Chacinas nos maiores Complexos de favelas do Rio: ‘Todo dia é uma luta para ficar vivo’

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O sol nem havia raiado, quando quase 5 mil soldados das Forças Armadas e policiais civis e militares começaram a cercar os maiores Complexos de favelas do Rio de Janeiro: Penha, Alemão e Maré. Era dia 20 de agosto, 4 horas da madrugada, e os sons de tiros acordaram os mais de meio milhão de moradores que habitam a região, que abrange mais de dez bairros da zona norte da cidade. Raiene Amaral, de 32 anos, é moradora do Morro da Caixa D’Água, na Penha e conta como foi acordada com o som da sua porta sendo arrombada por agentes do Exército.

José Lucena
Blindado das Forças Armadas no Complexo do Alemão, agosto de 2018 (foto: José Lucena)
Blindado das Forças Armadas no Complexo do Alemão, agosto de 2018

— Eu estava na cama, ouvi tiros de noite, mas continuei na cama. Quando começou a amanhecer, eu ouvi um barulho, como se alguém estivesse tentando abrir minha porta. Quando levantei da cama ouvi um estrondo. Fui na cozinha e eles já estavam dentro da minha casa. Começaram a me xingar: “E aí, vagabunda! Cadê a droga?”. Eu tremendo disse que era trabalhadora, mas não teve jeito. Eles começaram a revirar tudo. Jogaram um liquidificador meu no chão. Foi um terror. Só de falar eu já começo a tremer — diz a auxiliar de serviços gerais, mostrando a mão trêmula pela lembrança.

Penha e Maré

Nos três Complexos, os relatos são tenebrosos, mas na Penha o sentimento de moradores é de total desalento, como se agentes do velho Estado tivessem arrancado completamente a sua dignidade. Três pessoas foram assassinadas por militares e policiais civis, mas nem ao menos a identidade dos mortos foi divulgada pelo Instituto Médico Legal ou pelo Comando Militar do Leste. Na Maré, dois jovens foram mortos. Um deles teria sido torturado por militares por quase uma hora antes de ser assassinado, mesmo diante dos protestos dos moradores próximos ao local. O caso do assassinato do jovem conhecido como “De Belém” foi denunciado pela equipe de plantão do grupo Maré de Direitos, que atuou no Complexo da Maré no dia da matança cometida pela polícia e pelas Forças Armadas.

“Eu saí para trabalhar, e descobri que estavam fazendo uma operação na Penha. Daqui a pouco, meus vizinhos começaram a me mandar mensagens pelo Whatsapp dizendo que estavam quebrando minha casa toda e até minha cachorra já estava na viatura. Só não levaram a bichinha porque meu vizinho não deixou. O restante, só comprando de volta. O ódio deles é contra pobre, não é contra traficante. Eles vêm na favela humilhar quem é pobre, porque do traficante mesmo eles passam longe, morrem de medo. Aí sobra para quem é trabalhador, que perde tudo, é humilhado e até pode tomar um tiro e morrer.”, desabafou o motoboy Sergio Rodrigues pelas redes sociais.

“Os relatos de violações de direitos são muitos. Há casos de invasão de residências por agentes das forças de segurança, disparo de tiros em projetos sociais e de devassa em celulares de pessoas. O cão de um morador da Maré teria sido lançado de uma altura de três andares. Há denúncias de agressão e tortura.”, denuncia Rodrigo Pacheco, subdefensor-geral do Estado, no site da Defensoria Pública estadual.

Nos três Complexos, o saldo total de mortos foi de oito pessoas, sendo três militares das Forças Armadas. Além disso, 60 pessoas foram presas nas ações.

Cinco jovens presos

Um grupo de cinco jovens entre 16 e 22 anos jogavam videogame em casa, no Morro da Caixa D’água, quando o imóvel foi invadido por militares. Os telefones dos rapazes foram vasculhados por policiais civis que decidiram prendê-los.

Narayanna Borges
Ônibus em chamas na Linha Amarela, próximo de Bonsucesso, agosto de 2018 (foto: Narayanna Borges)
Ônibus em chamas na Linha Amarela, próximo de Bonsucesso, agosto de 2018

“Os policiais falaram que eles estavam indo incendiar ônibus. É mentira. Eles foram presos dentro de casa. Entraram ameaçando, bateram nos meus meninos e algemaram. Minha filha, que estava em casa na hora, me ligou chorando e contando tudo. O que meu filho fez que deixou os policiais desconfiados, foi me enviar uma foto dizendo que o caveirão [veículo blindado da polícia] estava subindo o morro e prendendo todo mundo. Os moradores trocam mensagens para saberem se dá para sair de casa, se tem tiro, por segurança, não porque somos bandidos ou qualquer coisa do tipo.”, diz o pai de três dos jovens, Luiz Soares, de 56 anos, ao portal Uol.

Dois dias após a prisão, depois da audiência de custódia dos jovens, os cinco foram liberados, pois segundo defensores públicos e o ministério público estadual, “a justiça entendeu que houve violação dos sigilos telefônicos e dos dados sem ordem judicial prévia”. Mas segundo integrantes de um grupo de comunicadores independentes dos Complexos do Alemão e da Penha, o coletivo Papo Reto, várias pessoas procuraram o grupo para relatar arbitrariedades da mesma natureza.

— Muita gente procurou o Coletivo para relatar as mesmas denúncias, de que policiais e soldados do Exército estariam invadindo casas, agredindo e torturando moradores, destruindo seus pertences e vasculhando computadores e telefones celulares. Eu, particularmente, lembrei de 2007 e 2010, quando eles [policiais] vieram para a Penha e para o Chapadão tocando o terror, destruindo tudo, derramando sangue. Foram dias traumáticos nas vidas dos moradores e esse será só mais um. Essa guerra às drogas na verdade é uma guerra contra os favelados, contra os pobres, que para o Estado brasileiro não têm direitos. Eles fazem o que querem e qualquer um pode virar uma vítima. Todo dia é uma luta para ficar vivo — diz um integrante do Coletivo Papo Reto, formado por comunicadores que vivem no local.

É genocídio

Inicialmente o número de mortos na operação, divulgado pelo próprio Comando Militar do Leste, foi de 11. Mas, misteriosamente, o número foi corrigido horas depois. Moradores dizem que outros corpos foram escondidos por soldados no alto da Serra da Misericórdia, que divide os dois complexos de favelas. À noite, vários pontos do Complexo do Alemão e Vila Cruzeiro, na Penha, estavam sem luz por conta de transformadores que foram destruídos por disparos de fuzil. No final da manhã, moradores protestaram bloqueando a Linha Amarela e incendiando ao menos um ônibus.

“Várias moradoras do Complexo do Alemão e do Complexo da Penha informaram que há corpos na mata que liga as duas favelas, mas que a Polícia Civil e o Exército não estão deixando familiares se aproximarem. Precisamos nos posicionar em prol do morador, da moradora, das crianças e jovens da favela, que no dia de hoje, receberam o terror em forma de política pública.”, divulgou em nota nas redes sociais o Coletivo Papo Reto.

No dia seguinte (21), um grupo de moradores organizou um mutirão para ir até a Serra da Misericórdia – que em tese é propriedade de uma empresa francesa de extração de pedras e minérios – para procurar por corpos que teriam sido escondidos na mata por militares, como aconteceu nas chacinas de 2007 e 2010 nos Complexos do Alemão e da Penha, quando um total de 36 pessoas foram mortas. No entanto, nenhum corpo foi encontrado pelos moradores na área de mais de 10 mil metros quadrados.

Marcio Foletto
Tropas do Exército em ocupação no Complexo do Alemão, na Penha, zona norte do Rio, agosto de 2018 (foto: Marcio Foletto)
Tropas do Exército em ocupação no Complexo do Alemão, na Penha, zona norte do Rio, agosto de 2018

Nas últimas edições de AND, noticiamos um crescimento significativo no número de pessoas mortas em ações do Estado nas favelas, em especial após o início da intervenção militar federal no estado do Rio de Janeiro. No entanto, segundo o general interventor Braga Netto, “as ações têm sido bem-sucedidas graças ao uso da inteligência. Os bandidos estavam acostumados a dar tiros e nada acontecia. Só que, agora, isso mudou. Existe uma política de enfrentamento da bandidagem”. Foi o que disse o general à imprensa, fugindo dos pedidos de explicação para as incontáveis denúncias de violações cometidas por militares nas operações.

O Exército permaneceu nos Complexos da Penha e do Alemão por mais seis dias e a sensação de moradores foi de que a ocupação permanente era uma espécie de retaliação pela morte de três militares nas ações do dia 20. Segundo denúncias, apesar da grande repercussão no monopólio da imprensa das violações cometidas por militares e policiais civis no início da semana, nos dias que se seguiram, outros casos foram relatados à reportagem de AND por moradores. Abusos tais como agressões, sessões de tortura, invasões de casas e até roubos de objetos.

— Na quarta-feira (22) eles arrombaram minha porta pela segunda vez. Dessa vez eu estava em casa. Na cara-de-pau, eles mandaram eu sentar. Eu me recusei e um deles me empurrou e eu caí de bunda no chão. Enquanto um deles me puxava pelo cabelo e ameaçava me matar, o outro começou a comer e beber as coisas que estavam na minha geladeira. Por um momento eu achei até que eles pudessem me estuprar. Eu não aguentei e comecei a chorar. Meus vizinhos começaram a gritar do lado de fora, dizendo que eu sou trabalhadora, para eles saírem. Por causa do furdunço, eles foram embora. Meu sentimento é de ódio, de raiva, por não poder reagir, por ficar impotente na hora. A gente se sente um lixo e percebe que nossa vida não tem nenhum valor — relata a manicure Kelly da Silva, de 25 anos.

O povo não quer intervenção

O fracasso da intervenção militar no Rio de Janeiro não pode mais ser escondido por trás das grandes operações de guerra, que mobilizam milhares de soldados que servem de contenção para as polícias civil e militar executarem chacinas nas favelas e bairros pobres. Os resultados são vexatórios se considerado o objetivo declarado de combater o chamado “crime organizado” e trazer “sensação de segurança” aos moradores do estado.

Além do aumento de assassinatos em geral e, em particular, o aumento de pessoas mortas pela polícia e por militares do Exército, a intervenção tem que conviver com a morte de membros de suas próprias fileiras em operações contra seu próprio povo. Os três militares mortos nas operações do dia 20 de agosto foram enterrados como heróis, com honras militares, mas a história mostrará que foram levados à morte pelos chefes militares que alargam a guerra contra o povo do país. Não podem nunca serem comparados com os praças que tombaram na luta contra o nazifascismo, na segunda guerra mundial.

Enquanto os generais convivem com os cadáveres da intervenção e veem o “apoio popular” às Forças Armadas derreter com o passar do tempo, se apresenta o debate sobre a continuação da intervenção no estado, marcada para acabar no fim do ano. Se, por um lado, há a vontade de mantê-la como laboratório de algo a ser implantado no país todo, há ainda o problema de que a intervenção bloqueia qualquer alteração na Constituição, algo que retarda os planos do imperialismo de aprovar as reformas antipovo, notadamente a da previdência.

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