Números revelam uma carnificina do velho Estado nas favelas

A- A A+

O Rio de Janeiro segue registrando recordes no número de pessoas assassinadas pela polícia no primeiro semestre de 2018. Dados contabilizados pela chamada “Comissão Popular da Verdade” (CPV) (a partir do aplicativo Fogo Cruzado e de organizações como o Observatório da Intervenção) revelam crescimentos vertiginosos no número de mortes, oriundas das ações criminosas levadas a cabo pela Polícia Militar (PM), Polícia Civil e pelas Forças Armadas (FF.AA.). Os dados foram publicados como parte do balanço da CPV dos cinco primeiros meses da intervenção militar.

Carl de Souza
Operações policiais da intervenção militar aumentam chacinas no RJ (foto: Carl de Souza)
Operações policiais da intervenção militar aumentam chacinas no RJ

Segundo compilação de dados divulgada no dia 25 de julho pela CPV, foram contabilizados mais de 4 mil tiroteios no estado do Rio de Janeiro, de fevereiro a julho deste ano; isso representa um aumento percentual de 37% se compararmos os números com os cinco meses anteriores. No segundo semestre de 2017, a quantidade de tiroteios no estado foi de 2.924, segundo o aplicativo Fogo Cruzado – sendo que este número foi considerado recorde à época e representava um aumento de 60% se comparado com o primeiro semestre de 2017. No entanto, o número mais assustador se refere à letalidade das ações policiais: nada mais, nada menos que 637 mortos e 526 feridos.

Estes dados mostram que os municípios da Baixada Fluminense foram os mais atacados pelas tropas do velho Estado. Belford Roxo registrou um aumento de 161% nos tiroteios. Mesquita, também na Baixada, teve um aumento ainda maior: 168% se comparado com os números do mesmo período de 2017. Em Belford Roxo o número de mortos cresceu 55% e em Duque de Caxias 67%, na comparação com os cinco meses anteriores à intervenção militar no estado do Rio de Janeiro. Além disso, foram registradas 28 chacinas apenas no período da intervenção, que contabilizaram 119 mortos e dez feridos. Uma verdadeira carnificina.

As mortes comprovadamente oriundas de ações policiais totalizam 507 vítimas, de março a junho. Um aumento percentual de 9% comparando com os números do período anterior à intervenção e 28% a mais que os mesmos meses de 2017. O número de mortes cometidas pela polícia em junho de 2018 comparados ao de junho de 2017 são 59,8% maiores. Segundo o observatório houve uma diminuição de 39% na apreensão de fuzis, metralhadoras e submetralhadoras de fevereiro a maio na comparação com o ano anterior, demonstrando o fracasso da intervenção militar mesmo nos objetivos que projetou publicamente.

— As operações policiais não são mais realizadas em duas horas. Agora são 10 horas, 12 horas, 24 horas de tiroteio. E com o uso cada vez maior de blindados, que são os caveirões [veículos blindados da polícia], e os caveirões aéreos [helicópteros blindados]. Os tiroteios já deixam a gente em pânico, mas o uso dos caveirões deixa a gente mais em pânico ainda. Na penúltima operação na Maré teve o assassinato de uma criança, o Marcus Vinícius, mas também de outras sete pessoas — diz a jornalista Gizele Martins, moradora do Complexo da Maré.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia
o militar leva terror à Vila Kennedy

No dia 15 de julho, quatro pessoas foram baleadas em um confronto durante operação militar da PM na Vila Kennedy (VK). Duas delas deram entrada no Hospital Municipal Pedro II e as outras vítimas foram encaminhadas ao Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, zona norte da cidade. As ações do Exército na favela desde o início da intervenção militar no Rio de Janeiro têm deixado moradores reféns de uma violência generalizada e sem precedentes. Moradores relatam que jamais vivenciaram tamanha barbárie.

Fabiano Rocha
Exército na comunidade Vila Kennedy, 2018 (foto: Fabiano Rocha)
Exército na comunidade Vila Kennedy, 2018

— Um dia o Exército cerca a favela e troca tiro com os traficantes. Aí nós ficamos presos em casa com todo mundo deitado. No outro dia vem uma facção rival e invade a favela e quem está na rua tem que rezar para encontrar um lugar para se esconder dos tiros. Tudo isso em uma semana. Domingo [15 de julho] foi um inferno, tiroteio o dia todo e um monte de gente machucada. Eles [as Forças Armadas] disseram que vieram trazer paz, mas só trouxeram a guerra. Nossa vida já era miserável antes deles virem para cá. Agora a gente não vale nada. Podemos morrer a qualquer momento — diz o aposentado Raimundo Aquino, que tem 72 anos, 49 deles vividos na VK.

No dia 27 de julho, horas depois de uma visita do prefeito Marcelo Crivella à VK, policiais invadiram a comunidade. A comerciante Geovania Balbino foi atingida por três disparos. Socorrida no Hospital Municipal Albert Schweitzer, ela passou por duas cirurgias e, até o momento, seu quadro de saúde é estável. Ali pertinho, na Vila Aliança, em Bangu, um jovem de 26 anos foi baleado no abdômen na noite do dia 27, enquanto policiais do 14º Batalhão da PM cercavam a favela.

— Ninguém percebeu que foi tiro. Ninguém escutou nada. As pessoas só se ligaram que era tiro quando um rapaz começou a gritar e todo mundo se desesperou. A favela estava bem movimentada nessa hora. Ninguém esperava que isso poderia acontecer — diz a dona de casa Rosi Cleide, de 48 anos, sogra do rapaz.

Nos dias seguintes as operações continuaram se multiplicando. Em um único dia, 06/08, policiais fizeram operações em ao menos três favelas. Na Cidade de Deus, zona oeste da capital, policiais do Comando de Operações Especiais (COE) e do Batalhão de Ação com Cães (BAC) ficaram por mais de 12 horas na favela, invadiram casas, revistaram moradores e balearam ao menos uma pessoa. No Complexo do Chapadão, policiais do 9º Batalhão da PM chegaram antes das 6 horas da manhã; moradores ficaram ilhados em suas casas e ao menos 2 mil estudantes tiveram suas aulas impedidas. Além disso, policiais do 12º Batalhão da PM fizeram uma operação no Morro do Estado e PMs da UPP e do Batalhão de Choque aterrorizaram as favelas do Complexo do Alemão durante toda a manhã e a tarde do mesmo dia.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja