Os intelectuais sob a Espanha de Franco e o Brasil de Bolsonaro

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Começo esse artigo com uma transcrição do livro La Guerra Civil Española de Hugh Thomas1 que retrata episódio ocorrido em outubro de 1936 na Universidade de Salamanca.

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Miguel de Unamuno desafiou os fascistas espanhóis
Miguel de Unamuno desafiou os fascistas espanhóis

“O filósofo basco Miguel de Unamuno, maior expoente da geração de 1898, no início da Guerra Civil estava desiludido com a República e deu ajuda financeira para Franco e sua horda fascista. No entanto em 12 de outubro de 1936 mudou de opinião. Estava como disse ‘apavorado pelo aspecto que estava tomando aquela guerra civil, realmente horrível, devido a uma enfermidade mental coletiva, a uma epidemia de loucura, com um substrato patológico’. Nesta data, aniversário do descobrimento da América por Cristóvão Colombo, comemorava-se na Espanha fascista a ‘Festa da Raça’ e ocorreu uma celebração na Universidade de Salamanca, presidida por Unamuno, então reitor da instituição. Os discursos durante a solenidade se pautaram pelo ataque violento ao nacionalismo basco e catalão descrito pelos oradores como cânceres no corpo da nação. Os oradores advogavam o fascismo como o sanador da Espanha, capaz de extrair cortando em carne viva os cânceres, como um cirurgião obstinado, livre de falsos sentimentalismos. Dentre os fascistas presentes na ocasião, um chamava atenção por seu aspecto: tapa olho, um único braço e dedos mutilados. Era Millán Astray, o fundador da legião estrangeira e assessor direto de Francisco Franco. Após os discursos inflamados alguém no fundo da audiência gritou: ‘Viva a morte!’, ao que Millan Astray gritou de volta: ‘Espanha!’, ao que um grupo gritou: ‘Uma!’. Astray de novo gritou: ‘Espanha!’ e o auditório respondeu: ‘Grande!’. E finalmente Astray deu o grito final: ‘Espanha!’ ao que seus seguidores gritaram: ‘Livre!’. Vários falangistas, com suas camisas azuis, fizeram a saudação fascista diante da fotografia de Franco, que estava pendurada na parede.

Nesse momento os olhos de todos se voltaram para Unamuno que nutria, como todos sabiam, grande antipatia a Millan Astray e que por questões protocolares deveria finalizar a cerimônia com um discurso. O Professor Unamuno iniciou então seu discurso: ‘Estão esperando minhas palavras. Todos me conhecem bem e sabem que sou incapaz de permanecer em silêncio. Às vezes ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser interpretado como concordância. Quero fazer alguns comentários sobre as falas ditas aqui. Vou deixar de lado a ofensa pessoal colocada contra os bascos e catalães. Eu mesmo, como sabem, nasci em Bilbao. O bispo (presente na reunião e para quem Unamuno apontou o dedo), queira ou não queira, nasceu em Barcelona’.

Fez uma pausa e o ambiente e cobriu-se um silêncio carregado de temores. Nunca havia sido feito um discurso como aquele na Espanha fascista.

E continuou o reitor: ‘Mas agora acabo de ouvir o necrófilo e insensato grito: ‘Viva a morte!’. E eu que passei minha vida compondo paradoxos que excitavam a ira de alguns que não os compreendiam, tenho que dizer a vocês, como especialista na matéria, que esse ridículo paradoxo é repulsivo para mim. O general Millan Astray é um inválido. Não é preciso que digamos isso em voz baixa. É um inválido de guerra, assim como o foi Cervantes. Mas, desgraçadamente, na Espanha existem muitos mutilados. E se Deus não nos ajudar, daqui a pouco haverá muitos mais. Me atormenta pensar que o general Millan Astray possa ditar as regras da psicologia de massa. Um mutilado que carece da grandeza espiritual de Cervantes, é de se esperar que encontre um terrível alívio vendo como se multiplicam os mutilados ao seu redor’.

Neste momento, Millan Astray não pode se conter por mais tempo e gritou: ‘Morte aos intelectuais! Viva a morte!’, grito repetido pelos fascistas presentes.

Mas Unamuno continuou: ‘Este é o templo da inteligência (Universidade de Salamanca). E eu sou seu sumo sacerdote. Estão profanando este sagrado recinto. Vocês vencerão porque têm força bruta de sobra. Mas não convencerão a ninguém. Para convencer é preciso persuadir. E para persuadir necessitarão de algo que lhes falta: razão e direito na luta. Me parece inútil pedir a vocês que pensem na Espanha. Tenho dito’.

Se seguiu uma grande pausa. Alguns fascistas iniciaram um movimento para atacar a Unamuno. O guarda pessoal de Millan Astray apontou sua metralhadora para o reitor. A mulher de Franco, presente na cerimônia, se aproximou de Unamuno e pediu que ele lhe desse o braço e os dois saíram juntos do auditório, lentamente.

A partir desse dia, Unamuno não saiu mais de casa. Guardas armados mantinham o posto em sua residência. Estava em prisão domiciliar. A administração da Universidade de Salamanca ‘pediu’ e obteve de Franco a sua demissão do cargo de reitor.

Morreu em 31 de dezembro de 1936.

A tragédia dos últimos dias de Unamuno foi uma expressão natural da tragédia da Espanha, onde a cultura, a eloquência e a criatividade estavam sendo destruídas pelo militarismo, a propaganda e a morte. Pouco tempo depois, os fascistas criaram um campo de concentração para prisioneiros comunistas e republicanos e lhe deram o nome de Unamuno.”.

Relembrar o ocorrido há mais de 80 anos, durante a Guerra Civil Espanhola, é importante para entender os desafios atuais. As hordas reacionárias estão em polvorosa com a ascensão de um fascista requentado à gerência do falido Estado brasileiro. Bolsonaro, assim como Millan Astray, grita, em alto e bom som, todos os dias: “Morte aos intelectuais! Viva a morte!”. Ao lado dele está o seu time de ministros: quadrilha de coturnos, terra-tenentes, recrutas do imperialismo ianque, rasputins2 e rasputinas e torquemadas3 do século XXI. Sob a égide do bolsonarismo a violência contra os trabalhadores, mulheres, negros, favelados, intelectuais, enfim, contra o povo, só tende a aumentar. Os números da violência no Brasil confirmam: vivemos uma guerra civil em que mais de 60 mil pessoas são assassinadas por ano, o que equivale a uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil pessoas (30 vezes maior que a da Europa)4

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