Roubos, agressões e abusos sexuais: a atuação do Exército nas favelas

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Um relatório parcial do projeto Circuito Favelas por Direitos revelou que as Forças Armadas e as polícias Civil e Militar violaram inúmeros direitos dos moradores das áreas onde houve ações da intervenção militar no Rio de Janeiro. A pesquisa foi coordenada pela Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Rio de Janeiro e ouviu mais de 300 pessoas que foram vítimas de soldados e policiais. Os crimes relatados são diversos: violação de domicílio, revistas vexatórias, assassinatos e execuções sumárias, roubos, furtos, destruição de objetos pessoais, extorsões, ameaças, agressões e até violência sexual.

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Militares foram denunciados por estupro e práticas de banditismo contra trabalhadores desarmados

“Eles vêm revistar a gente já gritando, chamando a gente de piranha, mulher de bandido, drogada. Vem empurrando e mexendo na gente. Eu sei que só mulher que pode revistar mulher, mas se a gente não deixar, leva tapa na cara.”, relata uma das vítimas de abuso sexual no relatório.

Um outro caso foi relatado por um morador anonimamente: “Eles entraram numa casa que era ocupada pelo tráfico. Lá havia dois garotos e três meninas. As meninas eram namoradas de traficantes. Era pra ser todo mundo preso, mas o que aconteceu é que os policiais ficaram horas na casa, estupraram as três meninas e espancaram os garotos. Isso não pode estar certo.”.

O uso de drogas por agentes da repressão também foi relatado. “O caveira [militar] parou e colocou uma carreira de pó no capo do carro e mandou ver. Nunca vi ninguém cheirar e ficar endemoniado como aquele polícia. Antes ele estava passando sério e sem dar nem um 'tchum' pra nós. Depois parecia um capeta”, disse um morador.

Além disso, a prática do banditismo parece também atrair os militares, segundo relata uma moradora aos defensores públicos: “O Exército entrou aqui no bar e roubou o videogame do meu filho, comeu nossa mercadoria, levou a bebida, foram mais de 4 mil de prejuízo. A gente trabalha para ter esse pouco e eles fazem isso”.

Terror no Chapadão

Na última semana de setembro, seguidas operações da polícia em conjunto com as Forças Armadas têm levado o terror aos mais de 50 mil moradores do Complexo do Chapadão, na zona norte do Rio de Janeiro. Policiais do Grupamento de Ações Táticas (GAT) do 41º Batalhão da PM (Irajá) foram ao Chapadão em distintos horários, dando início a tiroteios intensos que deixaram trabalhadores e crianças que saiam para a escola encurralados.

No dia 18, enquanto policiais circulavam pelas favelas do Chapadão e Pedreira, um tiro atingiu a janela de uma sala de aula do Centro Integrado de Educação Pública (Ciep) Raul Seixas, em Costa Barros. A unidade fica a poucos metros de outra escola pública, a Escola Municipal JornalistaDaniel Piza, onde a menina Maria Eduarda, de 13 anos, foi baleada e morta em março de 2017 durante operação do mesmo batalhão (apelidado por moradores da região como “o batalhão da morte”). Por sorte, ninguém foi atingido pelo disparo que acertou o Ciep e, nos dias seguintes, as aulas foram suspensas por precaução.

No dia anterior (17), o jornalista Daniel Lucas Delfino, 27 anos, passava pela Rua Francisco Portela, perto da favela Gogó da Ema, no Complexo do Chapadão, quando foi atingido por um tiro de fuzil na barriga. Na ocasião, também acontecia uma operação das tropas do velho Estado e disparos de fuzil podiam ser ouvidos por todo o bairro. Quando o atendimento médico chegou ao local, Daniel já estava morto.

— Eles [policiais] entraram nas casas, arrombaram portas, agrediram pessoas. Eles chegam de manhã ou à noite tocando o terror. Desde a morte do menino [Marcos Vinícius da Silva] da Maré eles proibiram o uso de helicóptero nessas operações, mas não dá para saber o que é pior, pois eles intensificaram as operações por terra e os tiros que vinham de cima agora vêm de qualquer direção — diz uma moradora do Morro do Chapadão à nossa reportagem.

No dia 27, familiares de vítimas da violência do Estado e moradores do Complexo do Chapadão fizeram um ato na frente do prédio do Ministério Público Estadual, no Centro do Rio de Janeiro, para protestar contra a rotina de terror vivida por milhares de trabalhadores que habitam a região da zona norte do Rio. Entre os presentes estava Bruna da Silva, mãedeMarcus Vinícius, de 14 anos, assassinado por policiais com um tiro nas costas no Complexo da Maré no dia 20 de junho deste ano. O jovem ia para escola uniformizado.

— A gente tenta correr, mas não dá. Meu filho correu, mas o helicóptero foi atrás e atirou. Cadê a polícia que não ajudou o meu filho, não socorreu o meu filho? A polícia do Rio de Janeiro não serve para gente. Ela não nos ajuda. Ela só nos mata. Nossos mortos têm voz e os nossos filhos não estão aqui, mas nós estamos. E é com sangue nos olhos que a gente vai lutar contra esse Estado. Nossa luta é justa, é pelas vidas de seres humanos, vidas negras e faveladas — diz Bruna em um discurso inflamado.

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