O diário de um guerrilheiro boliviano do século XIX

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O projeto emancipador da América Espanhola não foi tão uniforme. De certa forma, a divisão política administrativa das Colônias Espanholas contribuiu para essa situação. Naquela época, as estratégias e os tempos de luta por emancipação no Vice-Reino da Nova Espanha (hoje México), as Capitanías Gerais da Guatemala, Chile e Assunção; os Vice-Reinos do Perú, Nova Granada (hoje Colômbia e Panamá), as Audiências de Quito (hoje Equador) e das Charcas (hoje Bolívia). Foram marcadas em diferentes rítmos específicos, pelos interesses das elites mestiças locais ou pelas alianças das elites das diversas regiões, nas quais a distância ou a proximidade regional marcaram pautas distintas.

Tanto é que dentro das lutas de libertação foram articulados discursos que reivindicavam o “hispano-americano”; mas, ao mesmo tempo, centralizavam propostas de repúblicas independentes, sendo uma proposta importante a de Simón Bolívar, que vinha da Venezuela e sua área de influência atingia os atuais territórios da Venezuela, Panamá, Colômbia, Equador, Perú e Bolívia.

Na América Central e México, as lutas estiveram menos coordenadas com os territórios coloniais sul-americanos; estando a região sul da América do Sul sob a área de influência do General José San Martín que compreendeu Argentina, Chile e Peru, em menor influência o Equador, o qual, depois de 1821, tentaram inutilmente concordar tanto com Bolívar como San Martín.

Na América do Sul, tanto o atual Peru (1821) como a Bolívia (1825), foram as mais complicadas para se declararem independentes da Coroa Espanhola, por serem centros administrativos de poder (Lima-Peru) ou por dotar de grandes quantidades de minerais a Espanha (Potosí-Bolívia); a Independência oficial desconsidera os processos e lutas por emancipação sustentadas antecipadamente a Independência, centrando mais em determinados acontecimentos, indivíduos e datas como o “grito libertário” de Pedro Domingo Murillo, que “cercou” (definitivamente ele não foi o único) a cidade de La Paz em 16 de julho de 1809.

Esta mesma historiografia, assinala que é a Batalha de Ayacucho (observar como uma das tantas batalhas que houveram) que sela a Independência de toda a América do sul, em dezembro de 1824. De fato, a importância desta batalha se apóia em que nela o exército liderado pelo marechal Antônio José de Sucre (proveniente da Venezuela e aliado na ação de Simón bolívar) derrota e consegue a capitulação do último Vice-Rei do Peru, La Serna.

Um breve relato

Por isso é que não quero entrar em crítica exceto sobre o que vi, o que soube e o que fiz; por isso mesmo te coloco na mão este curto diário histórico para que te situes melhor de todos os sucessos naqueles vales de uma ou outra parte (hoje províncias).

Tambor Mayor Vargas

Para aquela pessoa sensata, que não desiste de seu espírito crítico, não constitui um atrevimento apontar que a história oficial é uma história falsa, uma construção épica à serviço e à graça dos que detêm o poder; que separa da lista os nomes dos quais “fizeram a história” faltando com a verdade, omite grosseiramente de mencionar inúmeros anônimos que deram suas forças, seus últimos fôlegos de vida por uma causa que, bem ou mal, consideraram justa.

Nas salas de aula de nosso país é que se reproduz comumente o discurso oficial que tal ou qual benfeitor foi quem deu “liberdade”, a nosso permanentemente dizimado e menosprezado povo, ignorando tanto o professor — que serve de veículo desta falsa consciência —, como os próprios estudantes de escolas públicas, que foram seus próprios avós, tataravós e demais ancestrais que trabalharam, que derramaram seu sangue por “causas justas”, que às vezes não foram de todo para o povo, mas para um minúsculo grupo de personagens, que jamais se interessou em servir ao povo, mas, sim, servir-se dele.

Na Bolívia, tal nefasta tradição historiográfica, ao menos aquela que se difunde massivamente nas precárias escolas públicas, não é uma exceção. Daí é muito provável que as pesquisas históricas feitas com seriedade e responsabilidade circulem somente pelas mãos de poucas pessoas, sendo necessário destacar que muitas destas pesquisas ou se encontram em inglês ou em francês, e que muito raramente se encontram nas bibliotecas bolivianas, o que reduz ainda mais as possibilidades de acesso a estas pesquisas; por outro lado, não é novidade que a grande maioria dos acervos documentais da Bolívia limitam de maneira sistemática o acesso a fontes documentais e primárias para qualquer pessoa que não faça parte do sistema universitário.

Alguns aspectos sobre o diário

O Diário de Tambor Mayor Vargas foi escrito por José Santos Vargas, que, entre os anos de 1814 e 1825, tomou nota dos acontecimentos que ele viveu, estando à serviço de um exército guerrilheiro cujo objetivo era a independência da Coroa Espanhola, pela libertação da “pátria”. É um desses documentos que circulam de maneira restrita na Bolívia. De fato, sua exígua, mas valiosa difusão se realizou graças ao tenaz trabalho do desaparecido historiador, natural de Chuquisaca, Gunnar Mendoza, que esteve por mais de 50 anos trabalhando no Arquivo Nacional da Bolívia, com sede na cidade de Sucre, conseguindo uma primeira publicação do mesmo em 1952 e uma segunda edição 30 anos depois, mas na Cidade do México.

O Diário é zelado por alguns historiadores como o boliviano José Fellman Velarde, o historiador inglês Charles Arnade — que em seu livro A Dramática Insurgência da Bolívia, dedica várias páginas aos acontecimento descritos no diário —, o argentino O'Donnell, a historiadora francesa Marie-Danielle Demélas — que talvez seja a pesquisadora que tenha consagrado um trabalho investigativo mais profundo ao diário — e alguns artigos das historiadoras bolivianas contemporâneas Pilar Mendieta e María Del Pilar Gamarra; todos estes trabalhos da mesma forma que o documento testemunhal de Tambor Mayor Vargas, circulam em circuitos intelectuais delimitados. Tanto é que, num texto de uso massivo nas escolas bolivianas, História da Bolívia, de autoria do atual presidente da República, Carlos Mesa, junto com seus pais, José de Mesa e Teresa Gisbert, é mencionada a existência da guerrilha de Ayopaya sem maiores detalhes, como tampouco se dá maiores especificações num texto oficial de história que o Ministério da Educação editara há alguns anos, no marco da chamada Reforma Educacional, texto que é absolutamente desconhecido na grande maioria das escolas do país.

O Diário em menção rompe uma série de mitos criados pelo discurso oficial, pois constitui um contundente testemunho que demostra o feito das forças principais que lutaram e sustentaram a guerrilha por mais de uma década, sendo os índios e mestiços, oriundos e originários do lugar, e não como se costuma divulgar, que a independência boliviana foi obra do senhor Antônio José de Sucre e de uma legião de soldados provenientes do norte da América do Sul ou do General Simón Bolívar, quem por ser esta sua “filha predileta” recebeu o nome de Bolívia.

Quem foi Tambor Mayor Vargas?

Tambor Mayor Vargas, nascido em Oruro, foi um mestiço conhecedor das linguas quéchua e aymará, além do espanhol; órfão de pai e mãe, desde muito cedo ficou aos cuidados de uma tia; a tarefa que desenvolveu nas guerrilhas com sede principal em Sica Sica (Departamento de La Paz) e Ayopaya (Departamento de Cochabamba), foi como “tambor”, ou seja, munido de uma pequena caixa dava toques na mesma, significando a tradução sonora das instruções que os líderes davam, segundo as circuntâncias, para a tropa guerrilheira.

Como ele mesmo se esforça em sublinhar, não foi um homem notável, sendo motivado a participar na guerrilha e a tomar apontamentos por seu irmão mais velho. Contudo, seu trabalho é minucioso; dava descrição precisa dos cenários em que se desenvolveu a luta, as características dos participantes, o número de baixas e de feridos, realiza uma singular contabilidade das armas utilizadas pelo exército guerrilheiro, assim como as diversas e perigosas formas que estas foram adquiridas. Também é meticuloso ao narrar em detalhes a forma como sua tropa realizava seus deslocamentos, tanto a pé como a cavalo, as formas de cercar o inimigo, a habilidade no uso de disfarce nas florestas onde eram travados os combates guerrilheiros, assim como as múltiplas formas que assumiu a guerrilha em relação às variações étnicas que se davam num ou noutro contexto espacial e socio-demográfico.

Os palcos da guerrilha de Ayopaya e Sica Sica

O desenvolvimento das atividades se realizou numa vasta extensão geográfica que corresponde a parte dos Departamentos de La Paz, Oruro e Cochabamba; o que implica especificar um grande número de províncias, distritos e comunidades camponesas que atravessavam diversas áreas de florestas que iam desde aproximadamente os 2.000 a 4.000 metros sobre o nível do mar, numa complicada geografia que abrangia estepes e altiplanos como os de Sica Sica (La Paz), Caracollo (Oruro), vales como o de Inquisivi e Palca (La Paz), Ayopaya, Sipe Sipe, Vinto e Quillacollo (Cochabamba) e áreas de agreste em regiões subtropicais ou em parte superior de selva como as de Irupana, Chulumani e Coroico (La Paz).

Nestas áreas, algumas das mais povoadas na Bolívia naquela época, as atividades econômicas moviam-se entre a agricultura, de diversas variedades como batata, milho, coca, frutas, rebanho bovino e ovino, exploração de minas e o comércio impulsionado por um setor que era de vital importância: os carregadores.

O conhecimento que os guerrilheiros tinham da área e das características de seus habitantes, costumes, cultura, caráter, era completo, em boa parte porque eles eram provincianos das diversas áreas de influência. Jamais foram vistos como estranhos pela população dos diferentes palcos, que, pelo contrário, em muitos casos foram sua fonte de abastecimento de produtos alimentícios, mas principalmente de militantes guerrilheiros.

A guerrilha estabeleceu como principal base de operações o povoado de Ayopaya, situado na atual provincia Independência de Cochabamba e o povoado de Sica Sica; o primeiro dedicado a atividade mineira e a agricultura em lugares de fronteira. O segundo, à agricultura e ao rebanho, sendo o ponto horizontal intermediário entre ambas localidades e também de grande importância, a província de Inquisivi, que era o ponto vertical intermediário entre o trânsito do comércio da folha de coca (Chulumani, Coroico, Irupana, além das provincias de Los Yungas, de La Paz) até as minas de prata de Potosí, onde servia de calmante aos mitayos1, submetidos a condições de trabalho desumanas. As temperaturas nestes palcos são bem diferentes, pois vão desde 5 graus negativos até próximo de 30 graus; já que a alta planície boliviana se caracteriza por ser uma área fria, se extendendo de maneira uniforme la paja brava (espécie de pasto do lugar), em contraste com os vales de temperatura moderada, caracterizados por suas terras férteis e muito mais ainda com o trópico yunguenho onde é típico o verde de sua vegetação e as altas temperaturas.

Participantes Principais

A força principal que sustentou a guerrilha era constituída por aymaras, quechuas e mestiços. De fato, os três generais que de 1814 a 1825 encabeçaram as tropas: Lira, Chinchilla y Lanza, também foram mestiços e, como menciona muito bem Charles Arnade, o que também se depreende do diário, foi a tropa que tomou a decisão de eleger quem estivesse à frente, em determinado momento.

Como explicávamos nas linhas anteriores, o cenário geográfico era diverso e, como ele, o panorama étnico e cultural em certa medida também era, porque nestas regiões as expressões se davam em espanhol, aymara ou quechua, de acordo com sua extensão. Há alguns anos, a antropóloga inglesa Alisson Spedding fez um estudo sobre a transição étnica na província Inquisivi sendo um de seus descobrimentos a existência de áreas bilíngues ou trilíngues nesta província de La Paz, que é vizinha do departamento de Cochabamba; as pessoas que assumiram o papel de direção na guerrilha dominavam os três idiomas, incluído o próprio Tambor Vargas, que em alguns fragmentos de seu diário escreve em aymara para citar algumas frases de alguns guerrilheiros.

Os oponentes estavam compostos por espanhóis, filhos de europeus nascidos em outras partes do mundo, mestiços e, em alguns casos, índios realistas, como chama atenção Tambor Vargas; a distribuição do exército real oscilou entre tropas de 300 a 800 homens, muito bem apetrechados, a maioria com armas de fogo. A guerrilha contava entre 20 a 180 homens, a grande maioria ia a pé e continha somente lanças e pedras como armamento.

Objetivos da guerrilha

Estabelecer os objetivos da guerrilha não é uma tarefa fácil, já que em todo momento Tambor Vargas aponta em seu diário que o ideal que os movia era a liberdade da “Pátria”, todavia é impreciso para o leitor algo que Tambor assumia como compreensível, porque naquela época, segundo o diário, havia uma coordenação entre a guerrilha e as Províncias Unidas, como era denominada a Argentina logo após se separar da Coroa Espanhola, e ao finalizar o diário é mencionada, numa linguagem confusa, a vitória na Batalha de Ayacucho (não de forma expressa) e a sensação de independência. Alguns historiadores falam de certa consciência latino americana naqueles tempos, mas fundamentalmente dos países que estavam sob o domínio da coroa Espanhola, isto é ,toda ibero américa, exceto o Brasil. A aproximação se complica quando Tambor faz menção, muitos anos depois, em 1852, que tal guerrilha contribuiu para a libertação da Bolívia. O que podemos concluir é que a princípio não havia a idéia de independência da Bolívia como país em si, somente havia uma consciência de Pátria que se estendia a todo conglomerado ibero-americano com a ressalva já feita, a apresentação e avaliação dos resultados de Tambor: de que a Bolívia como a “Pátria”, é o resultado e o produto da rebelião, o que se deve a outros rumos que a história de nossos povos assumiram, onde se preferiu a fragmentação à conformação de uma só República Latino Americana, fato que merece uma consideração especial.

Táticas guerrilheiras

O manejo dos caminhos como aspecto fundamental que definia o acionar da guerrilha, a fácil adaptação, tanto étnica como cultural, com os habitantes dos povoados que se encontravam na área de influência guerrilheira, garantiam duas questões fundamentais: a) conhecer a si mesmo, que, como dizia Sun Tzu em seu Arte da Guerra , garantia a metade da vitória, e b) se moverem como peixes na água, como ensina Mao Tsetung.

Estas circunstâncias, garantiam que se mobilizassem de maneira flexível e heterodoxa nos distintos cenários, optando algumas vezes pelo enfrentamento armado, outras pela emboscada, as táticas envolventes, nas quais se cercava ao oponente aproveitando ao máximo as características das áreas, e aniquilá-los.

Noutras oportunidades, preferiu-se a retirada, onde a possibilidade de uma iminente derrota na confrontação com o Exercito Real ou a hostilização ou perseguição do oponente quando as condições se mostravam favoráveis à guerrilha.

Outro aspecto importante constitui a forma de abastecer-se de armas. No geral, era pouco o armamento com que se contava. Os índios, como já havíamos mencionado eram os que costumavam ir à pé, mas munidos de lanças, pedaços de pau e pedras. De fato, nos relatos comenta-se, como anedota, que com a utilização de uma funda atingiram ao comandante da tropa real, derrubando-o ao solo, quase morto. O Diário não se preocupa em contar versões épicas ou idílicas, um tipo de separação simplista entre bons e maus. Pelo contrário, conta a experiência da confrontação guerreira com todos seus horrores e crueldades; fala dos excessos tanto das tropas reais como das guerrilheiras; de como pode ser cruento o acionar do Homo belicus no fragor do combate. E que, sendo a guerra um estado de exacerbação e aceleração da adrenalina, as preocupações éticas nas ações dos que participam em uma conflagração não tem sustentação material, pois em uma guerra quem não mata, morre. E como diria o Tambor Mayor Vargas “Morriemos si somos zonzos”2

 


Nota da Redação:
1 Mitayos - Os mitayos eram os indígenas recrutados à força pelos espanhóis para o trabalho mineiro Mita - Era o labor compulsório que os índios eventualmente deviam realizar em certas circunstâncias, similar à corvéia, o trabalho gratuito que o servo medieval devia prestar ao seu senhor. Mas os espanhóis transformaram a mita numa servidão. Especialmente depois da descoberta das minas do Potosí, em 1545, coube aos caciques convocarem nas aldeias os índios que lá eram obrigados a minerar por um ano. Sendo que as despesa da viagem e da manutenção ficavam por conta do dono. Obrigação que nem sempre era praticada, dando margem a atos de desconformidade e rebeldia. Em 1574 o vice-rei do Peru, Francisco de Toledo, fixou as 16 províncias mitayas que deveriam contribuir com mão-de-obra para trabalharem a quase quatro mil metros de altitude, oficializando assim a prática do trabalho servil.
2 Morreremos se formos tontos.

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