Venezuela: USA quer caos nas fronteiras

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A profunda crise de decomposição do capitalismo burocrático na Venezuela ganhou um novo capítulo no dia 4 de agosto, quando Maduro teria sido alvo de um atentado. O presidente da Venezuela fazia um pronunciamento em um evento de aniversário da Guarda Nacional Bolivariana no qual, segundo a versão oficial, dois drones carregados de explosivos foram detonados. Sete militares ficaram feridos.

Ellan Lustosa/AND
Criança venezuelana em campo de refugiados. Roraima, 2018 (foto: Ellan Lustosa/AND)
Criança venezuelana em campo de refugiados. Roraima, 2018

Imediatamente, fontes do governo passaram a denunciar tramas internacionais para matar Maduro, que pessoalmente acusou o ex-presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, de planejar o atentado. A conexão com a Colômbia foi confirmada dias depois, quando o ex-chefe de polícia do município venezuelano de San Diego, Salvatore Lucchese, que está refugiado no país vizinho, admitiu, em declaração a órgãos do monopólio internacional da imprensa, ter orquestrado o atentado junto com um grupo difuso de ativistas anti-Maduro conhecido como “resistência”.

O atentado está servindo de gatilho para o recrudescimento da perseguição política por parte do governo venezuelano, que já lançou uma caça às bruxas. O deputado Juan Requesens, ativo na oposição a Maduro, foi preso junto com sua irmã no dia 8 de agosto, acusado de participar do atentado. Além deles, outras seis pessoas estão detidas, duas delas acusadas de serem os operadores dos drones.

No dia seguinte, a Assembleia Nacional Constituinte, governista, suspendeu a imunidade de Requesens e de Julio Borges, ex-presidente da Assembleia Nacional, o antigo parlamento, de maioria oposicionista.

Seja como for, o atentado contra Maduro aprofunda ainda mais a crise e torna mais iminente a colocação em marcha dos planos do imperialismo ianque para uma agressão à Venezuela, se utilizando das Forças Armadas dos países vizinhos da América do Sul.

No dia 8 de agosto, a embaixadora ianque na ONU, Nikki Haley, em visita a refugiados venezuelanos na Colômbia, classificou o atentado como provocação e tratou de pôr mais lenha na fogueira de uma agressão imperialista à Venezuela. “Em algum momento teremos que lidar com Maduro”, disse Haley, enquanto destacava o papel dos países vizinhos nos planos de invasão: “Chegou a hora de os países da região que sofrem com a imigração (...) condenarem Maduro e dizerem para ele partir. Quando uma região se cala sobre o que faz um dos seus, então a comunidade internacional não se intromete (...), quando condenam, a comunidade internacional escuta.”.

A situação do imigrantes

Outro fator que joga água no moinho dos planos do USA é a situação calamitosa dos milhares de imigrantes que diariamente cruzam as fronteiras do país, principalmente com a Colômbia e o Brasil.

Nos últimos anos parte da população venezuelana tem se dirigido às fronteiras do país com a Colômbia e o Brasil, fugindo da miséria no país natal ou buscando refúgio. No Brasil, a porta de entrada do venezuelanos é a cidade de Pacaraima, no estado de Roraima. Em seguida os imigrantes se dirigem à capital Boa Vista, de onde a maioria pretende ir para Manaus ou outras localidades em busca de seguir a vida.

AND enviou o fotógrafo Ellan Lustosa a Boa Vista/Pacaraima e ele testemunhou a extrema miséria e degradação em que vivem os venezuelanos em Roraima. Encontrou muitas dificuldades no acesso a informações e restrições para registrar imagens livremente por parte de militares do Exército e funcionários da Agência da ONU para Refugiados  (Acnur).

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Há relativa facilidade para ingressar no Brasil. As três barreiras montadas pelo Exército, Polícia Federal e Acnur na estrada que cruza a fronteira deixam passar os que pedem refúgio ou que requisitam a permanência para trabalho ou férias. Quem não se enquadra nessas alternativas acaba ingressando clandestinamente por vias secundárias ou por outras cidades, que não exigem documentos nem fazem nenhum controle. Acredita-se que cerca de 1.000 imigrantes passam as fronteiras brasileiras. Um militar do Exército afirmou que 700 venezuelanos chegam à fronteira diariamente e que 400 conseguem entrar no Brasil.

O Exército se encarrega da construção de campos de refugiados que são sempre insuficientes devido ao grande número de imigrantes que chegam todos os dias. Alguns campos não aceitam solteiros, apenas famílias. Um militar do Exército, comandante de um campo de refugiado próximo de uma igreja em Boa Vista, não permitiu a entrada do repórter de AND nas instalações, se limitando a dizer que as regras para admissão no campo são rígidas e que a verba enviada pela ONU não era suficiente para atender as demandas. Hoje são dez campos em Roraima, todos construídos com verbas de agências da ONU e operados pelo Exército Brasileiro.

Como vivem os imigrantes

Grandes contingentes de venezuelanos vagam pelas ruas, dormem sob marquises ou acampam em praças. Muitos esmolam nos sinais de trânsito, pedem empregos com cartazes, meninas e mulheres se prostituem pelas ruas, em um cenário degradante. A demanda por serviços de saúde, educação e segurança pelos imigrantes sobrecarrega a estrutura do estado e, ao invés de ampliar esses serviços, as gerências estadual e federal fecham os olhos, na prática negando direitos tanto aos roraimenses quanto aos venezuelanos.

Ellan Lustosa/AND
Imigrantes venezuelanos pedem emprego. Roraima, 2018 (foto: Ellan Lustosa/AND)
Imigrantes venezuelanos pedem emprego. Roraima, 2018

— Encontrei pessoas que tinha sua vida como classe média na Venezuela. Moravam, pagavam suas contas. Agora não têm emprego e nem o que comer. Vieram para o Brasil em busca de trabalho para enviar dinheiro para seus familiares que ficaram em seu país de origem. Conseguem comer quando a igreja lhes dá comida. As igrejas têm sido um grande apoio para eles. É quem distribui comida, permite o banho, dá auxílio no geral. Os campos se resumem a quem está lá dentro. O grande número na rua está no total abandono. Por toda a cidade de Boa Vista você se depara com grupos de venezuelanos pedindo dinheiro ou com placas pedindo trabalho. Nos sinais uma grande concentração limpando vidros de carro ou tentando vender algo. Nas barracas onde fiquei e conversei com vários venezuelanos o que me chamou a atenção é que a maioria tinha profissão e emprego na Venezuela, não eram pobres coitados. Ao serem perguntados se não era melhor ficarem na Venezuela onde ainda tinham casa e família a grande maioria me respondeu que preferem tentar no Brasil, pois em seu país não há comida e nem emprego — relata Ellan.

Outro problema alimentado pelo abandono dos migrantes é a xenofobia crescente. Boa parcela da população de Boa Vista e Pacaraima é hostil aos venezuelanos, o que se traduz por piadinhas em pequenos grupos, xingamentos, discriminação e mesmo agressões e assassinatos. Setores mais reacionários acusam os imigrantes por qualquer crime que ocorra. Ao se dirigir à fronteira em um taxi lotação, Ellan observou:

— Os brasileiros que iam no carro comigo para fronteira têm preconceito com os venezuelanos, existe um clima de grande animosidade dos brasileiros com os venezuelanos. A xenofobia é muito grande. São piadas pejorativas e comentários maldosos todo o tempo.

No jogo de empurra das “autoridades” brasileiras as gerências estadual e federal fogem das responsabilidades perante uma tragédia humanitária. Enquanto se acumulam imigrantes nas ruas de Boa Vista e Manaus, a chamada “interiorização” dirigida pelo governo federal se faz a passos de tartaruga, chamando ainda mais a atenção para o drama vivido tanto pelos venezuelanos quanto pelos roraimenses.

A governadora do estado de Roraima, Suely Campos, assinou no dia 1º de agosto um decreto que restringia o acesso de imigrantes venezuelanos a serviços públicos, como saúde e educação, apenas àqueles que possuam passaporte válido; determinava a deportação de envolvidos em crimes e colocava as forças de segurança de prontidão nas fronteiras, numa flagrante violação a princípios humanos elementares e a tratados internacionais dos quais o velho Estado brasileiro é signatário.

Ante a contestação do Ministério Público Federal, o juiz federal Helder Girão Barreto determinou que a fronteira fosse fechada temporariamente, condicionando a reabertura ao processo de interiorização dos imigrantes pelo governo federal. Suspendeu ainda as exigências de passaporte e a deportação determinadas pelo decreto estadual, mas exigiu a vacinação de todos os venezuelanos que já estiverem em Roraima. A fronteira ficou fechada por menos de um dia, quando o Tribunal Regional Federal da 1ª Região ordenou sua reabertura.

Essa questão migratória tende a se agravar conforme se aprofunda a crise na Venezuela e o caos humanitário decorrente nas zonas de recepção desses imigrantes é mais um ingrediente nos planos ianques de uma agressão à Venezuela (ver destaque no box).


O ‘golpe de mestre’ ianque

Data de 23 de fevereiro de 2018 um documento classificado como “ultra secreto” do Comando Sul do Exército do USA intitulado “plano para acabar com a ditadura na Venezuela: Golpe de mestre”. Assinado pelo general Kurt Walter Tidd, comandante em chefe do Comando Sul, o plano revela como o imperialismo ianque tem se movimentado para apear Maduro do governo.

Detalhado, o documento de 11 páginas estabelece a atuação interna para amplificar a incapacidade do governo de Maduro de resolver os problemas econômicos e políticos:

“A ditadura chavista venezuelana cambaleia como resultado dos seus problemas internos, da grande escassez de alimentos, do esgotamento das fontes de dinheiro externo e de uma corrupção desenfreada, que diminuiu o apoio internacional, ganho com petrodólares, e que o valor da moeda nacional dura pouco tempo e o poder aquisitivo da moeda nacional está em queda constante”.

Por isso pretendem:

- “Incentivar a insatisfação popular, aumentando o processo de desestabilização e de falta de abastecimento [para] garantir a deterioração irreversível do seu atual ditador”.

- “Exacerbar a divisão entre os membros do grupo do governo, revelando as diferenças das suas condições de vida e dos seus seguidores e, ao mesmo tempo, incitando-os a manter essas divergências crescendo”.

- “Incrementar a instabilidade interna para níveis críticos, intensificando a descapitalização do país, a fuga de capitais estrangeiros e a deterioração da moeda nacional, mediante a aplicação de novas medidas inflacionárias que incrementem essa deterioração”.

- “Contribuir para tornar mais crítica a situação da população”.

- “apelar a aliados domésticos, assim como a outras pessoas inseridas no cenário nacional, com o objectivo de gerar protestos, distúrbios e insegurança, pilhagem, saques, roubos, assaltos e sequestros de navios e de outros meios de transporte, com a intenção de cortar o abastecimento do país, através de todas as fronteiras e de outras maneiras possíveis, pondo em perigo a segurança nacional dos seus vizinhos”.

Porém, a mão militar logo se faz sentir com os próximos passos do plano:

- “Obter o apoio e cooperação das autoridades aliadas de países amigos (Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e Guiana). Organizar as provisões das tropas, apoio logístico e médico desde o Panamá. Fazer bom uso das instalações de vigilância eletrônica e de sinais inteligentes; de hospitais e instalações existentes em Darién (selva panamenha), do equipamento de drones do Plano Colômbia, bem como dos terrenos das antigas bases militares de Howard e Albroock (Panamá), bem como as pertencentes ao Rio Hato. Além disso do Centro Regional Humanitário das Nações Unidas, projetado para situações de catástrofe e emergência humanitárias, que conta com uma pista de aviação (aterrissagem-br) e armazéns próprios”.

- “Avançar no estacionamento de aviões de combate e helicópteros, veículos blindados, posições de inteligência e unidades militares de logística especiais (polícia, oficiais militares e prisões)”.

- “Desenvolver a operação militar sob bandeira internacional, patrocinada pela Conferência dos Exércitos Latino-Americanos, sob a proteção da OEA e a supervisão, no contexto jurídico e mediático, do Secretário-Geral [da OEA] Luis Almagro”.

- Declarar a necessidade de o Comando Continental fortalecer a ação, usando o instrumento do Capítulo Democrático Interamericano, com o objectivo de evitar a ruptura democrática”.

- “Unindo o Brasil, Argentina, Colômbia e Panamá afim de contribuir para o número apropriado de tropas, fazer uso da sua proximidade geográfica e experiência em operações em regiões de floresta ou de selva. Fortalecendo o seu status internacional com a presença de unidades de combate dos Estados Unidos e das nações mencionadas; sob o comando geral do Estado-Maior Conjunto liderado pelos Estados Unidos”

“Usando as instalações do território panamenho para retaguarda e as capacidades da Argentina pela segurança dos seus portos e posições marítimas”

- “Propor ao Brasil e à Guiana fazer uso da situação migratória, a qual pretendemos incentivar na fronteira com a Guiana”.

- “Coordenar o apoio à Colômbia, Brasil, Guiana, Aruba, Curaçao, Trinidad e Tobago e outros Estados frente ao fluxo de migrantes venezuelanos devido aos eventos da crise”.

- “Promover a participação internacional neste esforço como parte da Operação Multilateral com contribuição de Estados, de organizações não estatais, e organismos internacionais, e fornecer logística adequada, inteligência, apoios, antecipando especialmente os pontos mais valiosos em Aruba, Puerto Carreño, Inirida, Maicao, Barranquilla e Sincelejo na Colômbia, e Roraima, Manaus e Boavista no Brasil”.

Como AND já denunciou, as recentes visitas do Secretário de Estado e do vice-presidente do USA ao Brasil em junho foram dedicadas a ultimar os preparativos de uma agressão imperialista à Venezuela que seria levada a cabo a princípio por tropas de países vizinhos, como enunciado no plano.

A situação ganha contornos ainda mais graves devido ao massacre promovido pelo governo da Nicarágua contra seu povo, que exige que Ortega e seu séquito deixem o governo. Lá também o imperialismo ianque alimenta planos de agressão, diante da ausência de força popular capaz de dirigir a rebelião das massas pelo caminho revolucionário.

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