas, contando com essa chacina do baile funk. Em outra ocasião, morreu Davidson Farias de Sousa,  de 28 anos, ao ser baleado na varanda de casa, enquanto estava com o seu filho ainda bebê no colo. Ele chegou a ser socorrido na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mas não resistiu aos ferimentos.

Em abril, quatro pessoas foram mortas e outras três ficaram feridas na chacina da Cidade de Deus, favela da zona oeste, em resposta ao  assassinato do capitão da PM Stefan Contreiras, de 36 anos. Em mensagens divulgadas do comandante do 18º BPM, Marcos Neto, à tropa: “Quero pedir a todos vocês que se empenhem ao máximo, buscando quem quer que seja, em qualquer buraco, viela, casa, seja lá onde for, os assassinos do Contreiras. A guerra será sem trégua. Enquanto não forem pegos, eu não descansarei”. Nessa onda já sabemos quem mais costuma se afogar, não importa se é um morador que está tentando estudar ou pegar o ônibus lotado para o trabalho às cinco da manhã, mas provavelmente sua pele é negra e ele mora na favela desde que nasceu. Seu cantor de rap favorito não é levado em consideração, tampouco seus sonhos de menino ou menina, para quem sabe um dia conseguir deitar a cabeça no travesseiro com a certeza do almoço e janta garantidos no dia seguinte para toda a família.

15 crianças baleadas esse ano

Em dados divulgados também pelo aplicativo “Fogo Cruzado”, neste ano (até maio) ao menos 15 crianças foram baleadas, sendo que quatro delas vieram a óbito. Alguns casos ocorreram nos municípios de São Gonçalo (2), Duque de Caxias (1), Belford Roxo (1) e Itaboraí (1). Outros, nos municípios do Rio, nos bairros do Cosme Velho (1), morro do Quieto, no Engenho Novo (2), Cavalcante (1), Complexo do Alemão (1), Praça Seca (1). Os que levaram as crianças à morte ocorreram em Anchieta (1), na Zona Norte do Rio; no Pavão-Pavãozinho (1), na Zona Sul; e também no Complexo do Alemão (1) e no município de Mangaratiba (1).

Entre casos de assalto à mão armada, que comprovam também a falência da intervenção federal, estão o de supostos confrontos entre policiais e traficantes, que mesmo que seja uma versão verdadeira em determinados casos, envolve toda uma comunidade, quando não com o assassinato de quem não tem nada a ver com o fato, com o cancelamento de aulas nas escolas, com a invasão de casas durante as chamadas “tróias”2, um verdadeiro terror instaurado contra as massas empobrecidas, que não possuem, em última instância, os mais básicos direitos garantidos.


Notas:

1. Leia mais em: http://www.jb.com.br/rio/noticias/2018/03/25/rocinha-de-luto-por-oito-mortos/

2. Tróia: Prática corriqueira de policiais em favelas que invadem a casa de moradores para se esconderem e surpreenderem supostos bandidos após o fim de uma operação.

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