‘O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil’: A nada original ‘Doutrina Bolsonaro’

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No dia 26 de junho de 1964, o embaixador do regime militar brasileiro em Washington, Juraci Magalhães, dava a famosa declaração, segundo a qual “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.  Justificava sua frase com a velha cruzada anticomunista e a necessidade de “combater os russos”. Era esta, realmente, a diretriz político-militar vigente no nosso país a partir do golpe efetuado em março daquele ano.

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Cinco décadas e meia depois, o governo de extrema-direita, entusiasta da “revolução de 64” – cujo primeiro ato, não custa frisar, foi assinar um novo salário mínimo para 2019 inferior ao previsto por Temer – ofereceu ao USA a possibilidade de instalar uma base militar em nosso território. Indagado sobre as implicações que isto teria para a nossa soberania, Bolsonaro respondeu:

“A questão física pode ser até simbólica, hoje em dia, o poderio das forças armadas americana, soviética, chinesa, alcança o mundo todo, independente de base. Agora, de acordo com o que estiver acontecendo no mundo, quem sabe vamos discutir essa questão no futuro.”.

A história parece se repetir. Difícil é identificar quando como tragédia, quando como farsa.

Em primeiro lugar, é preciso alguém dizer a este senhor que não existem mais forças armadas “soviéticas” – talvez ele também não se sinta obrigado a possuir um conhecimento geográfico mínimo. Em segundo lugar, o que significa dizer que a “questão física poder ser simbólica”? Ter tropas estrangeiras estacionadas no País, perseguindo objetivos estratégicos próprios, seria mero “simbolismo”?

Sob este prisma, quase todas as guerras travadas atualmente no mundo seriam também simbólicas. “Simbólica” a agressão norte-americana à Síria, ao Afeganistão, ao Iêmen, Iraque... Na verdade, o que diz Bolsonaro é que estes exércitos de agressão são invencíveis. O que não deixa de ser muito útil, porque desmascara o papel que se espera que as Forças Armadas de um país semicolonial como o nosso cumpram: no plano externo, força auxiliar das US Forces; no plano interno, guarda pretoriana a serviço dos interesses antipopulares e antinacionais, polícia política contrarrevolucionária. Policiais fardando verde-oliva, em suma, como bem sabe o sr. Augusto Heleno, entusiasta das atrocidades que os “capacetes azuis” cometeram no Haiti, na sua “honrosa” guerra travada contra uma população devorada pela fome, pelo desemprego e pela cólera.

Belo “nacionalismo” este: aos amos, a mais tacanha subserviência; ao próprio povo, desprezo e balas. Talvez por isso tenhamos tido, em 200 anos de independência formal dos países da América Latina, mais de 300 golpes militares, sempre a serviço das estruturas econômico-sociais anacrônicas que perpetuam a miséria dos nossos povos1.

É claro que esta visão torpe, subjugada e invertebrada da política e da história ignora, propositalmente, que estas forças ianques consideradas “invencíveis” foram de fato vencidas em diferentes ocasiões ao longo dos últimos sessenta anos, como nas guerras da Coreia, Vietnã, Afeganistão e Iraque. Provavelmente, os atuais fiéis de São Tio Sam nunca ouviram falar na humilhação que os mercenários financiados pela CIA sofreram na Baía dos Porcos, em Cuba... Recentemente, AND noticiou que o general Austin Scott Miller, recém-nomeado encarregado das operações do USA e da Otan no Afeganistão, declarou à NBC, sobre os combates naquele país: “Isso não pode ser vencido militarmente. Isso está indo para uma solução política”.

O Secretário de Estado ianque, Mike Pompeo, que tem conspirado abertamente – inclusive através de seus sicários na tal “Cúpula de Lima” – uma agressão à Venezuela, tampouco considera “simbólica” a presença de bases. Disse, repercutindo a declaração de Bolsonaro:

“Isso é algo que estamos constantemente avaliando aqui no USA: qual a melhor forma de ter bons parceiros na região, bons parceiros ao redor do mundo, e onde, quando e como instalar nossas US Forces. Essa é uma discussão colocada o tempo todo.”2.

No meio dos militares, a declaração do “mito” repercutiu mal e, para variar, ele teve que desdizer-se: afinal, mesmo a impostura (e talvez principalmente ela) merece algum recato para ser enunciada. Agora, como sempre, a “libertação do comunismo” é o mantra para aprisionar ainda mais nosso povo às garras do imperialismo.


Notas

1. Ver: Nelson Werneck Sodré, “O governo militar secreto”, ed. Bertrand Brasil, p.141.

2. https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ficamos-satisfeitos-com-a-oferta-da-base-militar-diz-pompeo,70002668765.

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