Capitalismo e suicídio, uma história de amor

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O ‘ser ou não ser’ no mundo do trabalho alienado

No Brasil, uma pessoa comete suicídio a cada 46 minutos. Segundo o levantamento do Ministério da Saúde, foram 11.433 mortes no ano de 2016, um número 2,3% maior que no ano anterior. O maior número é de indígenas entre 10 e 19 anos (Ver matéria na página 8). Os números são elevados não apenas no Brasil. No Chile, o suicídio entre idosos bateu recorde: 936 mortes entre 2010 e 2015. São dados alarmantes que apresentam em todo o mundo um invariável crescimento nos últimos anos.

Suzano Correia
O suicídio é uma consequência, direta ou indireta, da alienação do trabalho - ilustração de Suzano Correia
O suicídio é uma consequência, direta ou indireta, da alienação do trabalho

O “Setembro Amarelo” foi o mês de prevenção ao suicídio. Essa é uma campanha criada em 2015 a partir da iniciativa conjunta do Conselho Federal de Medicina, da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Centro de Valorização da Vida, e tem por objetivo promover ações de prevenção. É um assunto urgente e demanda uma compreensão das determinações sociais e objetivas por trás das estatísticas oferecidas.

Karl Marx e o suicídio

Há um escrito de Karl Marx pouco debatido, chama-se: Peuchet: vom Selbstmord, traduzido como Sobre o suicídio. Nele, Marx realiza a tradução e adiciona suas considerações particulares sobre um capítulo do diário de memórias de Jacques Peuchet, um francês monarquista (pasme!) que trabalhou como arquivista da polícia e por isso teve acesso aos detalhes dos casos de suicídio ocorridos em Paris.

É um texto de 1846, de um autor que já se inseria e se destacava dentre os seus contemporâneos hegelianos nos debates acerca de questões econômicas e políticas. Entretanto, no texto mencionado, além do revolucionário alemão adotar uma forma textual incomum dentre suas demais produções literárias – ou seja, traduzir e comentar as memórias de um autor que não era nem economista, nem filósofo – ele também discorre sobre um conteúdo pouco presente em sua vasta bibliografia: a vida privada.

Marx se vale da análise de casos de mulheres suicidas para apontar o suicídio como um sintoma de uma sociedade adoecida pela competitividade inaugurada pelas relações de propriedade. Por que as mulheres? No capitalismo tudo obedece à lógica da mercadoria. Sobretudo no século XIX, as vidas das mulheres são propriedade da própria família, são corpos e consciências humanas sob o jugo da “tirania familiar’’, expressão utilizada por Marx para designar as relações patriarcais que operam no seio das famílias. Vê-se que pouco mudou no mundo regido pelo capital.

A crítica fundamental do livro consiste, portanto, em deslocar o suicídio da vida privada para a esfera política. Ou seja, Marx realiza uma politização da vida privada e identifica as relações de propriedade como uma determinação objetiva que opera em cada caso de suicídio. De modo autêntico, o autor baseia-se nos dados do arquivista francês e tece sua crítica ao mundo burguês; apontando que o suicídio “está na natureza de nossa sociedade’’ e ele não é “mais do que um entre mil e um sintomas da luta social geral”.

Suicídio e trabalho

Toda a obra de Marx é atravessada por um conceito: Trabalho. Desde uma redação escrita na adolescência, passando pelos Manuscritos de 1844, até “O Capital’’, sua obra mais amadurecida, a categoria de trabalho é fundamental para a compreensão do ser social. É natural que o ser humano tenha necessidades, biológicas e sociais, em constante transformação. O trabalho é a atividade exercida pela humanidade que visa a transformação da natureza para sanar essas necessidades.

Ocorre que no modo de produção capitalista essa atividade não é orientada para satisfazer as necessidades humanas, mas as necessidades de produção e reprodução do capital, custe o que custar da humanidade. A contradição inerente ao modo de produção capitalista é a alienação do trabalho, isto é, aquilo que o trabalhador produz não pertence à sua classe, mas a uma classe de exploradores. Desse modo, a alienação perpassa não só a relação do trabalhador com a mercadoria que ele produz, mas sua relação consigo mesmo é também alienada.

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