De Karl Marx ao Marxismo: Luta de classes, luta de duas linhas e linha de massas (Parte V)

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Nota da redação: Publicamos a seguir a quinta parte do documento De Karl Marx ao Marxismo, de autoria do Núcleo de Estudos do Marxismo-Leninismo-Maoismo. Nesta edição, os autores tratam da importante luta de duas linhas contra as concepções pequeno burguesas de Bakunin, em meio da qual ocorre também a imortal Comuna de Paris, marco da luta operária mundial, que fortaleceu também a compreensão da necessidade da Ditadura do Proletariado para a classe alcançar seu objetivo, o comunismo.

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Marx sendo reprimido por policiais renanos após publicar artigos críticos ao governo da Prússia, 1842
Marx sendo reprimido por policiais renanos após publicar artigos críticos ao governo da Prússia, 1842

A Comuna de Paris e a Conferência de Londres:
Luta de duas linhas contra o anarquismo e o reformismo

Dentre os encontros da I Internacional, alguns terão maior importância, pois foram nos quais se travou de forma concentrada as Lutas de Duas Linhas mais importantes da organização. A cada evento da Internacional, fortalecido pelo impacto da publicação de O Capital e pelo próprio desenvolvimento da luta de classes na Europa, o Marxismo foi aos poucos se impondo como a única ideologia verdadeiramente proletária, porque científica, e a própria I Internacional foi avançando na sua qualidade ideológica.

No Congresso de Bruxelas, em 1868, pela primeira vez na história da I Internacional é incluído em seu programa a consigna da “apropriação dos meios de produção”; essa decisão marca o assumimento da I Internacional de um programa socialista. Bakunin ingressará, no ano seguinte, na organização representando a sua Seção Suíça. Após a morte de Proudhon e Lassalle, Bakunin se tornou o principal representante do socialismo pequeno-burguês na Europa, seu ingresso na I Internacional exigirá da Fração Vermelha marxista a intensificação da luta de duas linhas, o que também foi decisivo para o desenvolvimento da ideologia do proletariado. Em 1870, Bakunin foi derrotado pelos revolucionários russos na Seção Suíça da I Internacional  e, em 1872, seria expulso da organização pelo Congresso de Haia.

O anarquismo, desenvolvido de maneira mais completa e decadente por Bakunin, representava a mistura eclética de elementos do proudhonismo, do lassallismo, das posições burguesas do tipo blanquistas, aspectos do reformismo inglês, e do populismo russo. A ideologia não-científica e pequeno burguesa de Bakunin incorporava  do proudhonismo a sua defesa da forma de propriedade da pequena burguesia urbana; do lassallismo a sua aversão à luta salarial do proletariado industrial; do reformismo inglês a sua repulsa à luta nacional dos irlandeses; do blanquismo a fraseologia da ação revolucionária independente da participação das massas; e do populismo russo o niilismo e o individualismo extremo. O anarquismo representava portanto a linha oportunista pequeno-burguesa, mais desenvolvida e contra a qual o Marxismo travou sua luta de duas linhas mais importante no seu processo de conformação enquanto ideologia científica e universal do proletariado.

A luta contra as posições de Bakunin estavam apenas iniciando-se no seio da I Internacional quando, em março de 1871, estoura a Comuna de Paris, primeira experiência de assalto ao poder pelo proletariado e primeira experiência da ditadura do proletariado. Dentre as forças políticas da I Internacional, as que tiveram maior peso na direção da Comuna foram os blanquistas e os proudhonistas. O peso dos marxistas, dentre a direção dos communards, era minoritário, porém extremamente ativo. Apesar disso os marxistas se bateram com tremendo heroísmo nas batalhas de Paris e Karl Marx teve um papel decisivo na defesa política e ideológica do processo revolucionário francês. O Partido Operário Social-Democrata da Alemanha deu grandes provas de internacionalismo, defendendo publicamente a importância histórica da Comuna. Após sua derrota o Conselho Geral da I Internacional organizou de maneira decidida a solidariedade política e material aos exilados franceses.

A experiência da Comuna de Paris, as razões de sua derrota, comprovaram cabalmente a impossibilidade do socialismo pequeno-burguês, particularmente do anarquismo, de conduzir a revolução proletária ao triunfo. Os pontos positivos e negativos da Comuna, como nunca antes, serviram de lição ao proletariado sobre a necessidade do partido proletário, de seu exército revolucionário e a frente única para a conquista e defesa do poder, o exercício da ditadura do proletariado. A experiência concreta da Comuna mostrou como era vazia a proposição anarquista de destruição do Estado burguês sem sua imediata substituição por um Estado proletário, isto é, por sua ditadura revolucionária como condição única para se eliminar as classes sociais e assim o Estado extinguir-se. A experiência da Comuna comprovou que somente armado com seu próprio Estado o proletariado poderia expropriar da burguesia os meios de produção, concentrando-os em suas mãos.

E é esse balanço que Marx apresenta na Mensagem aprovada pelo Conselho Geral da Internacional, em junho de 1871. O impacto dessa Mensagem em toda a Europa e também na América foi enorme. Além de um balanço da Comuna, a Mensagem do Conselho Geral, assim como fora o Manifesto, constituía para a I Internacional a propagação de um completo e desenvolvido programa comunista, que além de propor a necessidade da ditadura do proletariado fazia o balanço de sua primeira experiência histórica e, antevendo os tempos futuros, proclamava de maneira profética que: A Comuna é imortal! A Mensagem do Conselho Geral teve uma difusão imediata, só na Inglaterra foram três edições no ano de 1871, sua tradução para outras línguas ocorreu no mesmo ano, pois era urgente ao proletariado de todo o mundo conhecer o balanço científico de sua primeira insurreição triunfante.

Em setembro de 1871, realiza-se a histórica Conferência de Londres da I Internacional. Essa Conferência representa o marco ideológico mais importante da esquerda no crescente MCI, pois nela estavam reunidos os setores mais avançados do movimento, que aprovam a Mensagem do Conselho Geral. Assim, a I Internacional assumia oficialmente o programa comunista e, ao mesmo tempo, colocava para si a necessidade de se constituir, portanto, em uma nova forma de organização. É o que claramente indica Engels em sua carta a Kugelman, quando afirma que a principal tarefa da conferência era a de “proceder a uma nova organização que corresponda às exigências da situação”. Ou seja, a Comuna de Paris colocava para o MCI que a tarefa mais importante naquele momento era a construção de Partidos Marxistas em cada país. A I Internacional havia cumprido sua missão histórica e eram necessárias novas formas de organização como único meio de fazer avançar o processo revolucionário e o desenvolvimento da ideologia do proletariado.

O discurso de Marx no encerramento da Conferência de Londres tem uma grande profundidade e aponta a necessidade da construção do que delineava-se  como os três instrumentos da revolução:

“Mas, antes que uma tal transformação possa ser efetuada, será necessária uma ditadura do proletariado, e o seu primeiro pressuposto será um exército do proletariado. As classes trabalhadoras têm de combater pelo direito à emancipação no campo de batalha. A tarefa da Internacional é organizar e unir as forças dos operários para a luta que está a chegar.” (Discurso de Marx por motivo de celebração do 7º aniversário da I Internacional, 25 de setembro de 1871).

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Karl Marx em seu ambiente de estudo, onde pôde extrair as leis da luta do proletariado e dar-lhe uma concepção científica
Karl Marx em seu ambiente de estudo, onde pôde extrair as leis da luta do proletariado e dar-lhe uma concepção científica

O Marxismo se impõe como a única ideologia científica do proletariado: o início de uma nova fase no Movimento Comunista Internacional

Após a Conferência de Londres, coube à esquerda a derrota cabal das posições anarquistas no Congresso de Haia. Todas as acusações dos poucos delegados anarquistas contra o Conselho Geral foram rechaçadas e o Congresso decidiu pelo fortalecimento dos poderes de sua direção e pela expulsão de Bakunin e de seu representante Gillaume das fileiras da I Internacional. Com a força científica de O Capital, com o heroísmo da Comuna de Paris e com o balanço programático da Mensagem do Conselho Geral, o Marxismo se conformou como única ideologia científica do proletariado, a única teoria científica do Comunismo. O Congresso de Haia marca essa vitória e a ausência de Bakunin, que fugiu da franca luta de duas linhas, preferindo seguir costurando intrigas sectárias, aliado agora com os reformistas ingleses, expressava a derrota completa do anarquismo e do socialismo pequeno-burguês diante do Marxismo. Desse período em diante, a ideologia burguesa nas fileiras do movimento operário só poderia confrontar a ideologia proletária sob a aparência “marxista”, em uma nova forma: o revisionismo. A sistematização e o complemento do desenvolvimento do Marxismo dar-se-á, a partir de então e, principalmente, na luta de duas linhas contra o revisionismo, num período no qual a luta de classes percorreu, nas palavras de Lenin, um “desenvolvimento relativamente pacífico”, que só seria encerrado com a primeira revolução Russa, em 1905. Serão essas contingências que buscaremos analisar na parte VI e VII do presente artigo.

Conclusão

Buscamos analisar o surgimento e desenvolvimento da ideologia científica do proletariado, o Marxismo, a partir do avanço da luta de classes do proletariado europeu, entre os anos de 1830 e 1871; da luta de duas linhas entre as organizações de vanguarda da classe operária, de como nessas organizações conformou-se uma esquerda, uma Fração Vermelha, a partir da qual desenvolveu-se um pensamento proletário e científico que representava a sustentação de uma chefatura reconhecida; de como essa Fração Vermelha, essa chefatura, manejando a linha de massas como meio correto de intervenção da vanguarda na luta de classes, logrou através da experiência concreta da luta revolucionária proletária enriquecer e complementar esta mesma ideologia. A partir do exposto pelo camarada Lenin e pelo Presidente Gonzalo, de que o Marxismo é conformado por três partes constitutivas, buscamos também analisar o desenvolvimento da ideologia científica do proletariado em suas partes constitutivas: a filosofia marxista, a economia política marxista e o socialismo científico. De maneira que apresentamos a seguinte síntese:

O pensamento marx forja-se em meio ao agravamento sem precedentes do antagonismo entre o proletariado e a burguesia, o que se expressa nos levantamentos de 1848, mas sobretudo na insurreição operária de junho daquele ano em Paris. A luta de duas linhas mais importante para a conformação do pensamento marx dá-se contra o socialismo pequeno-burguês de Proudhon. A Fração Vermelha dirigida por Marx derrota a linha direitista do proudhonismo no segundo Congresso da Liga dos Justos, que transforma-se em Liga dos Comunistas, adotando o lema: Proletários de todos os países, uni-vos!. Quanto a linha de massas, Marx manejou-a de maneira brilhante e a partir do balanço da insurreição operária de Paris de 1848, apresentado no documento A luta de classes em França, formulou o conceito de ditadura do proletariado. As principais obras do pensamento marx são: Miséria da Filosofia, de 1847, que em seu primeiro capítulo trata da economia política e no segundo da filosofia; o Manifesto do Partido Comunista, de 1848, que representa a formulação integral do socialismo científico. O pensamento marx, em suas três partes constitutivas, dava sustentação à condição de chefatura de Karl Marx do nascente Movimento Comunista Internacional.

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O Marxismo forja-se em meio a um novo ascenso do movimento operário na Europa, bem como do agravamento das lutas de libertação nacional dos irlandeses e poloneses; esse ascenso encontra seu apogeu na imortal Comuna de Paris, em 1871. É em meio a esse quadro da luta de classes que é fundada, em 1864, a I Internacional, sendo Marx eleito para seu Conselho Geral. O Comitê Permanente do Conselho Geral constitui-se como Fração Vermelha da I Internacional, tendo Marx como chefatura. A luta de duas linhas mais importantes na conformação do Marxismo se dá contra o anarquismo de Bakunin que, como já dito, mesclava os piores aspectos das linhas de direita de Proudhon, Lassalle, dos reformistas ingleses, dos populistas russos e das posições burguesas no movimento operário. O Marxismo também se enriquece com o sagaz balanço proposto por Marx da Comuna de Paris, manejando uma vez mais a linha de massas; é dessa experiência que Marx descobre a forma política da ditadura do proletariado, o governo centralizado operário como condição para sua emancipação econômica. As principais obras que fazem do pensamento marx o Marxismo são: O Capital, o seu Livro I, no qual estão plenamente desenvolvidas a filosofia marxista e a economia política marxista; e a Mensagem do Conselho Geral, sobre a Comuna, que representa um salto na formulação do socialismo científico, a partir do balanço histórico da primeira experiência da ditadura do proletariado. O Marxismo, plenamente desenvolvido em suas três partes constitutivas, se impôs, então, como a única teoria científica do Comunismo.

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