Som diversificado com letras questionadoras

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Com 16 anos de estrada, composições mergulhadas em vários gêneros e tradições, e letras que revelam engajamento social, a banda carioca El Efecto tem em seu perfil a marca do rock e a utilização da viola caipira, cavaquinho, flauta, clarinete, trompete, enfim, um desvínculo de rótulos. Lançando o quinto CD denominado Memórias do fogo, a banda experimenta um momento de grande entusiasmo e maior desejo de seguir em frente.

Iuri Gouvêa
El Efecto no Rio de Janeiro (RJ), 2018 (foto: Iuri Gouvêa)
El Efecto no Rio de Janeiro (RJ), 2018

— Desde o princípio nosso objetivo foi criar uma banda que pudesse ser um espaço libertário, tanto no sentido político quanto musical e poético, um espaço para conciliar essas duas coisas e colocar uma a serviço da outra, e assim segue até hoje. Pegamos assuntos que importam para nós, enquanto indivíduos e coletivo, e nos fazemos valer do discurso da música, da poesia para sensibilizar, inquietar — fala Tomás Rosati, integrante da banda desde a fundação.

— A arte tem o potencial de nos tirar do nosso lugar, nos fazer romper a marcha do automatismo que o cotidiano nos leva, que o nosso lugar às vezes nos impõe, seja o nosso lugar de classe, de fala, da coisa costumeira, da nossa experiência particular. A arte nos faz conectar com o todo, com a coletividade.

— A música, a poesia, são discursos que têm um potencial forte de ajudar a construir ou destruir a nossa maneira de ver as coisas, remodelar, nos fazer questionar, ter contato com experiências que talvez não teríamos possibilidade de vivenciar no nosso cotidiano. Nos transporta para lugares e tempos diferentes, vivências diferentes, o que é importante para formar o nosso sentido de justiça, solidariedade — continua.

A ideia de impacto está na tradução do nome El Efecto (o impacto/o efeito), porém, sua escolha foi primeiramente por questões sonoras.

— Essas traduções do sentido do espanhol têm a ver conosco, afinal, queremos causar algum efeito, um impacto em quem esteja ouvindo, mas isso foi bem secundário na escolha do nome. Por incrível que pareça, nós pensamos muito mais na sonoridade dessas duas palavras. A escolha foi também pelo fato de ser espanhol, o que de alguma forma nos inscreve em um imaginário latino-americano — explica Tomás Rosati.

— Mas os sentidos das traduções também fazem parte e nós não descartamos, de forma alguma. A ideia é sempre impactar, incomodar, fazer surgir o desejo de combater. Nos valemos desse potencial da arte para colocar em foco temas como a questão política, os debates em torno de injustiça social, as necessidades de transformação da sociedade, tentando fazer com que essas mensagens cheguem até as pessoas — expõe.

Levantando questões importantes

Uma das músicas mais conhecidas da banda, O encontro de Eike Batista com Lampião, é um dos exemplos de letra com engajamento político e social.

— Naquele momento que compomos essa música, 2010/2011, até lançá-la em 2012 [no disco Pedras e Sonhos], o Eike Batista era uma figura meio que onipresente, tanto quanto ridícula e caricatural. Era a encarnação do próprio sistema, da falácia de que a iniciativa privada é a redentora capaz de regular a sociedade — fala Tomás Rosati.

— Era a personificação da lenda do mercado, da iniciativa privada capaz de gerar os avanços necessários, do desenvolvimento que em tese vai gerar melhoria na condição de vida das pessoas, enfim, o próprio mito do sistema, da lógica do capital. Ele era essa figura construída na falsa história de uma pessoa que construiu a própria fortuna do nada — continua.

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