A melhor herança do Cinema nacional

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Rosemberg Cariry — que Assis Ângelo nos apresenta como agitador cultural, idealizador e produtor do I Festival Internacional de Trovadores e Repentistas — é um cearense teimoso, amante do sertão e do cinema. Tudo isto combinado com a busca de dar prosseguimento ao trabalho dos que nos legaram a melhor herança do cinema nacional, deu uma expressiva contribuição ao cinema brasileiro, possibilitando ao mundo, através de vários festivais, entrar em contato com a temática sertaneja e extrair daí ensinamentos de resistência, tenacidade e bravura.

Filósofo de formação, cineasta por vocação, Antônio Rosemberg de Moura, de nome artístico Rosemberg Cariry, nasceu em Farias Brito, região do Cariri cearense, no ano de 1956. Começou sua carreira cinematográfica em 1975, com documentários de curta metragem sobre artistas populares e manifestações artísticas do Ceará.

Em 1986, realizou seu primeiro filme de longa-metragem (documentário), A Irmandade da Santa Cruz do Deserto, episódio de resistência camponesa que ocorreu em 1936 e que terminou tragicamente com a intervenção armada do governo e com milhares de camponeses mortos. Essa história era um tabu e foi abordada pela primeira vez, com grande repercussão. O filme foi premiado nacionalmente e recebeu convite para participar de festivais em Portugal e Cuba. A partir de 1987, Rosemberg Cariry foi contratado pela televisão .

Muitos prêmios na bagagem

Em 1993, quando a produção de cinema no país havia entrado em completo colapso, ele filmou, ainda como cineasta independente, seu segundo longa (ficção): A Saga do Guerreiro Alumioso. A ação se desenrola em uma cidade imaginária dos sertões. Ele mostra o confronto tradicional entre os camponeses e os grandes proprietários de terra, que será resolvido por um Dom Quixote sertanejo que se identifica com o mito de Lampião. O filme ganhou o prêmio de Melhor Filme do Júri Popular, Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante, no XXVI Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1993. A Saga do Guerreiro Alumioso marcou, de alguma forma, junto com três outros que foram produzidos na época, o movimento de resistência do cinema brasileiro. Esse filme foi selecionado para representar o Brasil no Festival dos Três Continentes, em Nantes (França), e participou de muitos outros festivais internacionais: Portugal, Itália, Bélgica, Turquia, Índia, África do Sul, Colômbia, Cuba, Canadá, USA, Uruguai, etc. Em 1995, Cariry obteve o Prêmio da Retomada do Cinema Brasileiro, em concurso realizado pelo Ministério da Cultura e pôde começar a produção do seu terceiro filme, o segundo de ficção, que se chamou Corisco e Dadá. O filme, baseado na história verídica do célebre casal de cangaceiros dos anos 40, mostra em toda a sua dimensão trágica a luta do homem pela sobrevivência nos sertões secos e miseráveis do Nordeste. Corisco e Dadá, um dos filmes do chamado “Renascimento do Cinema Brasileiro”, foi bem recebido pela crítica, teve lançamento comercial em muitas cidades brasileiras e obteve inúmeros prêmios no Brasil e no exterior, notadamente o Prêmio do Grande Coral (3º prêmio), em Havana (Cuba) e o Prêmio Cittá del Vasto (Adventure Film Festival), na Itália.

Cineasta, escritor e poeta

Em 1997, exerceu o cargo de Secretário de Cultura da cidade de Crato, Ceará, ocasião em que implantou o Projeto de Revitalização de Favelas através da cultura e das artes populares, criou o Parque Histórico do Caldeirão, produziu o I Encontro das Culturas Populares do Nordeste e revitalizou grupos de cultura popular e festas tradicionais da região. De 1996 a 2001 fez inúmeras viagens para Europa, notadamente para França, onde realizou pesquisas históricas e escreveu o roteiro e o projeto do filme Les Esclaves de Job.

Nos anos de 2000 e 2001, idealizou e foi curador, em Fortaleza, do projeto Natal da Gente, grande encontro das manifestações artísticas populares do ciclo natalino de todo o Nordeste. Em 2001, produziu e dirigiu um longa de ficção chamado Lua Cambará — Nas Escadarias do Palácio, finalizado em 2002.

Em 2003, Rosemberg Cariry iniciou Cine Tapuia, que narra as aventuras e desventuras do Cego Araquém e da sua filha Iracema, cinemeiros ambulantes que vagam pelo sertão, projetando fragmentos de velhos filmes sobre a história e a cultura do Ceará. À margem da história, acontece a paixão de Iracema por Martim, um jovem português, vendedor ambulante de CDs piratas e outras bugigangas. O filme revisita a figura lendária do Cego Aderaldo e a dramaturgia de José de Alencar, que elaborou no romance Iracema o mito fundador do povo cearense.

Paralelamente à sua atividade de cineasta, Rosemberg Cariry desenvolveu um trabalho como escritor e poeta, tendo ativa participação nos movimentos artísticos e literários do Ceará. Produziu e fez direção artística de vários discos e CDs de artistas cearenses. Atualmente é presidente da Associação de Produtores e Cineastas do Norte e Nordeste — APCNN, e do Instituto Internacional de Intercâmbio e Cooperação Artística e Cultural — Interarte, sendo curador do Festival Internacional de Trovadores e Repentistas (quadro na página ao lado) e da Mostra de Cinema Sertão, Repente e Canção.

O melhor do cinema nacional

Indagado pelo A Nova Democracia sobre qual herança devemos preservar como cinema nacional, Cariry assim se colocou:

— O cinema brasileiro tem uma trindade. Humberto Mauro, com seu lirismo interiorano e cheio da delicadeza de um país que se descobria futuro, é o pai. Gláuber, com seu sertão barroco e violento, é o filho. O espírito dos Orixás, o homem que acendeu uma candeia na escuridão de um tempo e com luz esculpiu mil rostos mestiços para o povo brasileiro em movimento chama-se Nelson Pereira de todos os Santos. Nelson é um homem de origem popular e, por isso mesmo, herdeiro de saberes e sensibilidades coletivas que deram ao seu cinema éticas e estéticas de feitio único. Se o cinema de Nelson nasce em tempo de mudanças profundas em todo o mundo, sofrendo, por igual, as influências do seu tempo, é também verdade que ele soube unir essa herança plural em um cinema marcado pela originalidade e pela brasilidade.

A sua câmera, enamorada do realismo italiano e da nouvelle vague francesa, sobe os morros cariocas e descobre, nos sambistas explorados e marginalizados, uma tristeza tão triste como nenhum cantor dos trópicos antes sonhara sentir e uma beleza tão bela que nenhum poeta carioca antes ousara perceber. O moderno cinema brasileiro é inventado por Nelson Pereira dos Santos nos morros cariocas. Rio 40 Graus e Rio Zona Norte são filmes que nomeiam o tesouro da cultura e das artes afro-brasileiras e afirmam o samba como expressão da brasilidade. A arte da elite brasileira tem ressentimento e medo do povo.

O Cinema Novo era Nelson Pereira dos Santos. Glauber, o filho, era o propagandista; o homem da cobra, o vendedor da pomada Padre Cícero e do Bálsamo da Vida. No entanto, era impossível inventar o Brasil apenas com os morros cariocas, era preciso um outro mergulho na alma e na carne do Brasil profundo. Diz um provérbio espanhol que Deus faz os doidos e que eles se procuram. Parafraseando, eu diria: Deus faz os gênios e eles se encontram.

O encontro de Nelson Pereira dos Santos com o austero Graciliano Ramos iria gerar o mais importante filme brasileiro de todos os tempos: Vidas Secas, que é um ensaio brasileiro de humanismo e universalidade. O filme é uma obra-prima realizada em uma paisagem de vazios e essencialidades; uma paisagem captada com a precisão e a verdade transcendental de um monge Zen quando pinta os seus bambus sobre os vazios. Mesmo fixos pela nanquim, os bambus das pinturas Zen tremulam ao vento. O sertão era a gênese. Nessa paisagem, o silêncio é uma faca-gemido-de-carro-de-boi cortando a alma e a poesia se faz toda de pedra, de marmeleiros raquíticos, de arribançãs desesperadas, de lágrimas secas, de poeira de veredas, de papagaio mudo que alimenta a tristeza das crianças e de uma cadela chamada Baleia, a qual chora com mais intensidade do que mesmo os homens. Tudo bicho, ainda misturado à natureza, em busca de consciência e de humanidade; tudo barro seco em busca do sopro de Deus.

A poesia de Vidas Secas é eterna e a fotografia, talhada na celulóide, com se fosse xilogravura cortada na umburana bravia, só poderia nascer da alma ensolarada de um sertanejo das ribeiras do Acaraú: o cearense Luiz Carlos Barreto.

Vidas Secas é um filme eterno e toca a alma mais profunda da paisagem, onde o Brasil foi inventado em sua universalidade: o sertão. Depois de Nelson, como em Guimarães, os sertões passaram a carecer de porteiras e se estenderam até as areias do Saara, até as estepes russas, até os desertões da Andaluzia, até o imaginário do mundo: Cannes, Berlim, Moscou, Veneza, Tóquio, Pequim, Calcutá, Chicago e Cuba.

O cinema de Nelson influencia novas gerações de cineastas em todo o mundo. Nelson Pereira dos Santos é o mais importante cineasta brasileiro do século XX. Mesmo assim, não existe um Nelson a ser seguido, Nelson apenas apontou a floresta e é o nosso caminhar quem faz o caminho. De Nelson nós aprendemos o humanismo, a brasilidade, a poesia e, nestes tempos de brutalidades e anti-humanismos, a dádiva da delicadeza. Em Nelson Pereira dos Santos a estética não se separa da ética e isto é uma lição preciosa.

O universal no sertão

Existe então um caráter universal na temática sertaneja? Segundo Cariry, sim.

— O sertão é uma geografia real e mítica de fundamental importância na formação da identidade do povo brasileiro. Uma terra sem mel, sem esperança e sem misericórdia. Terra indômita onde o homem é sempre um sobrevivente e existe como uma espécie de Sísifo, recomeçando sempre a reconstrução do destruído.

Uma terra de vazios e de essencialidades, onde a flora é raquítica, a fauna é escassa e a água é pouca. A única fartura é a do sol queimando o mundo e devorando os próprios filhos. Até final do século XIX, os sertões viviam no mais completo isolamento. Nas vastidões dos latifúndios sertanejos quase nunca chegavam as leis do Estado. Os grandes proprietários rurais eram senhores da lei, da vida e da morte. O escritor Guimarães Rosa estabeleceu os limites dos sertões no “sem fim” e fala de um “outro sertão”, cósmico e imemorial, que habita a alma do homem.

Os sertões são reais e imaginários, arcaicos e modernos, locais e universais. Nos sertões do Nordeste brasileiro deu-se o encontro/desencontro de mundos; nações, povos e culturas se enfrentaram e se misturaram no que se poderia hoje chamar de cultura nacional. Os africanos e ameríndios (escravos), os senhores colonizadores católicos portugueses, e ainda, os aventureiros chegados de toda a Europa (judeus, calvinistas, luteranos, ciganos), fizeram o caldo étnico cultural formador da brasilidade.

A cultura dos sertões é formada, portanto, pelas principais vertentes das culturas medievais européias que viriam mesclar-se e sincretizar-se com a imensa diversidade das culturas indígenas e afro-brasileiras. O antropólogo Darcy Ribeiro refere-se à cultura nascida desse enfrentamento como sendo uma “cultura herdeira de todas as taras e talentos da humanidade”. A cultura dos sertões, pela diversidade e complexidade de suas manifestações, é pedra fundamental na qual se basearam os pilares de sustentação da cultura brasileira, em suas diversas áreas: a literatura, o teatro, a música, a dança, as artes plásticas e o cinema.

O grande movimento de renovação do cinema brasileiro, com grande repercussão internacional, viria com o chamado Cinema Novo, na década de 60. Esse cinema, esteticamente arrojado, apaixonado e rebelde, não pode ser pensado sem o sertão e a sua cultura. Foi, no sertão, que os jovens cineastas foram buscar o drama do subdesenvolvimento, o germe da revolução, os mitos universais, a tragédia do homem. Exemplos disso são alguns clássicos do cinema brasileiro: Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha e Os Fuzis de Rui Guerra, entre tantos outros.

No chamado renascimento do cinema brasileiro, a partir de 1994, houve um retorno ao sertão enquanto busca de universalidade. Tudo isso mostra a permanência, a diversidade, a universalidade e o vigor das culturas sertânicas, inseridas em um contexto de modernidade. Os filmes A Saga do Guerreiro Alumioso (1993), Corisco e Dadá, Lua Cambará, Juazeiro — A Nova Jerusalém e Cine Tapuia, meus, bem como Sertões de Memórias e As Tentações do Irmão Sebastião, de José Araújo, Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, Milagre em Juazeiro de Wolney Oliveira ou Amarelo Manga de Cláudio Assis, entre outros, bem marcam o início das novas visões sobre o sertão, no chamado “Renascimento do Cinema Brasileiro”. Um cinema do sertão profundo, realizado por pessoas que nasceram nesse sertão e que marca um diferencial do sertão retratado por cineasta do sudeste do país. A presença da cultura dos sertões dá-se em todas as áreas artísticas e, ainda hoje, é marcante no imaginário nacional e mesmo internacional.

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