A(s) Resistência(s) ao Grande Projeto na Amazônia (Parte 1)

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Há um determinante comum para o surgimento do Grande Projeto na Amazônia, que explica outros casos surgidos nela em outros períodos históricos – e, com relação à Amazônia brasileira, um caso emblemático. A base dêsse determinante são a fartura e a riqueza da Natureza regional, que transformaram a Amazônia em alvo histórico da ação colonial; a sua condição é a ascensão histórica do Capitalismo ao estágio do Imperialismo, cujo panorama econômico produziu uma pressão insuportável para que os espaços ricos de recursos naturais fossem abertos à exploração desenfreada para transformar êsses recursos em Capital.

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A exploração mineral em Carajás (PA) extraiu 100 milhões de toneladas de minério de ferro por ano
A exploração mineral em Carajás (PA) extraiu 100 milhões de toneladas de minério de ferro por ano

Por isso, ao ser atingido o estágio histórico do Imperialismo, que resulta da ascensão hegemônica do capital bancário e da formação do Capital Financeiro, e da partilha do mundo pelas grandes economias capitalistas, se inicia, sobretudo no último quartel do século XIX, uma caça disseminada e febril às fontes de recursos naturais capazes de suprirem a necessidade de matérias-primas para a formação de Capital pela atividade industrial.

Na Amazônia, êsse recurso natural foi a borracha, que tornou-se o alvo das verdadeiras chusmas de cientistas-viajantes que choveram sôbre ela a partir de todo o século XIX, atraídos pela sua revelação por La Condamine (ainda nos meados do século XVIII), e confirmada por Humboldt (já nos finais do mesmo século). Sobretudo a partir da década de 1870 e até o comêço da segunda década do século XX (mais precisamente em 1911), vigeu na Amazônia um período gomífero que durou o tempo exato para que o colonialismo imperialista inglês, que precisava vencer os obstáculos materiais e econômicos próprios da Amazônia da época para obter a borracha a um custo compatível com as suas necessidades de formação de Capital, contrabandeasse as sementes da borracha para as suas possessões asiáticas e esfrangalhasse, a partir do cultivo ordenado da hevea, a frágil economia gomífera regional assentada no extrativismo. O exame dessa questão não cabe aqui, por não ser o escopo dêste trabalho.

Durante êsse período, o Capital empurrou para a Amazônia enormes hordas de especuladores e aventureiros de toda espécie, que, junto com uma oligarquia local inteiramente incompetente do ponto de vista burguês, contribuíram para estruturar uma economia gomífera assentada sôbre um sistema de trabalho escravo que se disfarçava sob a aparência do sistema de aviamento. Mas à parte isso, e seguindo a lógica do Capital, que tende a se expandir de modo irrefreável para as áreas ricas em riquezas naturais ainda livres das relações de produção capitalistas, consoante o explica a Lei Geral da Acumulação Capitalista, de Marx, já afluíam aos trambolhões para a Amazônia – e, dentro dela, se espalhavam aos trambolhões por todos os seus cantos mais remotos – êsses indivíduos movidos pela sanha da busca de coisas preciosas da Natureza, naquêle momento representadas exclusivamente pela goma elástica. O devassamento dos mais recuados espaços amazônicos, que representava um desafio material de vulto para êsses aventureiros, de um lado produziu empreitadas que encaravam o obstáculo do Rio e da Selva como impecilhos a serem transpostos a ferro e a fogo – como foi a tentativa (infrutífera) de construir, ainda em 1871, a estrada de ferro Madeira-Mamoré para alcançar os ricos espaços gomíferos fronteiriços entre o Brasil e a Bolívia – e, de outro, criou localmente empreendedores de uma dimensão lendária, pois estavam animados da mesma intenção avassaladora de expansão que residia na mentalidade da burguesia britânica condutora da Revolução Industrial. O espaço peruano-boliviano produziu figuras como Antonio Vaca Diez, que navegou o Rio Orton (assim batizado em nome de um aventureiro natural dos Estados Unidos, James Orton, que havia navegado êsse rio pela primeira vez, quando êle ainda se chamava Datimanu), Nicolás Suárez, de uma família de irmãos que colonizou o Alto Beni, e o irlandês-peruano Carlos Fermín Fitzgerald, popularizado como Fiscarraldo, personagem lendário do sistema fluvial Urubamba-Alto Beni-Madre de Dios, entre o Peru e a Bolívia.

Como essa era a era em que a Técnica entrava no cenário como a grande pedra de toque para a Acumulação, as tentativas de converter a Amazônia, ainda naquêle período, em um enorme espaço produtivo em favor da formação de Capital, recorreram massivamente a ela. Esta foi a razão do recurso à estrada de ferro para vencer os trechos encachoeirados dos altos-rios (o caso da Madeira-Mamoré), e à estruturação do projeto produtivo autosuficiente e de grande porte assentado sôbre tecnologia avançada em áreas remotas, que, pela primeira vez, surgiu no Alto Beni sob o comando de Nicolás Suárez, na Cachuela Esperanza, representando para a Amazônia o modêlo disso que, mais tarde, viria a ser denominado justamente o Grande Projeto. Como naquêle momento os únicos grupos sociais existentes nas áreas sob o assalto das hordas invasoras eram os povos indígenas, o genocídio respondeu pela “limpeza” do espaço para a sua ocupação capitalista. Comentava-se que Nicolás Suárez, em apenas uma surtida, dizimara nada menos que 300 Karipuna. Por isso, não é possível ter restado qualquer registro da (inútil) resistência nativa à chegada do conquistador, coisa que, sem qualquer dúvida, deve ter havido; porém sob o silêncio da História – êsse relato oficial de legitimação dos direitos de usurpação dos territórios nativos pelo invasor, que, como sempre, contou ao seu modo e com tintura suave a saga da terrível e sangrenta ocupação do solo amazônico desde que por aqui pisou o primeiro colonizador. E, como o Estado e a classe dominante sempre se fundem numa coisa só, nada restou que contasse a resistência dos nativos – com certeza heroica, anônima e trágica – à rapina dos seus territórios pela bota colonizadora.

Na Amazônia brasileira, o primeiro caso concreto de Grande Projeto surgiu aos finais da terceira década do século XX, sob uma forma inteiramente diversa, embora sob a mesma raiz – uma necessidade produzida pelas condições do Imperialismo em fronteiras longínquas, que se lembrou que a Amazônia existia, para resolvê-la. A progressão do Imperialismo como etapa histórica colocou em confronto segmentos poderosos do capital monopolista. O automóvel, como o maior produto de consumo de massa da História, formatou um cartel com um poder extraordinário, que, à época, estava concentrado nas mãos dos capitalistas dos Estados Unidos, e, entre êstes, nas mãos de Henry Ford. Êsse cartel se ressentia da ação do cartel gomífero, em mãos inglêsas e holandêsas, já que os seus prêços de monopólio, encarecendo o custo dos pneus, encareciam o automóvel como produto, impedindo que o ramo automobilístico pudesse ampliar o seu mercado. Aproveitando um “acidente de percurso” histórico – o fim da Primeira Guerra Mundial – quando os estoques de borracha eram altos por serem estoques de guerra, o ramo dos automóveis recorreu, numa jogada de mercado, àquela velha fórmula típica da cultura dos Estados Unidos – a trapaça – para tentar tirar das mãos britânicas as suas plantagens, e os Estados Unidos derramaram no mercado os seus estoques para forçar uma baixa de preço da borracha e a falência da plantagem colonial gomífera britânica, que êles pretendiam comprar a prêço vil, para os seus fitos. Mas – os inglêses são os seus pais históricos, sobretudo nos valores culturais – a reação britânica neutralizou essa jogada, mantendo em suas mãos as plantagens, e – claro – mantendo os prêços que incomodavam o cartel do automóvel. Então, ajudados pelo apoio do seu Estado para conservar o seu poder de cartel, os capitalistas do automóvel procuraram (e expandiram-se para) espaços subordinados ao imperialismo do seu país na África e na América Central, nos quais montaram seus próprios projetos, para que produzissem borracha a prêços compatíveis com as suas necessidades de lucro, e, pois, de formação de Capital. Em obediência a essa demanda do imperialismo estadunidense, o govêrno brasileiro abriu inteiro espaço para que Henry Ford aqui instalasse um projeto moderno para produzir borracha em regime de monocultura, num território de um milhão de hectares que, a partir de 1928, se localizou às margens do Rio Tapajós, num local que, depois, ficou conhecido como Fordlândia.

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Quando se examina se teria sido possível existir uma resistência regional a êsse projeto de raiz claramente imperialista, na Amazônia da época, constata-se ser ela, na prática, inteiramente improvável. A opinião pública do meio, formatada secularmente por uma colonização culturalmente castradora, era uma coisa imbecil, formada e cultivada por uma imprensa – àquela época representada quase que exclusivamente pelos jornais – nas mãos de uma oligarquia econômicamente estúpida e incompetente, políticamente analfabeta por opção, culturalmente rasteira e formada pelas condições de classe herdadas da colonização, que administrava um atraso histórico aprimorado por práticas produtivas imemorialmente calcadas nas formas mais arcaicas de exploração da fôrça de trabalho regional, e, pois, avêssa à assimilação e ao cultivo do progresso científico e técnico – ainda que admirasse, deslumbrada e passiva, os povos e países (principalmente os “americanos” e os alemães) em que êsse progresso se cristalizara em conquistas materiais que ela jamais conseguiria produzir ou impulsionar pelos seus próprios meios. Como consequência e sintoma dessa sua desnutrida capacidade técnica e da sua ignorância, limitava-se a formar blocos de admiradores – “americanófilos” e “germanófilos” –, que se reduziam a vibrar, como se fôssem “torcidas” de clubes de futebol, por um ou outro dêsses dois lados, com as realizações que ela jamais conseguiria concretizar. Se no Brasil, a essa época, já estavam sedimentados os elementos históricos básicos do atraso social – a associação conjugada da corrupção, desorganização e impunidade – na Amazônia isso se agravava por um ainda mais profundo degrau de subdesenvolvimento.

Pois foram (foi) exatamente êsses meios de comunicação – na verdade, pràticamente um só jornal (a Folha do Norte) –, sob o contrôle dessa oligarquia, que deram (deu) o tom da “avaliação” do projeto, trazido desde fora e “comunicado” ao meio pelo segmento dominante – governantes, políticos e empresariado – noticiando a chegada consumada de um empreendimento que vinha para pilhar os recursos naturais da Região, recebendo todas as facilidades concedidas à rapina pelo Estado, no seu papel de instrumento de dominação de classe a serviço do interêsse do Capital, inaugurando um estilo de prática a ser seguido, daí por diante, em relação a todos os projetos de natureza similar na Amazônia, e instaurando, nela, ainda que bem antes da sua aparição histórica, o papel do Estado do Capitalismo Tardio. Assim, para essa oligarquia – na verdade, uma sub-burguesia local – em processo de naufrágio, devido à sua incompetência, pela recessão que resultou do fim da economia extrativista da borracha, a vinda de um projeto dêsses era como que a própria salvação enviada pela divina providência, e ela tratou logo de apoiá-lo com todas as suas fôrças. As condições dêsse projeto – instrumento da rapina colonial e de destruição da Natureza –, nem de longe poderiam passar pelas considerações dessa sub-burguesia, sobretudo por dois dos motivos acima: pela sua fraqueza econômica, e pela sua incompetência, passividade e ignorância política, decorrentes da primeira. Por isso mesmo, o(s) jornal(is) local(is) (leia-se a Folha do Norte, cujo proprietário, Paulo Maranhão, era um dos mais destacados elementos dela) abriu espaço irrestrito para a “colaboração” da provinciana intelectualidade local, cujas loas ao projeto, ôcas e recheadas de um ufanismo subjetivo, escritas nos mais retumbantes tons do beletrismo bacharelesco, refletiam muito bem a inteira ignorância do meio a respeito da real natureza do empreendimento enquanto punham a nu a sua mediocridade e o seu analfabetismo político.

No entanto, houve uma meritória tentativa de resistência ao assim chamado Projeto Ford. Contrapondo-se às tacanhas fórmulas ideológicas do meio local, ela surgiu justamente por meio de duas pessoas cuja visão fugia dos antolhos dessa sociedade inculta e preconceituosa, e que logo foram convertidas em malditas pela rasteira intelectualidade do meio: Alberto Moreira e Orminda Bastos. Vejamos o que eu digo a respeito dos dois, com referência aos debates nos jornais locais sôbre o Projeto:

Alberto Moreira era um jornalista do Rio de Janeiro, e seus artigos sôbre a questão eram frequentemente reproduzidos nos jornais locais, tendo ganho, pelas suas posições, o antagonismo dos defensores da chegada dos norte americanos; o acusavam de ter preferência pelos alemães. Orminda Ribeiro Bastos era uma paraense em evidência pelas suas abertas posições sôbre os assuntos do momento, tendo se envolvido em diversas polêmicas, à época. O caso de Orminda Bastos é emblemático: paraense nascida em Manaus, formou-se em Direito em Belém, militou como advogada e jornalista, e é um marco no universo da luta pelos direitos da mulher. A sua lucidez e o seu descortínio colocam-na muito à frente do seu tempo. Intelectual (foi professora de grego e latim) e polêmica, nunca hesitou em defender as suas idéias com a fôrça de fundados argumentos. À época em que se envolveu nos debates relativos ao empreendimento Ford ainda era uma jovem (24 anos) intelectual destemida, e é notável a sua presença nêsses debates, porquanto no universo social daquêle momento, predominantemente masculino, políticamente obtuso e culturalmente retrógrado, no qual o ranço machista provinciano reservava às mulheres o embotamento intelectual, além de – quando muito – o universo doméstico como espaço de ação, a única pessoa, entre todos os paraenses, a manifestar públicamente uma posição fundamentada, de inegável descortínio crítico sôbre o Projeto – e contrária à vinda dêle – foi justamente uma mulher.

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Instalações ianques da 'Fordlândia' na Amazônia, em 1929
Instalações ianques da 'Fordlândia' na Amazônia, em 1929

O resultado final e inevitável disso tudo foi a chegada, apoiada por êsse meio social estúpido, do Projeto Ford, cuja presença provocou as mais sérias consequências capazes de serem imaginadas por uma intervenção modernizadora sôbre uma região ainda – relativamente – intocada pela brutalização ambiental, embora já históricamente marcada pela brutalidade social da colonização. Como, devido à arrogância colonizadora que é própria de empreendimentos dessa ordem, se impôs dentro dêle, desde o seu primeiro momento, aos ingênuos cabôcos contratados para trabalhar na sua implantação, a mesma rigidez disciplinar que as Indústrias Ford impunham ao seu operariado urbano na Detroit industrial daquela época, houve severos choques culturais que resultaram na revolta dos simplórios nativos, logo sufocada pela milícia estadual, usando o que havia de mais moderno para êsse fim, à época, e na prisão dos – assim considerados – cabecilhas da resistência, levados para Belém e metidos na prisão sem que se saiba do seu destino final, e provávelmente sem que soubessem, de facto, os porquês do que lhes havia acontecido. Mas, antes mesmo disso, o clima da sua chegada e as tratativas que envolveram a concessão de um milhão de hectares a Ford em uma das áreas mais estratégicas do Estado e da Região, foram marcadas por um clima de corrupção em que se inseriram todas as formas mais modernas da chicana trazidas com a nova idade econômica. Os contôrnos dessa Corrupção Modernizadora aparecem associados à chegada à Amazônia de levas de estrangeiros a ela – quer do Norte, quer do Sul – sem que nisso se contasse a língua que falassem (inclusive a portuguêsa), pois foi um arrivista de São Paulo, Jorge Dumont Villares – que, provàvelmente, até a sua chegada sequer deveria saber onde e o que eram a Amazônia e o Pará – quem primeiro se apresentou em Belém, logo que surgiram os primeiros rumores da vinda de Ford. E isso ainda foi azeitado pelas intervenções e figuras do governador do Estado, do Prefeito de Belém, de um coronel inglês a serviço de Ford e de Villares, chamado Greite, além de outros, envolvendo gorjetas, propinas, e um clima em tudo por tudo semelhante ao que hoje ainda se pratica exemplar e impunemente num país chamado Brasil. É tão rica – mas também tão extensa – a história dêsse Grande Projeto e da corrupção a êle associada que se torna impossível aqui reproduzi-la, por mais tentadora que seja essa intenção. Êle teve um fim melancólico, devido a grosseiros êrros de concepção – inclusive os tocantes à compreensão da natureza regional – mas não sem antes deixar, nos rastros da sua passagem, as marcas das profundas alterações provocadas por êle sôbre o meio natural e social.


Notas:

1. O autor deste trabalho tem a opção explícita pela antiga ortografia, por considerá-la a forma mais adequada à expressão da palavra escrita. Por essa razão, o artigo apresenta uma forma diferente do padrão do jornal.

2. Prof. Dr. Aluizio Lins Leal é professor adjunto doutor da Faculdade do Pará

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