Chacinas crescem em cinco meses de intervenção militar

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Em São Gonçalo, Exército fuzila carro de morador com família dentro

Em cinco meses de intervenção militar, com todo o aparato de repressão nas mãos das Forças Armadas, a ocorrência de chacinas cresceu em 80% e as mortes oriundas de ação policial subiram em 128%. Estes dados estarrecedores foram divulgados pelo relatório do Observatório da Intervenção – iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes –, no dia 16 de julho.

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Policiais militares em operação conjunta com outras forças repressivas nas favela do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, em 20 de junho de 2018
Policiais militares em operação conjunta com outras forças repressivas nas favela do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, em 20 de junho de 2018

Foram 28 ações do velho Estado que resultaram em chacinas (ações com três ou mais mortes); nestas ações, ao todo, somam-se 119 óbitos. Nos cinco meses correspondentes de 2017, foram 15 chacinas e 52 mortes. Os tiroteios cresceram 37%, saltando de 2.294 para 4.005 casos, segundo o aplicativo “Onde Tem Tiroteio” (OTT). Como se não fosse o bastante, o relatório aponta um salto em outro índice, talvez o mais assustador: o número de crianças baleadas em ações militares. Somente neste período de cinco meses, dez crianças foram atingidas e duas delas morreram.

As ações de dimensões faraônicas e mobilização de milhões de reais em recursos dos cofres públicos na maioria dos casos têm resultados catastróficos. Apesar dessas operações, o número de armas de grosso calibre apreendidas, como fuzis e metralhadoras, caiu mais de 36% comparado com o ano passado. “Apesar de anúncios diários de operações com milhares de militares e policiais, os resultados são pífios”, expõe o relatório.

A redução no número de apreensões deste tipo de armamento demonstra o completo fracasso da intervenção militar no objetivo que diz perseguir. Pior que o resultado nas apreensões, é o fato de que o resultado desta violência recai sobre o povo.

Entre a noite de 15 de julho e a tarde do dia seguinte, as Forças Armadas realizaram uma dessas megaoperações nas favelas do Salgueiro e Jardim Catarina, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio. A ação envolveu nada mais, nada menos que 4,3 mil militares, 120 PMs e 80 policiais civis. Um pescador que prefere não se identificar diz que seu carro foi metralhado por militares. Ele foi atendido no Hospital Estadual Alberto Torres durante a madrugada do dia 16 e recebeu alta na manhã do dia seguinte.

“Eu estava com uma gaiola de passarinho no carro. O bebedouro da gaiola estava molhando, e eu fui jogar a água fora. Eu parei o carro, e nisso que eu joguei a água e fechei o vidro, eu escutei o primeiro tiro. Eu pensei que fosse bandido, mas não era bandido. Era o pessoal do Exército. Eles atiraram sem parar e eu gritava ‘morador, morador’. Minha esposa conseguiu sair do carro para se abrigar, mas eu já estava baleado”, denuncia o pescador, e completa: “Quando eles escutaram o barulho do meu filho chorando, aí que eles pararam. Se não eles não iam parar. Eles atiraram para matar.”, disse o pescador.

Além dessa, outras operações levaram terror às favelas do Rio no mesmo período. Em mais uma ação desastrosa de agentes do velho Estado, no dia 20 de junho, membros da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em conjunto com o Grupamento de Intervenções Táticas (GIT) da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) fizeram uma operação nos morros Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, zona sul do Rio, sem um objetivo anunciado. Na ação, um homem foi morto e outras quatro pessoas foram baleadas. No dia 3 de julho, em outra operação, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) matou um homem e feriu outras duas pessoas no Morro do Jordão, zona oeste da cidade.

No dia 16 de julho, após uma operação do Bope no Complexo do Alemão, moradores relataram em comissões de direitos humanos todo tipo de violações cometidas pelos agentes. A maioria das denúncias davam conta de pessoas que tiveram seus telefones celulares furtados ou danificados pelos policiais. Além disso, muitos moradores tiveram suas casas arrombadas e outros foram agredidos.

Polícia Civil vê como ‘exitosa’ chacina no Complexo da Maré

No dia 7 de julho, foi entregue à Defensoria Pública e ao Ministério Público Estadual um relatório elaborado pela Polícia Civil referente à operação que aconteceu no Complexo da Maré no dia 20 de junho, que acabou com sete pessoas assassinadas, entre elas o menino Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos. No documento, policiais civis classificaram como “exitosa” a operação, desconsiderando o terror despejado contra moradores pelas tropas do Estado e, em especial, a letalidade da ação.

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“A integração entre os departamentos da Polícia Civil, com o apoio logístico e operacional das forças armadas, possibilitou grande êxito, tendo sido apreendida farta quantidade de material entorpecente.”, diz o documento, que menciona somente em um pequeno trecho o fato de uma criança ter sido assassinada por tiros disparados de um dos veículos blindados da polícia.

“Apenas quando as equipes retornaram à Cidade da Polícia é que se tomou conhecimento de que havia uma pessoa baleada e já socorrida no hospital. Porém, sem mais informações sobre o estado de saúde, bem como conhecimento das circunstâncias de como se deu o fato.”, diz o relatório, menosprezando o enorme volume de dados e notícias divulgados pela imprensa sobre as circunstâncias em que Marcos Vinícius foi atingido e até mesmo o nome do garoto.

— Nunca que uma operação que termina com sete mortos, incluindo uma criança a caminho da escola, pode ser considerada exitosa. Inclusive, se for para analisarmos os aspectos técnicos, a operação tinha o objetivo de cumprir 23 mandados de prisão e nenhum deles foi cumprido. Como pode ser considerada exitosa uma ação que desconsidera completamente a vida e a dignidade dos moradores? O que exigimos é que as aeronaves da polícia não sejam usadas como plataforma de tiro e as explicações que exigimos sobre as denúncias de moradores de tiros disparados de dentro do helicóptero também foram omitidas do relatório. Não precisa ser especialista para saber que uma aeronave dando voos rasantes em alta velocidade disparando tiros de grosso calibre contra uma região densamente povoada representa um enorme risco às pessoas que vivem ali — diz o defensor público do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, Daniel Lozoya.

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