O materialismo dialético e o Big Bang* (Parte final)

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Na China popular, entretanto, Mao Tsetung prolongou a defesa da concepção segundo a qual o Universo é eterno. Ele havia entendido que a questão do mundo “finito” estava no coração do idealismo e, por esta razão, ele se focalizava sobre o caráter infinito da matéria.

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A Grande Revolução Cultural Proletária provocou um grande impulso às ciências na China
A Grande Revolução Cultural Proletária provocou um grande impulso às ciências na China

Durante uma discussão, em 1955, do secretariado do Comitê Central do Partido Comunista da China com um grupo de cientistas, Mao Tsetung formulou seu ponto de vista da seguinte maneira ao físico Qian Sanqiang, que trabalhou na França com Fréderic Joliot-Curie e Irène Joliot-Curie.

Perguntando a Qian Sanqiang sobre a composição do núcleo atômico ele lhe respondeu que havia os prótons e os nêutrons. Mao lhe perguntou então o que os compunha e Qian lhe respondeu que, a este estágio, a ciência não sabia.

Mao Tsetung então explicou:

“Os prótons, os nêutrons e os elétrons também podem ser divididos, porque ‘um se divide em dois’ e tudo é ‘unidade dos contrários’! Nós não podemos provar isto ainda por meios experimentais, mas no futuro, quando tivermos mais possibilidades, seremos capazes de provar que são divisíveis.”.

Esta tese se provou correta. É sabido pelos historiadores das ciências que Mao Tsetung, desde os anos de 1950, insistia sobre o princípio segundo o qual nada é indivisível. Ganhadores do prêmio Nobel de Física, como Sheldon Glashow, Tsung-Dao Lee (em 1979, com 47 anos) e Chen-Ning Yang (em 1957, com 35 anos) salientaram este aspecto essencial.

Cada vez que abordou a questão do movimento da matéria, Mao Tsetung enfatizou a dimensão dialética em todos os níveis. Eis o que ele afirmou, por exemplo, em novembro de 1957, durante a Conferência Internacional dos Partidos Comunistas, reunidos em Moscou, em plena batalha anti-revisionista:

“Vejam os senhores: o próprio átomo encerra todo um complexo de unidades de contrários. Ele é uma unidade de dois contrários: núcleo atômico e elétrons. O núcleo atômico, por sua vez, é uma unidade de contrários: prótons e nêutrons. Visto que existem prótons, há também anti-prótons, e visto que existem nêutrons, há também anti-nêutrons. Em uma palavra, a unidade dos contrários é onipresente. A respeito do conceito da unidade dos contrários, a respeito à dialética, é necessário fazer uma ampla propaganda. Eu diria que a dialética deve sair do cenáculo dos filósofos para chegar às amplas massas populares. Proponho que se aborde este problema nas reuniões dos birôs políticos dos diversos Partidos e nas sessões plenárias de seus Comitês Centrais, assim como nas reuniões de seus comitês locais a todos os níveis. Em realidade, nossos secretários de célula compreendem deveras a dialética. Quando se preparam para fazer um informe numa reunião de célula, costumam deixar escritos em suas livretas os dois aspectos das coisas: primeiro, os acertos e, segundo, as deficiências. Um se divide em dois: este é um fenômeno universal, isto é dialética.”.

Esta batalha para a promoção da divisibilidade da matéria culminou com a Grande Revolução Cultural Proletária. Uma batalha essencial desta perspectiva foi a publicação, em junho de 1965, de um artigo de 12 páginas do físico japonês, Shoichi Sakata, intitulado: Um diálogo a respeito das novas perspectivas sobre as partículas elementares, na revista Bandeira Vermelha, órgão teórico do Comitê Central do Partido Comunista da China.

O artigo continha duas páginas de notas dos editores saudando o trabalho de Shoichi Sakata, além das oito páginas de anotações feitas por cientistas chineses. O artigo inteiro foi publicado novamente pela revista Diário do Povo e pelo Diário de Guangming. Em outubro de 1965, a Bandeira Vermelha publicou seis novos artigos sobre o tema, o dossiê intitulado: As ciências naturais e o materialismo dialético.

Os títulos dos artigos eram os seguintes: As ciências naturais e o materialismo dialético: O exame da falibilidade do idealismo e da metafísica sob o ponto de vista do desenvolvimento da Física moderna(por Zhu Hongyuan); Algumas abordagens sobre a aplicação do materialismo dialético na pesquisa da teoria da estrutura molecular (por Xu Guang Xuan); O materialismo dialético é a arma para explorar a natureza (por Ai Siqi); Estudar os pensamentos de Mao Tsetung, melhorar os métodos da pesquisa científica (por Yu Guangyuan); e Sobre a divisibilidade da matéria (por Gong Yuzhi).

Vejamos como Shoichi Sakata em Física teórica e dialética da natureza, em junho de 1947, resume sua concepção do Universo:

“A ciência atual descobriu que, na natureza, existem dois ‘níveis’ qualitativos diferentes: a forma do movimento, por exemplo, uma série de níveis como partículas elementares – núcleo – átomo – moléculas – massas – corpos celestes – nebulosas.

Esses níveis formam pontos nodais variados que restringem os diferentes modos qualitativos de existência da matéria em geral, embora não sejam simplesmente religados de maneira direta como descrito acima.

Os ‘níveis’ são igualmente conectados em uma direção como moléculas – colóides – células – órgãos – indivíduos – sociedades. Mesmo com massas semelhantes, existem ‘níveis’ de estados correspondentes aos sólidos-líquidos-gás.

Afirmadas de maneira metafórica, essas circunstâncias podem ser descritas como tendo uma espécie de estrutura multidimensional do tipo de um filé de peixe ou, melhor dizendo, que têm uma estrutura do tipo das cebolas, em fases sucessivas. Esses níveis não são em nada isolados mutuamente e independentes, mas são conectados mutuamente e constantemente ‘transformados’ uns nos outros.

Um átomo, por exemplo, é construído a partir das partículas elementares e uma molécula é construída a partir de átomos e, inversamente, pode ser feita a decomposição de uma molécula em átomos, de um átomo em partículas elementares.

Esse tipo de transformação chega constantemente, com a criação de uma nova qualidade e a destruição de outras, nas mudanças incessantes.”.

Mao Tsetung havia conhecido as teses de Shoichi Sakata por meio de uma tradução de um de seus artigos no Boletim de Estudos da Dialética da Natureza, nos fins de 1963. Durante uma reunião em 1964, ele deu destaque a esse boletim e suas palavras foram as seguintes:

Lenin já disse que tudo é divisível. Tomemos o átomo, por exemplo: não apenas o átomo é divisível, mas também o elétron. Todavia, muitas pessoas pensam que o átomo é indivisível. A ciência da divisão do átomo é ainda recente. Nos últimos anos, os cientistas conseguiram dividir o núcleo de um átomo. Há os prótons, os anti-prótons, os nêutrons, os anti-nêutrons, os múons, os anti-múons. São todos pesados e há leves também.

Quanto ao fato de saber se o elétron pode ser separado de seu núcleo, isto já foi resolvido há muito tempo (…). O elétron não foi dividido, mas o será um dia. ‘Pode-se carregar a metade de um martelo medindo um pé durante um dia, mas ele não acabará no fim do dia, nem mesmo depois de dez mil gerações’. Essa é a verdade. Se não acreditam, podem verificar. Se houver um fim, não haverá ciência.

O mundo é infinito. O tempo e o espaço são infinitos. No espaço, por sua vez, o macro e o micro são infinitos. A matéria é infinitamente divisível, é por isto que os cientistas terão sempre trabalho, mesmo após um milhão de anos.”.

Foi também em 1964 que Mao Tsetung encontrou pela primeira vez Shoichi Sakata. Em um debate, no mesmo ano, as suas palavras foram as seguintes:

“Hoje, eu lhes pedi para vir discutir o artigo de Sakata. Sakata disse que as partículas elementares não são indivisíveis e que o elétron também é divisível. Ele se baseou no materialismo dialético (…). O mundo é infinito. Considerando o tempo e o espaço. O mundo é infinito e inesgotável. Além de nosso sistema solar há numerosas estrelas que juntas formam a Via Láctea. Além desta galáxia há numerosas outras galáxias. Considerado globalmente o Universo é infinito, considerado estreitamente, o Universo é igualmente infinito. Não apenas o átomo é divisível, mas também é o caso do núcleo atômico e o mesmo para o elétron.”.

E segue o Presidente Mao:

“Por esta razão, nossa compreensão do mundo é infinita. Sem isto a física não poderia se desenvolver (…). Tudo é conservação e não conservação ao mesmo tempo. As pessoas pensam que a conservação da paridade é uma lei da natureza, porém, mais tarde, os físicos sino-americanos, Tsung-Dao Li e Cheng Ning Yang, descobriram que, pelo menos no campo das interações falhas das partículas elementares, a paridade é não-conservadora. É parecido na conservação da qualidade e da conservação da energia? Não há nada no mundo que seja absolutamente estático (…). A conservação e a não-conservação é o equilíbrio e o desequilíbrio ao mesmo tempo, mas há também casos em que o equilíbrio esteja totalmente quebrado.”.

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