O clássico e o erudito na música brasileira

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Na União Soviética e na China socialistas, os teatros e as salas de concerto viviam lotadas de proletários que admiravam tanto a música clássica como a ópera e o teatro clássico. Dia virá que operários e camponeses brasileiros ouvirão programas educativos de música clássica nas rádios e encherão nossas casas de espetáculos para assistirem apresentações do melhor que este gênero já produziu

Heloísa Fisher, 37 anos, é uma pessoa obstinada pela difusão da música clássica no Brasil. Ela já foi diretora de uma emissora de rádio voltada para os amantes dos concertos, sinfonias e óperas. Em 1994 criou a VivaMúsica, uma agência de comunicação e notícias especializada em música clássica. Desde então, com uma revista, um anuário — única obra de referência sobre o tema, anunciando orquestras sinfônicas, filarmônicas, cameratas, os músicos e discografia — e uma agenda de eventos e concertos, além de programas nas rádios MEC, do Rio, e Cultura, de São Paulo, vem lutando para ampliar os espaços para a música clássica.

Alguns musicólogos consideram que o nome “Clássica” é reservado à música erudita produzida no período da história da música designado por Era Clássica (1730 a 1827). Na música clássica/erudita raramente aparece alguém que cante (um tenor em uma ópera) ou toque sem conhecer as notações musicais, a partitura, porque esta exige erudição lingüística, daí o nome erudita. É uma música que pede que os seus intérpretes tenham estudo aprofundado da prática musical em escolas e conservatórios. Segundo o compositor Gilberto Mendes, o nome clássica é sinônimo para erudita.

Apesar de significar, para alguns, somente a música que foi composta durante a Era Clássica, o termo Música Clássica é muito bem aceito no meio musical e, em geral, confunde-se com a música erudita. O próprio Gilberto Mendes é conhecido como um compositor de música clássica, mas quando perguntado que música escreve, responde que é compositor de música erudita brasileira contemporânea.

— O Brasil tem uma longa tradição de composição na área da música clássica, tanto no ponto de vista de criação, composição, do fazer música, quanto tocar música —, diz Heloísa. Para ela, essa produção começou no período barroco, no século XVII, e já no século XIX surgiu um grande expoente: o compositor Carlos Gomes (1836 - 1896).

— Na Itália ele foi comparado aos grandes da época. Inclusive, existe atualmente um busto seu no Teatro Scala, na cidade de Milão, que é uma das mais tradicionais e importantes casas de ópera no circuito de música clássica —, comenta Heloísa.

Ela conta que a música clássica sempre teve uma grande ligação com os palácios, com o poder, longe do contato com o povo. E, quase sempre, esteve na dependência do poder vigente. No Brasil, por exemplo, Carlos Gomes é um exemplo dessa ligação perigosa: o imperador reconheceu o seu talento e investiu em sua carreira. Mas, com a queda da monarquia, Carlos Gomes passou a ser perseguido pelos republicanos.

— Quando houve a transição do poder, ele foi totalmente cortado, relegado ao quinto plano, acabou entrando em depressão e morrendo, tudo porque não estava identificado com a política que atuava no momento. Quer dizer, a música sofreu as conseqüências de uma picuinha — diz Heloísa, lembrando que além dele, muitos outros produziam música clássica brasileira naqueles anos. Ela lembra Villa-Lobos (1887 - 1959), músico considerado gênio, e que também esteve ligado ao poder vigente, no caso, o governo Vargas.

Segundo Heloísa, os compositores de música clássica brasileira, ou música erudita contemporânea brasileira, sobrevivem da música com dificuldades, geralmente compondo para eventos, dando aulas em universidades e gravando alguns CDs, nos poucos selos que os recebem.

— Não temos no Brasil a figura do compositor residente, comum em orquestras na Europa, que são contratados para compor para um determinado festival, etc. Além disso, eles sofrem um preconceito que existe dentro do próprio meio musical que produz concertos. Os empresários deste ramo, que colocam em segundo plano tudo aquilo que é brasileiro, quer dizer, quando produzem um concerto preferem os nomes estrangeiros, como Mozart e Beethoven. Estes são sem dúvida fantásticos, mas também temos muitos talentos do passado, como Villa-Lobos, e do presente, como Ronaldo Miranda e Gilberto Mendes, entre outros —, declara.

Isso significa que estes compositores sofrem dois preconceitos: o primeiro de fazer música erudita em um país que não dá espaço para isso e o segundo de, quando acontece de se abrir espaço para essa música, serem preteridos aos compositores estrangeiros, mestres, mas não únicos no mundo.

O povo e o gosto pela música

Segundo musicólogos, apesar de tratar-se de uma música mais complexa e elaborada, não é necessário que o povo conheça de música, em sua notação musical, para gostar. Também não é necessário que saiba tocar algum instrumento, basta que tenha uma preparação para isso.

— Na verdade, os nossos ouvidos não estão acostumados com música instrumental e sim com a cantada, com três minutos, e basicamente em inglês e português. Uma música em italiano, por si, já é diferente de escutar. E quando falamos de um tipo de música que tem quarenta, quarenta e cinco minutos, é dividida em três partes de quinze minutos, por exemplo, sendo que acaba uma parte, faz-se um intervalo, começa-se outra, mas é a mesma música, é algo ainda mais diferente —, explica Heloísa. A idéia de que a música clássica é para os ricos, em contraste com a música popular, que seria para os pobres, é falsa e pura aparência. A maioria dos ricos é tão absorvida com mil futilidades que é uma pequena parte que tem a sensibilidade para o gosto da musica clássica. Na verdade, é a divisão da sociedade em classes e a super-exploração capitalista que criam esta grande distância entre a música clássica e o povo, impedindo-o de ter acesso a ela.

Por enquanto a educação musical do brasileiro deixa muito a desejar, não por sua culpa, mas, pela invasão cultural de péssímo gosto e pelo domínio dos meios de comunicação por parte da indústria cultural estrangeira.

Muitos clássicos, porém, foram popularizados pela força do marketing ao serem incluídos em filmes, anúncios publicitários, etc, muitas vezes explorados até a exaustão. Não há nenhum mérito, pode acontecer com qualquer gênero, é apenas o mercado em ação.

Na música clássica por acaso

Segundo Heloísa, o seu interesse pela música clássica foi providencial. Formada em jornalismo, trabalhou até 1993 em rádios do Rio.

— Desde a faculdade já comecei a estagiar em rádio, trabalhei no sistema JB, Rádio Globo, e, em 93, me chamaram para dirigir uma rádio que tinha acabado de ser montada: a Rádio Opus 90, especializada em música clássica, iniciativa privada única no Rio e no Brasil —, conta.

Até começar a trabalhar na Opus, Heloísa nunca havia tido o menor contato com música clássica e não tinha nenhum interesse no assunto, mas, acabou se apaixonando.

— Sou um exemplo de que a música clássica pode conquistar alguém que não tenha nenhuma formação musical e que não tenha nenhum interesse prévio. Na verdade, até conhecê-la eu fazia parte dos preconceituosos que acham essa música muito chata, sem conhecer, é claro —, conta Heloísa, acrescentando que também não toca nenhum instrumento musical.

Dentro da Opus 90, Heloísa se assustou com o volume de informação que esse segmento produz, quer dizer, a quantidade de pessoas interessadas em saber de música clássica, através dos muitos telefonemas diários que a rádio recebia. Por um ano Heloísa trabalhou na Opus, mas em 1994 a rádio foi vendida, melhor dizendo, funcionava em um local alugado e o dono vendeu o espaço para outra rádio.

A rádio acabou, mas Heloísa continuou com a música clássica e, em 94 mesmo, lançou a revista Viva Música, destinada a informar aos amantes de música clássica, quanto a concertos e eventos em geral. Em 95 criou o site VivaMúsica, com o mesmo intuito. Em 98 parou com a revista e passou a editar o Anuário VivaMúsica, destinado aos produtores de clássicos, e em 2002 lançou a Agenda VivaMúsica, uma publicação mensal, com 10 mil exemplares, que faz o mesmo trabalho que a revista fazia e é distribuída gratuitamente em locais para concertos, bares e livrarias da cidade do Rio de Janeiro. Nesses dez anos, Heloísa também trabalhou com programação de música clássica nas rádios MEC, do Rio, e Cultura, de São Paulo, e atualmente edita a revista Brasiliana, da academia brasileira de música. Ela tem tentado, de todas as formas que pode, levar música clássica para a população, porque acredita que qualquer pessoa pode aprender a apreciar esse tipo de música, e que o fato de não ser considerada popular tem muito a ver com a questão de sempre ter estado longe do povo. — Quando surgiu, no período clássico, na Europa, era uma música popular do seu tempo e o povo ia para a ópera. Já no Brasil, nunca houve esse tempo de música clássica popular. Desde a sua vinda para o país esteve ligada à corte, e até hoje está bem longe do povo. No momento, aqui no Rio somente a Rádio MEC toca música clássica —, conta.

Para Heloísa uma questão é muito importante e ela pretende trabalhar em seus projetos: a forma de apresentar esse estilo para o enorme número de brasileiros que ainda não tiveram contato com ele — segundo diz, somente cinco por cento da população têm contato com ele.

— A maneira de se apresentar música clássica para o povo, principalmente adolescente e jovem, não é levando-os para um local de concerto e mandando que se sentem e fiquem calados, durante quarenta e cinco minutos de uma sinfonia, e sim, através do rádio e dos eventos, com músicas apresentadas em menos tempo, quer dizer, se uma peça tem vinte minutos, tocamos somente quatro; se outra tem quarenta e cinco, mostramos apenas cinco, e assim por diante —, explica — Enquanto isso as pessoas ficam bebendo e ouvindo, não sendo obrigadas a ficar estáticas em uma cadeira de teatro. O silêncio é importante, mas depois que já se tenha um certo grau de atenção. É preciso “cutucar” a pessoa antes, para que ela goste. Nós fizemos um teste aqui no Rio e deu certo: fizemos uma exibição assim num ambiente bem diferente de uma sala de concerto, mas preparada para o evento, e foi ótimo. Esse formato também serve para programas de rádio. Quero levar música clássica para quem não conhece —, conclui.

Segundo Heloísa, nem o poder público, nem as orquestras e nem a imprensa se preocupam em atender aos noventa e cinco por cento da população brasileira que não tem contato com a música clássica. — Infelizmente, nós mesmos do VivaMúsica, por enquanto, só trabalhamos para os cinco por cento que já conhecem. Mas pretendemos mudar isso e passar a trabalhar para os outros também. A Agenda Viva-Música, por exemplo, era distribuída somente em salas de concertos, mas atualmente estamos colocando também em livrarias e bares da cidade, e é impressionante como desaparecem, quase que imediatamente após serem deixadas nos locais —, finaliza Heloísa Fischer.

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