‘Mãe, eu sei quem atirou em mim. Foi o blindado’

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O dia 20 de junho de 2018 ficará marcado na memória de 150 mil moradores que dividem os 4,5 mil quilômetros quadrados onde estão localizadas as 17 favelas do Complexo da Maré, na zona norte do Rio. O sol ainda começava a raiar quando centenas de policiais civis e soldados do Exército, sob o comando da intervenção militar, invadiram a Maré utilizando tanques e helicópteros blindados que disparavam sem levar em conta a impressionante densidade populacional do conjunto de favelas construído sobre aterros em mangues às margens da Baía de Guanabara. Era o anúncio de mais um banho de sangue pelas mãos do velho Estado.

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Marcos Vinicius, 14 anos, assassinado pela PM a caminho da escola

O menino Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, saiu de casa antes da operação começar em direção ao Centro Integrado de Educação Pública (Ciep) Operário Vicente Mariano, onde cursava o sétimo ano. Acompanhado de um amigo, no meio do caminho, os jovens se depararam com um blindado da Polícia Civil, conhecido como “caveirão”. Segundo depoimento do amigo de Marcos Vinícius na delegacia de homicídios da capital, os dois permaneceram estáticos, o que não foi suficiente para frear a ação dos agentes a bordo dessa verdadeira máquina de matar pobres.

Baleado na barriga, Marcos Vinícius foi levado às pressas ao Hospital Getúlio Vargas por uma ambulância, que quase não conseguiu chegar ao local, pois foi parada em uma barreira policial. Segundo testemunhas, os policiais que balearam o menino nem mesmo desembarcaram do blindado após o crime.

“A ambulância demorou uma hora para chegar porque os policiais mandaram ela voltar para a Avenida Brasil. Aí veio uma ordem superior mandando ela entrar. Nesse momento, meu filho já estava roxo, pálido, gelado. O beicinho dele já estava inchado. Ele estava falecendo ali na minha frente.”, disse a mãe de Marcos Vinícius, a auxiliar de serviços gerais Bruna Silva, a veículos do monopólio da imprensa.

O jovem chegou a ser submetido a uma cirurgia para a retirada do baço, mas não resistiu e faleceu horas depois. Funcionários e diretores das escolas da região disseram que o secretário municipal de educação, Cesar Benjamin, chegou a ser notificado pela secretaria de segurança sobre a operação, mas já era tarde demais. Milhares de crianças já tinham deixado suas casas para ir à escola.

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Marcos Vinicius, 14 anos, assassinado pela PM a caminho da escola
Marcos Vinicius, 14 anos, assassinado pela PM a caminho da escola

— Cerca de 500 pessoas estavam na escola no momento do tiroteio. Na hora, nós seguimos o protocolo e tiramos todas as crianças do pátio e as levamos para o lado oposto ao do confronto. Mesmo assim, uma aluna foi ferida por estilhaços. Nós vivemos um inferno durante horas — conta Edmilson Severino de Souza, diretor do Ciep Operário Vicente Mariano.

— Existe inclusive um aplicativo em que as unidades de polícia podem notificar a Secretaria Municipal de Educação sobre confrontos, mas nós não tivemos tempo de cancelar as aulas porque não ficamos sabendo da operação com antecedência e as operações sempre acontecem em horários de entrada e saída dos estudantes — lamenta Fátima Barros, coordenadora da 4ª Coordenadorias Regionais de Educação (CRE).

Os depoimentos de Fátima e Edmilson revelam que o assassinato de Marcos Vinícius foi um crime de responsabilidade não somente dos policiais que o executaram, mas do velho Estado e seus governos, que todos os dias mandam tropas de assassinos às favelas para cruzarem de surpresa o caminho de milhares de crianças e trabalhadores, espalhando terror, sangue e morte.

— Ele [Marcos Vinicius] disse: “Mãe, eu sei quem atirou em mim, eu vi quem atirou em mim. Foi o blindado, mãe. Ele não me viu com a roupa de escola?”. A culpa é desse Estado doente que está matando as nossas crianças com roupa de escola. Estão segurando mochila e caderno, não é arma, não é faca — protesta a mãe do jovem segurando o uniforme do filho manchado de sangue no dia de seu velório. Marcos Vinícius foi sepultado no Cemitério São João Batista, no dia 22.


Operação mata seis pessoas e moradores se rebelam

Após a operação no Complexo da Maré, moradores inundaram as redes sociais com imagens das marcas deixadas pelos veículos e aeronaves blindados da polícia nas favelas da Vila dos Pinheiros e Vila do João. No chão e nos telhados das casas, eram notáveis os buracos feitos pelos disparos efetuados com armas de guerra de dentro do helicóptero da Polícia Civil. Já as paredes das casas encontravam-se dilaceradas pelos tiros de grosso calibre disparados por policiais a bordo do caveirão. Um cenário que revela a barbárie e o desespero vivido por moradores durante a ação das tropas do velho Estado.

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Além de Marcos Vinícius, outras seis pessoas foram mortas e três feridas, entre elas uma criança dentro do Ciep Operário Vicente Mariano e um mototaxista, que chegou a ser filmado por moradores no momento em que era socorrido por um colega de trabalho.

Os outros mortos permanecem sem identificação. No entanto, o monopólio dos meios de comunicação prontamente os tratou como “suspeitos” em seus noticiários, fazendo coro com os assassinos de Marcos Vinícius. Segundo moradores, todos estavam em uma casa quando foram rendidos e executados por policiais. Os corpos teriam sido jogados pela janela do imóvel, colocados em uma viatura e levados para o Hospital Geral de Bonsucesso.

Na noite do mesmo dia, após a notícia da morte de Marcos Vinicius, moradores da Vila dos Pinheiros e da Vila do João, revoltados, bloquearam a avenida Brasil, a Linha Vermelha e Linha Amarela, três das principais vias expressas do Rio de Janeiro. Na Linha Amarela, manifestantes ergueram barricadas e enfrentaram a polícia, que respondeu com bombas de gás e até tiros de munição letal. Um ônibus e um carro da PM foram incendiados pelas massas em sua justa rebelião contra mais esse episódio da guerra civil reacionária.

No dia do enterro de Marcos Vinícius, mais protestos. Acompanhados por professores, estudantes do Ciep Operário Vicente Mariano saíram da escola com cartazes em direção ao ponto de ônibus de onde partiu o transporte para o cemitério. No caminho, foram abordados por policiais.

— Eles chegaram mascarados e cercaram a gente apontando os fuzis. Ficaram xingando a gente, mandando a gente calar a “porra da boca”. Nos agrediram verbalmente e depois um deles deu uma paulada em uma das meninas. O sentimento de hoje foi de vazio, de raiva — lamenta Roberta Santos, professora de matemática de Marcos Vinícius.

— Quem dá aula em comunidade perde vários alunos. Já perdi uns cinco ou seis.  A Maré já provou que nem sendo vereador você consegue ficar vivo — diz o professor de teatro João Duarte, que tem vasta experiência atuando em áreas de conflito.

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