Vinicius de Moraes: 105 anos de um democrata

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Vinicius de Moraes. Esse nome evoca uma figura marcante para a cultura nacional e que continha em si a particular característica de contrastar a vida boêmia desregrada com a honesta preocupação pelos dramas das massas. Um sincero democrata, dentro de suas limitações. Sua vida, trajetória e posicionamentos refletem claramente o signo histórico da classe com a qual se identificou, a pequena burguesia, especificamente sua ala esquerda. Apesar da sua importância e peso à cultura nacional, aqui limitamo-nos a observar o aspecto biográfico e político de Vinicius, que completaria 105 anos em 19 de outubro.

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Vinícius foi um sincero entusiasta da luta do povo, especialmente dos camponeses
Vinícius foi um sincero entusiasta da luta do povo, especialmente dos camponeses

Vinicius nasceu em 1913, no Rio de Janeiro. Seu pai foi funcionário público e poeta; sua mãe foi musicista amadora. Assim, estava delineado o caminho que seguiu: a arte. Com boas vida e educação, teve três irmãos e morou na Gávea, Botafogo e, depois, na Ilha do Governador. Aos 11 anos, já aventurando-se na poesia e em montagens de peças teatrais, passou a estudar em colégio jesuíta e encaminhou-se ao catolicismo que, mais tarde, admitiu jamais ter sido fiel fervoroso.

Em 1930, ingressou na Faculdade de Direito do Catete, atual Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ali conheceu Otávio de Faria que, anos mais tarde, Vinicius apontou como um dos seus colegas que o influenciou a tomar parte da fascista Ação Integralista que, pouco tempo depois, abandonou.

Tempos sombrios

Sua tomada de posição pelo Integralismo, ainda que confusa, é um bom exemplo através do qual pode-se observar, de modo ampliado, a fisionomia ideológica de sua classe.

A confusão e a inconsequência da pequena burguesia, sujeita sempre a se pôr à reboque da burguesia ou do proletariado, jogou um amplo espectro de intelectuais na luta política entre o fascismo e o comunismo. A polarização era especialmente propícia naquele ambiente pré-guerra, de crise da democracia burguesa, ascensão do fascismo e, a nível nacional, de profunda crise e efervescente situação revolucionária com o tenentismo, Levante Popular de 35 e outros. Essa polarização e inconsequência ideológica de sua classe foi retratada mais tarde pelo próprio Vinicius que, ao recordar seus idos de Integralismo, afirmou: “Não sei como consegui me safar disso”1.

Na mesma ocasião, ele relatou: “Eu tinha sido formado para ser um intelectual de direita. Mas em 1942 aconteceu uma coisa muito importante em minha vida, que foi a vinda ao Brasil do escritor americano Waldo Frank”.

Com Waldo Frank, um intelectual pequeno-burguês que declarava-se socialista, Vinicius faz uma longa viagem ao nordeste que, segundo ele mesmo, mudou sua vida: “Saí um homem de direita e voltei um homem de esquerda”.

A mudança, em suas próprias palavras, deveu-se “ao fato de ter visto a realidade brasileira, principalmente o Nordeste e o Norte, aquela miséria espantosa, os mocambos do Recife, as casas de habitação coletiva na Bahia, o sertão pernambucano, Manaus”.

Diplomacia e perseguição política

No final da década de 1940, Vinicius ingressou no Itamaraty. Sua primeira temporada como diplomata foi no USA, em Los Angeles. Sua primeira impressão da “democracia” ianque foi reveladora: indignava-se recorrentemente com a perseguição política aos democratas e aos tachados como comunistas (muitos sem, de fato, sê-lo). Naquele período, via com espanto as delações que ocorriam por toda parte, inclusive nos meios artísticos. O período era particularmente tenso: estava-se na iminência de estourar o reinício da guerra de agressão ianque contra a Coreia.

Vinicius relatou, em uma carta a Manoel Bandeira em janeiro de 1948, como sentia-se angustiado vendo a perseguição desatada pelo Estado ianque contra as pessoas democráticas e comunistas. “Se eu disser então que sou um comunista, estarei provavelmente com o FBI em casa no dia seguinte. É uma covardia enorme, me angustia às vezes tremendamente.”2. Àquele período, ele declarava-se progressista.

Vinicius passou aproximadamente 24 anos como diplomata; foi em meio a este período que envolveu-se com a música, ainda no USA. Sua carreira diplomática foi, no entanto, interrompida.

Ano de 1968: Ato Institucional Número 5 do regime militar-fascista. O general Costa e Silva, então à cabeça do velho Estado, assinou pessoalmente o despacho ordenando a exoneração do diplomata. Vinicius nunca assumiu a posição de perseguido, mas é óbvio: ter um sujeito democrático, simpático à luta das massas num cargo diplomático, justamente no momento em que a repressão se potencializava era, no limite, sinônimo de problema ou, no mínimo, um incômodo desnecessário. Publicamente, no entanto, os milicos justificaram o expurgo de Vinicius e de tantos outros por “condutas impróprias”, como “boemia” e “pederastia”. Ainda que Vinicius tenha sido de fato um boêmio (também característica ideológica da classe com a qual se identificou), a razão para o expurgo é mais política do que moral.

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