Exportação não é a solução

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Nunca foi .

Desde os tempos da colônia, as nossas riquezas naturais são "exportadas" sem que isto traduza uma vida melhor para nós, nativos deste Brasil.

Saiu pau-brasil, pura e simplesmente extraído e surrupiado. Ouro, diamante, minério, arrancado do solo para o exterior. Se passarmos para os produtos agrícolas, açúcar, café e, agora, soja, as plantações são inventadas apenas no interesse do comércio com as grandes corporações e seus governos exploradores.

Sempre levam a riqueza, ficam o buraco e a miséria.

Em Trayras — Goiás, isto está muito bem estampado.

Com o ouro descoberto no rio do mesmo nome, afluente do Maranhão, na segunda metade do século XVIII, relatos históricos indicam um local com centenas de casas e milhares de escravos. Hoje, resume-se a cinco casas, igreja e cadeia (enxovia) em ruínas; o ponto final do escravismo e do modelo colonial. O ouro esgotou, foi todo transferido para o exterior.

A borracha deixou, apenas, um imponente teatro em Manaus, réplica de um prédio francês. E ninguém ali conta como enriqueceram os sanguinários seringalistas, as casas aviadoras estrangeiras, como foram exterminadas inúmeras nações indígenas e tudo o mais que se passava sob o regime de semiescravidão a que submeteram centenas e centenas de seringueiros.

O açúcar, há séculos viçoso no Nordeste, jamais retribuiu uma vida de qualidade para os brasileiros que plantam e colhem a cana. E de quebra a produção latifundiária destruiu toda a Mata Atlântica do Nordeste.

O cacau brasileiro de tempos áureos, mantendo uma estrutura semi-feudal que possibilita a mais cruel exploração, hoje está relegado a um segundo plano porque os fabricantes de chocolate (principalmente da Europa) preferem o cacau da Costa do Marfim — quase todo colhido com o trabalho escravo infantil, conforme constatou recente reportagem produzida por uma agência independente na TV a cabo.

Cada dia pior

O soja, com a maior safra de todos os tempos, engolindo e derrubando os cerrados do Centro-Oeste, plantado com sementes naturais, tem vigoroso e ilegal assédio das sementes transgênicas da Monsanto para serem resistentes ao herbicida da empresa, nocivo ao soja natural e com descendência difícil. Toda a producão do soja rapidamente estará nas mãos da empresa porque o monopólio das sementes desfruta de preços de acordo com seus interesses estrangeiros e monopolistas. Ficam na sua dependência faixas gigantescas de terra a ser impiedosamente degradadas, com os antigos ocupantes empurrados para as periferias das cidades onde compõem cinturões de miséria — exemplo vivo da absurda legitimação dos interesses das grandes corporações estrangeiras. Até medidas provisórias rapidamente adotadas visando não só "legalizar" a presença de sementes transgênicas estrangeiras contrabandeadas como sabotar pesquisas brasileiras avançadas para o setor.

Os ambientalistas oficiais e "civis", esses radicais ongueiros que atuam como comensais nos cofres públicos, calam-se subitamente. Afinal, atingiram o seu objetivo.

Planta não pode ter monopólio de patente. Não percamos o maior tesouro: nossas sementes.

O soja é exportado, principalmente, para ser ração de bicho no exterior.

É um absurdo, mas não é divulgado para a população que todo produto exportado pelo Brasil, tem total isenção de impostos.

Indo para fora: zero de imposto.

Ainda existe um "cala-boca" para alguns governos municipais e estaduais. Criaram uma compensação pela arrecadação perdida com as isenções que beneficiam os especuladores.

Aí, o governo federal desvia o que você, eu e todos os brasileiros pagamos através de inúmeras taxas e impostos que se multiplicam contra nós para alimentar a máquina federal, estadual e municipal e que deveriam ser recolhidas dos lucros dos exportadores isentados, muitas vezes firmas estrangeiras. Vil mercantilismo colonial que só beneficia os exploradores de fora e seus sócios internos.

Cruel ciranda de exploração

O ferrogusa, na sua fabricação, utiliza a madeira das nossas matas transformadas em carvão. Quase toda a produção é mandada para o exterior com total isenção de impostos. O ferrogusa, fornecido à indústria de artefatos de ferro ao lado, paga cerca de trinta por cento de impostos. E ainda haverá acusações que nos responsabilizam pelo desmatamento das nossas florestas...

A saca de café de 60 quilos é exportada a quarenta dólares. No exterior, torrefado, reduz-se a 48 quilos e, sob a forma de pó, o café é vendido em xícaras, a 1,75 dólares. Isto rende, somente para o dono da cafeteria estrangeira, quase doze mil dólares.

Em contraste, o brasileiro que colheu o café, recebe dez reais por dia — 300 reais por mês, trabalho de bóia fria, desemprego.

Brasileiro escravo

É uma situação pior que a da escravidão, porque ao escravo o seu dono tinha de alimentá-lo e dar-lhe um pano de algodão para vestir.

Agora, o coitado do trabalhador "livre" tem que prover de roupa e alimentar a si e seus filhos, quando o pagamento pelo seu trabalho não chega ao nível de um salário, mesmo quando oficial. Vamos continuar aceitando esta indignidade em pleno século XXI?

A grande embromação do "mercado", com preços estabelecidos pelos compradores europeus e americanos, cota o nosso minério de ferro baseado no ferro americano (de Wisconsin), que tem teores de 30% de ferro e o nosso, de Carajás, tem no mínimo 60%. Portanto, para cada tonelada que compram, damos de presente a eles mais de trezentos quilos de ferro. Por isto, grandes navios graneleiros americanos e japoneses se apressam em levar o mais que puderem daqui para estocar na sua região. Ficará, novamente, um buracão e uma miséria sem tamanho.

A cotação atual do minério de ferro — 5 a 7 dólares a tonelada — é estabelecida no exterior (por quê?). No instante em que um brasileiro viaja para passar uma semana nos USA, gastando 4.500 dólares, 65 caminhões abarrotados de minério brasileiro são necessários para adquirir a moeda que pague a permanência do nosso viajante naquele país. Exatamente: 65 caminhões com minério de ferro extraído da nossa terra vão corresponder a apenas 4.500 dólares.

É justo?

Claro que não, porque as nossas riquezas decididamente têm de ser negociadas por preços que permitam aos trabalhadores e produtores criarem os seus filhos com dignidade e honra. Além disto, principalmente alimentos não podem ser exportados se não há excedentes. Não se pode exportar o que falta para o nosso povo.

Também soja e açúcar são exportados a preço vil, com isenção de impostos, e a nós, com milhões de brasileiros arrastados à fome, querem nos entorpecer com a ridícula campanha de esmola — o tal Fome Zero — financiada em dólares que, novamente, aumentam a divida.

Brasileiros não querem esmolas, exigem salários que correspondam às necessidades de u ma vida digna e honrada. O comércio entre nações só pode ser realizado mediante um pagamento justo pelas riquezas que livremente quisermos negociar.

Chega de "doação" ao estrangeiro explorador!
Exportação não é a solução!
Nunca foi.


O Dr. Rui Nogueira, médico e escritor, é constantemente solicitado para proferir palestras nas diversas regiões do Brasil. Ele é autor de Servos da Moeda; Petrobrás, orgulho de ser brasileira; Amazônia império das águas e Nação do Sol.
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www.nacaodosol.org

Lições sobre perda de pescoços

No primeiro número do A Nova Democracia publicamos um artigo do saudoso professor e economista Lauro Campos, intiulado Os déspotas sem Pescoço. Neste artigo, O professor Lauro Campos defende a tese de que quando o país aumenta as exportações ele empobrece, porque ele transfere riqueza líquida real para o exrterior.

"Para as economias poderosas e dominantes, o déficit comercial é a expressão de sua moeda, exército, capacidade de espoliação e exploraçãoda periferia. Se os países ricos exportassem mais do que os valores que importam, estariam transferindo riquezas para as colônias e, logo, sendo explorados pelos escravos", afirmou o Professor.

Enquanto isso, ainda de acordo com Lauro Campos, "Os periféricos só conseguem se tornar importadores líquidos de riqueza real, através do individamento externo crescente". Por sinal, foi isto que aconteceu com a farra importadora das administrações Collor/Itamar/FHC, paralela à liquidação do patrimônio estatal brasileiro, quando os dólares adquiridos com a privataria retornaram, de imediato, para pagar as bugingangas importadas. Foi assim com Dutra, logo após a II Guerra Mundial.

Ainda no artigo citado, O professor Lauro Campos chama a atenção para o fato de como a velha Inglaterra mercantilista tratava a questão da exportação: "Quem exportasse in natura na Inglaterra liberal, mercantilista, perdia a sua propriedade e era condenado a um ano de prisão e decepação da mão esquerda. Foi assim que surgiu o liberalismo inglês. Isso encontra-se no livro de Jacob Oser The Evolutiom of Economic Thought , pag 11. A pena de morte era aplicada em caso de reincidência.

Os ocupantes de turno do Palácio do Planalto, achando pouca a exploração Ianque do Brasil resolveram extendê-la a outros imperialistas como Japão, Alemanha, Rússia e China, criando as tais PPPs para a construção de rodovias, ferrovias e portos, visando acelerar o escoamento de produtos in natura . E fazem isto com a plena certeza de que manterão intocáveis seus pescoços.

Arrematando suas lições, o sábio professor aconselhava: igualmente, a solução não é superavit nem deficit; a inflação e deflação. Enquanto as determinações do processo produtivo-consuntivo continuar sendo a produção de mercadorias e não-mercadorias — formas sociais que assume o trabalho humano no modo capitalista de produção — o homem continuará na pré-história como dizia Marx. A solução é o socialismo.

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