O Brasil velho tem os candidatos que merece

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Não são poucas as pessoas que têm se mostrado “horrorizadas” perante o cenário eleitoral. Esse sentimento se acentuou depois do aparecimento do cabo Daciolo, em debate da Band, e seus comentários sobre Foro de São Paulo e Ursal (a propósito, eu e um monte de gente da militância conhecemos Daciolo quando ainda era uma liderança dos bombeiros, disputado por diferentes siglas da esquerda oficial, inclusive o PSOL, por quem acabou se elegendo). No trabalho, nos ônibus, nas bancas de jornal, as reações diante do grotesco iam de um espanto enojado a uma galhofa condescendente, como se o inconsciente coletivo dissesse: “isto não é sério”.

Contudo, o grotesco não é o mais importante. O mais importante é notar as condições das quais ele surge, que condições tornam o antes impensável em viável e, mais que isso, realizado. Por que, afinal, uma extrema-direita ridícula, até há pouquíssimo tempo incapaz de reunir dez pessoas em torno de si, ganhou fôlego a ponto de erigir uma figura como Bolsonaro a segundo colocado nas pesquisas? Por que, em meio a um clamor generalizado por mudanças profundas e urgentes, os candidatos que se engalfinham são, na sua imensa maioria, velhíssimas raposas profissionais (Ciro, segunda campanha presidencial; Alckmin idem; Marina, terceira)? O que dizer das “aulas” de Henrique Meirelles, tão “convincentes” que não podem esconder ser ele o Ministro da Fazenda de um governo que bate recordes de rejeição e desemprego?  

Muitos dizem: crise de representatividade. Tomar isto como causa, cujo remédio seria então a tal da “reforma política”, seria o mesmo que dizer que o sistema político não representa a vontade popular, porque ele não é representativo. Como se vê, trata-se de raciocínio tautológico, que toma por conclusão o que deveria explicar. O problema, na verdade, é qual política ditos representantes implementam, não a representação em si. O que está claro é que eles não representam o povo, isto é, a maioria explorada da sociedade, mas a ínfima minoria de ricaços que compõem o establishment. Ao cabo e ao fim, é esta ínfima minoria que governa, contra o interesse da imensa maioria. Este é o “x” da questão. Por isso, em junho de 2013, milhões gritavam nas ruas: estes partidos não nos representam. Por isso, em outubro de 2018, talvez mais da metade dos eleitores aptos a votar não compareça ou vote nulo ou branco.

Noutras palavras, o velho Brasil semicolonial e semifeudal tem os “presidenciáveis” que merece. Um país campeão de homicídios, campeão de concentração de terras, campeão de devastação socioambiental (que dizer da impunidade dos responsáveis da tragédia em Mariana? Que dizer de Belo Monte?) não poderia ter outros candidatos, mesmo. A forma não discorda, pelo contrário, corresponde fielmente ao conteúdo; a aparência molda-se à essência - é esta última que deve ser objeto de uma transformação radical, portanto.

A desilusão com o sistema dito democrático é mesmo profunda, tolice negá-la, está na boca do povo. Por que isso acontece? Teriam os brasileiros uma inclinação ao regime militar? Basta ver como a população avalia as polícias para constatar que, estivesse o exército nas ruas, a percepção seria a mesma, isto é, negativa, como já começa a ocorrer no Rio sob  intervenção, aliás. O que acontece é que a “nova República” é, realmente, pouquíssimo democrática, exceto quando se tratam dos interesses da minoria privilegiada. Levantam-se os operários, os camponeses, os moradores das favelas, os estudantes e os professores, e seja que governante for, de que partido for, a ordem é a mesma: descer o porrete. Ou não foi sob o governo petista que foram brutalmente reprimidas as manifestações de 2013 e 2014? Criada a Força Nacional de Segurança? Aprovada e aplicada a lei antiterrorismo?

Por isso, o discurso adocicado de uma certa “esquerda” que faz do seu programa máximo a defesa de um estado democrático de direito, inexistente para a maioria da população, não é capaz de comover mais ninguém. Os que morrem nas filas dos hospitais têm muito pouca paciência para as maravilhas da democracia em geral. Eles querem a indicação clara dos caminhos práticos para resolver os seus problemas, e nisso têm toda razão. Digamos: querem terra? Tomem do latifúndio. Querem pão? Briguem por ele. Querem teto? Ocupem um. Na lei, ou na marra. Isto elevará, sem dúvida, a temperatura da luta de classes a novas alturas, mas é só na luta que as massas poderão comprovar quem está do seu lado e quem está do lado de lá.

As respostas para nossos problemas não estão, portanto, na campanha eleitoral. Se esta é horrorosa, a vida, realmente, parafraseando Belchior, é muito pior. Ganhe quem ganhar, terá de aplicar a contrarreforma da previdência, completar a trabalhista, porque é este o diktat que emana da casa-grande (ou seria da Casa Branca?); terá, também, naturalmente, que escalar a repressão e a intervenção militar, ainda que sob o manto das “Operações de Garantia da Lei e da Ordem” (GLO), porque aquelas medidas são impraticáveis sem estas. Afinal, o Estado social mínimo tem como contrapartida o Estado penal máximo, como já disse Wacquant.

Numa palavra, temos na campanha presidencial o retrato do Brasil velho, que agoniza; é nas mobilizações que sacodem o país (como na recente greve dos caminhoneiros) onde palpita o Brasil novo, justamente aquele que não cabe no horário eleitoral. É no impulso deste, e não no remendo daquele, que devemos empenhar todos os nossos esforços.

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