Ex-funcionário denunciou espionagem da Vale contra movimentos populares

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A Agência Pública, denunciou que a empresa Vale S.A. – responsável pelo crime em Brumadinho (MG) em 25 de janeiro de 2019 – realiza espionagem de lideranças de movimentos populares, funcionários e jornalistas, além de pagamento de propina a agentes da Polícia Federal e outros órgãos públicos em prol de seus interesses econômicos. Tais denúncias foram feitas por André Luis Costa de Almeida, ex-funcionário da Vale por oito anos, e divulgadas na matéria intitulada Vale espiona movimentos sociais, sindicatos e funcionários, da jornalista Marina Amaral, em 13/09/2013.

Agência Pública
Vale infiltrava policiais como fotógrafos em protestos, com ajuda de generais. Foto tirada por agente
Vale infiltrava policiais como fotógrafos em protestos, com ajuda de generais. Foto tirada por agente

Segundo a matéria, “André contou a história que o levou à Vale depois de 8 anos de Exército, convidado por um colega de CPOR [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva], Ricardo Gruba, depois diretor do departamento de Segurança Empresarial: a central de espionagem da Vale, que emprega cerca de 200 funcionários e utiliza quase 4 mil terceirizados (os números foram fornecidos por André, a Vale não disponibiliza a informação)”.

O texto prossegue apontando que André contou ter se responsabilizado “pessoalmente pela instalação de grampos nos telefones de dois funcionários, um deles o gerente-geral de imprensa, Fernando Thompson, e revelou a existência de uma série de dossiês contra lideranças sociais, como o advogado Danilo Chammas e o padre Dario, da ONG Justiça dos Trilhos, de Açailândia, Maranhão; o premiado jornalista Lúcio Flávio Pinto, crítico aguerrido da atuação da empresa no Pará; Raimundo Gomes Cruz Neto, sociólogo e agrônomo do Centro de Educação, Pesquisa, Assessoria Sindical e Popular (Cepasp), em Marabá (PA); Charles Trocate, líder do MST, e até da presidente Dilma Rousseff, quando ela era ministra das Minas e Energia”.

Ainda de acordo com a reportagem de Marina Amaral, um ano depois de ser demitido, “André Almeida entrou com uma representação no Ministério Público Federal [MPF] afirmando que ‘participava de reuniões, recebia relatórios e era informado formal e informalmente de diversas situações que considero antiéticas, contra as normas internas e/ou ilegais’, admitindo que ‘por pressão sobre o meu emprego, me sujeitei a executá-las’, e anexando demonstrativos de notas fiscais que descrevem entre os serviços contratados pela Vale à empresa de inteligência Network, do Rio de Janeiro: a infiltração de agentes em movimentos sociais (no Rio, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará e Maranhão); o pagamento de propinas a funcionários públicos (para obter informações de apoio às ‘investigações internas’, na Polícia Federal e em órgãos da Justiça em São Paulo); quebra de sigilo bancário e da Receita (de funcionários, até mesmo diretores), ‘grampos telefônicos’ (entre eles o da jornalista Vera Durão, quando ela trabalhava no jornal Valor Econômico), ‘dossiês de políticos’ (com informações públicas e ‘outras conseguidas por meios não públicos’ sobre políticos e representantes de movimentos sociais)”.

“Segundo o ex-funcionário, sempre na busca por lucros e com o intuito de neutralizar quem pudesse expor as violações de direitos humanos cometidas para esse enriquecimento – como os acidentes nos trilhos da Vale, sempre classificados como suicídios, isentando-a de pagar multas –, propinas eram pagas a funcionários de órgãos de segurança do governo, sigilos bancários eram quebrados, informações sigilosas do sistema Infoseg, do governo, eram acessadas e grampos telefônicos e dossiês contra políticos e representantes de movimentos sociais eram elaborados.”, apontou nota publicada na página senado.jusbrasil.com.br.

Espionagem contra organizações

Ao abordar as organizações e entidades, a reportagem da Agência Pública apontava que o “MST [Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] ainda é o principal alvo da segurança da Vale, ao lado da rede Justiça nos Trilhos, sediada em Açailândia, no Maranhão, que reúne diversas entidades de direitos humanos em defesa da população atingida pelas atividades do polo exportador”.

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“Há mais de 2 anos, a rede trava uma batalha judicial com a Vale contra as obras de ampliação da ferrovia – feitas sem licenciamento ambiental – para escoar a produção em expansão das minas de Carajás, impactando ainda mais a vida das comunidades que vivem no entorno dos trilhos por onde circulam gigantescas composições ferroviárias, de 9 a 12 vezes por dia, cortando reservas ambientais e território indígena e quilombola.”, informa a jornalista Marina. Os acidentes ferroviários teriam sido os principais motivos de manifestações na época.

Ressalta-se que a rede Justiça nos Trilhos foi uma das articuladoras do movimento Atingidos pela Vale, que contou com a participação de ativistas populares de vários estados e, inclusive, de outros países que contam com a presença da Vale. Tal articulação rendeu à empresa o indigno troféu de “Pior Empresa do Mundo” no ano de 2012, que foi entregue ao então presidente Murilo Ferreira.

Aponta a reportagem: “O planejamento da Vale é dividido em Sistema Norte – que engloba as minas de Carajás de onde são extraídas 90 milhões de toneladas de minério de ferro de alta qualidade, exportado para a Ásia pelo complexo ferro-portuário Estrada de Ferro Carajás – que vai das minas ao terminal de exportação da Vale próximo São Luís do Maranhão; e Sistema Sul, que tem como coração a extração de minério em Minas Gerais, mais da metade da produção total da Vale, levado pela Estrada de Ferro Minas-Vitória até o porto de Tubarão, no Espírito Santo”. E prossegue:

“Do ponto de vista da segurança, o escritório Norte é o mais problemático por envolver uma grande extensão de território – entre a ferrovia e o porto são quase 900 quilômetros, cortando áreas indígenas, quilombolas e de outras populações tradicionais. Por isso, foi ali que o atual diretor de Segurança Empresarial da Vale, o cadete-aviador Gilberto Ramalho, começou a montar o modelo de vigilância da empresa na ditadura militar, quando ainda era gerente e o polo exportador na Amazônia passou a operar, em 1985.”.

“Ramalho é um dos funcionários mais antigos da Vale e continua influente na região. De acordo com André Almeida, embora estivesse atuando como gerente em Minas Gerais quando ocorreu o Massacre de [Eldorado de] Carajás, em 1996, teria sido ele o negociador da operação policial que resultou no assassinato de 19 sem terra [referindo-se aos camponeses pobres] – nos autos do processo do massacre, a Vale aparece como financiadora da operação, destinada a liberar a passagem dos caminhões da empresa (as minas ficam a cerca de 90 quilômetros do local do crime), obstruída pelos manifestantes atacados pela polícia.”.

Estes e outros fatos reforçam categoricamente o que temos afirmado sobre a condição semicolonial de nosso país por se tratar de uma companhia cujos maiores acionistas são estrangeiros que exploram nosso território, assassinam nosso povo, companhia que não é punida e ainda espiona aqueles que honestamente ousam contestar suas jogadas. Diante do hediondo crime cometido pela Vale em Brumadinho – fato que obteve ampla repercussão internacional –, recomendamos nossos leitores e leitoras que leiam a matéria da Agência Pública*.


Nota

* Reportagem completa neste link: www.terra.com.br/noticias/brasil/vale-espiona-movimentos-sociais-sindicatos-e-funcionarios-dizdossie,5a17bdbb5c811410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

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