Eleições lá e cá

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Os resultados das eleições municipais no Brasil e das nacionais nos EUA refletem o predomínio, quase que absoluto, da oligarquia econômica. A questão é esta: as estruturas partidárias e a mídia barram o surgimento de quem quer que tenha a pretensão de trabalhar em favor do bem comum. A organização social está a serviço do poder oligárquico, exclusivista, concentrador de poder, e este trata de fechar qualquer brecha através da qual essa situação possa ser modificada.

Nos EUA, os dois partidos dominantes divergem em matérias secundárias e só nos detalhes das questões centrais. Os comentaristas falam de "revolução conservadora" e outras baboseiras, mas o principal fator explicativo da reeleição do atual presidente é a falta de opção do eleitorado.

As plataformas dos candidatos "democratas" (já fora assim com Gore):

1 nada de convincente oferecem para reverter as distorções da economia que privilegiam os manipuladores financeiros em detrimento da sociedade;

2 nada propõem para alterar a postura imperialista: não enfrentam as companhias de petróleo nem as produtoras de armas, nem as demais empresas concentradoras, determinantes das políticas belicista e de hegemonia econômico-financeira;

3 não querem saber de real desenvolvimento econômico e social;

4 têm subjacente a falsa crença de que a predação no exterior seja mais vantajosa do que aquele desenvolvimento.

O "elevado" comparecimento não significou mais que 56,2% dos cidadãos em idade eleitoral. Que vale a margem de 3%, de Bush sobre Kerry, diante dos 43,8% ausentes? Tal como a esmagadora maioria dos que votaram, os ausentes são despolitizados por meio da desinformação e da alienação geradas pela TV e demais instrumentos da mídia. E, ainda que lhes reste alguma consciência política, esta fica sem objeto diante da falta de opções reais entre os candidatos. De qualquer forma, o Partido "Democrata" venceu o "Republicano" nos Estados habitados em maior proporção por gente instruída e menos influenciada pelo fundamentalismo evangélico.

Onde está a democracia nisso tudo? A pergunta é relevante até para percebermos que o discurso pró-democracia da política exterior norte-americana não passa de insidioso pretexto para intervir nos negócios internos de outros países, em favor do projeto hegemônico das transnacionais, a ponto de os EUA terem feito aprovar na OEA resoluções para fundamentar intervenções armadas em países do Continente que se libertem da subjugação. Ora, isso só é possível deixando de lado o simulacro indevidamente chamado de regime democrático, conspurcado pelos vícios apontados e, ademais, pelas fraudes, agora facilmente proporcionadas pelo sistema eletrônico de votação.

As eleições da periferia não diferem, em substância, das da metrópole. Elas não só defraudam a vontade popular, mas asseguram que os interesses nacionais sejam desatendidos. Nas eleições municipais deste ano, verificou-se o repúdio do povo ao partido que assumiu, em 2003, o governo federal mediante propaganda enganosa. Entretanto, a dimensão desse resultado positivo é menor que a do efeito profundamente negativo: o ressurgimento do partido que, durante oito anos, até 2002, presidiu à maior devastação econômica e social jamais sofrida pelo País em toda a sua História. Pior: o problema não reside só no PT e no PSDB, os quais são, na prática, um partido único (o que é sabidamente antidemocrático). Outras siglas tampouco passam de facções desse partido único, representativo de interesses estrangeiros hegemônicos. Pouquíssimos, quase invisíveis, são os políticos discordantes da condução teleguiada, desde o Hemisfério Norte, da política econômica, que condena o País à futura condição de gigantesco Haiti.

O poder econômico está nas mãos de empresas, com matrizes no exterior, que exercem controle totalitário sobre a sociedade e suas instituições políticas. Por meio de pressões financeiras e também jurídicas — já que as leis são feitas ao talante das transnacionais — os políticos submetem-se à constrangedora subordinação àquele sistema de poder. Podem aparecer exceções, líderes capazes de enfrentar todas as pressões, com escassos meios, mas esses têm de fazer o quase impossível para escapar às ações destruidoras dos representantes locais do sistema concentrador, incrustados no Estado, na mídia, nas corporações financeiras e nas ONGs.

A "reforma política", em discussão no Congresso, não promete melhorar as regras do jogo. Ao contrário, envolve a possibilidade de tornar a estrutura política ainda mais fechada a perspectivas interessantes para o País.


* Adriano Benayon, Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Autor de Globalização versus Desenvolvimento
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