Os fantasmas de Bolsonaro

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Apesar de ter feito carreira no baixo clero do Congresso Nacional como deputado federal, o ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro conseguiu a proeza de transformar-se no novo gerente da semicolônia onde canta o sabiá arrotando um discurso anticorrupção. A ironia é que ele mal assumiu e já está tendo que responder sobre dinheiro não declarado à Receita Federal, funcionários fantasmas, e movimentações bancárias suspeitas vindas do gabinete do seu filho mais velho, o ex-deputado estadual e agora senador eleito pelo PSL na última farsa eleitoral, Flávio Bolsonaro.

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Bolsonaro trabalhou 28 anos como parlamentar e enriqueceu na boa-vida do Congresso
Bolsonaro trabalhou 28 anos como parlamentar e enriqueceu na boa-vida do Congresso

No dia 6 de dezembro, o jornal O Estado de São Paulo revelou que um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda, apontou que o policial militar Fabrício José Carlos Queiroz, ex-motorista de Flávio Bolsonaro e amigo de longa data de Jair Bolsonaro, realizou entre 1º de janeiro de 2016 e 31 de janeiro de 2017 movimentações bancárias no valor de R$ 1,23 milhão de reais. Segundo o relatório, esse valor é incompatível com o patrimônio e a renda do PM, que recebia o salário de R$ 8.517,16 como assessor parlamentar no gabinete de Flávio Bolsonaro, e rendimentos mensais de R$ 12,6 mil da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Essa incompatibilidade levantou suspeita de que tal valor seja fruto de corrupção ou dinheiro ilegal.

O cheque da primeira dama

Entre as movimentações suspeitas listadas pelo Coaf, está a emissão de cheques que somam R$ 24 mil reais para a futura primeira dama, Michelle Bolsonaro, pelo mesmo ex-assessor Fabrício Queiroz. Em suas redes sociais, o ex-deputado federal, que não registrou a transação em sua declaração de imposto de renda, afirmou que os cheques eram fruto de um empréstimo dado ao motorista. “Não foram 24 mil reais, foram 40 mil. Se o Coaf quiser retroagir um pouquinho mais, vai chegar nos 40 mil reais.”, disse ele. Sobre o cheque ter sido depositado na conta da esposa, Bolsonaro disse apenas que isso aconteceu porque ele “não tinha tempo de ir ao banco”.

O que ninguém explicou é como uma pessoa que movimenta mais de R$ 1,23 milhão na própria conta  precisa pedir R$ 40 mil reais emprestado para pagar dívidas pessoais.

Ainda segundo o relatório, todas as movimentações coincidem com o dia de pagamento dos servidores (nove servidores de Flávio Bolsonaro repassaram dinheiro ao motorista), o que aumenta a suspeita de que eles entregavam parte do salário para Queiroz.

Família toda no gabinete

A relação entre Jair Bolsonaro e Fabrício Queiroz era tão estreita, que praticamente toda a família do PM trabalhou no gabinete de seu filho. Da sua mulher, Márcia Oliveira, passando por suas filhas, Nathalia Melo de Queiroz e Evelyn Melo de Queiroz, todas trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro.

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No caso de Nathalia, a flexibilidade de horário chama a atenção. Reportagem do jornal Folha de São Paulo (14/12) revelou que ela teve outros empregos enquanto “batia ponto” no gabinete do deputado. Entre 2011 e 2012, por exemplo, ela trabalhou como recepcionista da academia Bodytech do shopping Nova América, ao mesmo tempo em que aparecia na folha de pagamento da Alerj. Já em 2016, o nome de Nathalia apareceu no Diário Oficial como secretária parlamentar de Jair Bolsonaro. Foi nesse período que ela ganhou fama de personal trainer de celebridades, e diversos clientes confirmaram que ela os atendia durante a semana, em horário comercial. Só para lembrar, o cargo de Nathalia na Câmara dos Deputados prevê 40 horas semanais no gabinete, portanto, mesmo sem trabalhar ela recebia uma renda bruta mensal de R$ 10.088,42, com rendimentos líquidos de R$ 7.733,21. Questionado pela imprensa, Jair Bolsonaro respondeu: “Ah, pelo amor de Deus, pergunta para o chefe de gabinete. Eu tenho 15 funcionários comigo.”

Assessores que não trabalham?

Outro que contava com a boa vontade de Flávio Bolsonaro é o tenente-coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Wellington Sérvulo Romano da Silva, que passou 400 dias em Portugal enquanto trabalhou com o parlamentar na Alerj no período de três anos. O tenente-coronel é citado no relatório do Coaf como um dos nove assessores e ex-assessores que faziam depósitos na conta do ex-motorista de Flávio Bolsonaro, Fabrício de Queiroz. Apesar de ter passado todo esse tempo em Portugal (segundo a mulher de Wellington atualmente eles vivem na cidade de Aveiro) a Alerj informou que no período em que trabalhou na casa ele jamais tirou licença (?). Curiosamente, Fabrício, sua filha Nathalia e o tenente-coronel Wellington foram exonerados no último dia 15 de outubro, duas semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais. Em novembro, Fabrício também deixou a PM do Rio depois de 35 anos de “trabalho”.

As suspeitas que recaem sobre o filho de Bolsonaro tem a ver com um esquema antigo dentro das casas legislativas pelo Brasil. O esquema consiste em que o político tem direito a, por exemplo, 15 assessores, recebendo da casa legislativa uma verba para remunerar cada um destes com um salário médio de, por exemplo, R$ 7 mil. O político, ao contrário de gastar toda a verba destinada para a contratação de assessores, decide então contratar apenas cinco assessores reais, que trabalharão de fato, e o resto das vagas destina-se a “laranjas” que receberão uma parcela deste salário para entrar no esquema e, em troca, destinarão parte dele de volta ao político. Essa é a forma de corrupção mais vulgar e baixa no seio da politicalha.

As movimentações financeiras suspeitas dos assessores de Flávio Bolsonaro, assim como as comprovações de que parte de seus assessores não trabalhavam de verdade, levantam a suspeita de que este tipo de corrupção estava sendo praticada pelo filho mais velho do “guru da moral e da ética”. Esta suspeita não é nada surpreendente para uma família de políticos que enriqueceu na vida-mansa do parlamento, no convívio íntimo dos piores bandidos que a nação conhece.

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