Editorial - Quem governa o país?

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Os primeiros trinta dias de governo evidenciaram em fatos toda a inconsistência de Bolsonaro e sua camarilha, ao tempo que se comprova ser seu governo um biombo constitucional donde oculta-se o golpe militar contrarrevolucionário preventivo, desatado pelo Alto Comando das reacionárias Forças Armadas. Os meses seguintes tratarão de deixar patente que Bolsonaro só pode desempenhar o papel de máscara de proa, e ainda assim, até onde e enquanto for útil.

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A começar pela questão básica tão enfatizada em suas promessas de mudar “tudo que está aí”. Apurações de irregularidades com dinheiro público envolvendo o filho, o senador Flávio Bolsonaro e seu relacionamento com chefes de milícias do Rio de Janeiro, já dividiram o próprio núcleo bolsonarista. O besteirol exibido por colaboradores em nível de ministério, como os ministros Damares Alves e Ernesto Araújo, este último ministro das Relações Exteriores, ambos que insistem em dar prioridade a questões ideológicas como o que chamam de  “questão de gênero”, “politicamente correto”, “marxismo cultural” e a “Escola sem Partido”, só serve de cortina de fumaça para encobrir as tratativas para passar a “reforma da previdência”, além de chocar com a pauta de Paulo Guedes. A defesa aberta por Bolsonaro da transferência da Embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém e da instalação em território brasileiro da base militar do USA custou-lhe contestação e desmentidos por subalternos e comandantes. A mudança da Embaixada foi esvaziada acintosamente pelo vice, general Mourão, enquanto recebia representantes de países árabes. A base do USA gerou irritações, a ponto de provocar verdadeira passagem de pito público ao presidente do país, por abrir totalmente o jogo secreto do Alto Comando militar.

Outra faceta é o distanciamento da imprensa gerado pela persistência de se comunicar com seu público de repassadores aloprados via internet, comandado pelos “garotos” de Bolsonaro, crias medonhas de Olavo de Carvalho.

Coisas assim distraem a atenção da opinião pública, dos comentaristas e analistas da política mundana, enquanto o governo, nos bastidores e de fato, se impõe.

Situação esdrúxula que é aproveitada pelo general Mourão para ampliar sua presença no governo, dispensando atenção a jornalistas, fazendo inclusive correções a declarações de Bolsonaro e sua camarilha em confabulações com correspondentes estrangeiros. O general Mourão das declarações na Maçonaria – em que  pregou golpe militar, defendeu uma nova constituição elaborada por notáveis e outras pérolas do reacionarismo, como apoiar uma intervenção militar na Venezuela – repentinamente deu lugar a um Mourão moderado e comedido. Tal transmutação só cabe ser concebida como produto de importante orientação, ou melhor, de uma ordem. É mais um passo ofensivo na usurpação do governo Bolsonaro pelo Alto Comando militar, medida em prol de minimizar estragos que poderão desgastar, mais cedo que se imagina, o iniciante governo.

Entre pequenos choques e trombadas vai se confirmando a desconfiança que o Alto Comando das Forças Armadas reacionárias sempre nutriram a respeito do capitão, que fora há mais de três décadas reformado por questões disciplinares. A propósito, Bolsonaro na verdade foi afastado, por sua ligação com ações terroristas da extrema-direita em represália à chamada “abertura” do regime; ações que ele procurou vincular a reivindicações da tropa, na tentativa de usar descontentamentos corporativos dos militares como protestos contra o fim do regime fascista iniciado em 1964. E foi uma chicana no Superior Tribunal Militar que livrou Bolsonaro de medida extrema de punição, possibilitando seu ingresso na política eleitoreira, na qual promoveu sua carreira de mais de 30 anos de político profissional, notavelmente medíocre até então.

Sete ministros de Bolsonaro são militares, e quando o ministro é civil há um militar como secretário geral do ministério. Áreas estratégicas do Estado e, particularmente, postos chaves da operacionalidade de governo estão sob o controle absoluto do Alto Comando das Forças Armadas. O golpe militar contrarrevolucionário preventivo foi desatado bem antes do processo eleitoral, se instalando neste governo (que não foi de sua escolha) como produto das circunstâncias e transitoriamente tomando a forma de um governo sufragado nas urnas da farsa eleitoral. Trata-se de necessidade imperiosa das classes dominantes e do imperialismo, pela salvação do secularmente vigente sistema de opressão e exploração do povo e de subjugação nacional, ameaçado em seu funcionamento pela grave crise econômica, política, moral e social. 

A conformação e funcionamento do governo, por detrás de todo o cacarejo sobre “reformas” necessárias e salvadoras, em meio das trapalhadas e revelações de escândalos que envolvem o clã Bolsonaro e sua camarilha, abrigam uma disputa interna sobre o regime a ser estabelecido. A visão fascista e messiânica do presidente eleito apresenta-se demasiadamente temerária aos Altos Mandos militares, pois expõe crua e descaradamente o jogo pró-ianque. Em sua missão, o governo militar secreto, que os Altos Mandos operam, maneja para que o golpe contrarrevolucionário tenha o máximo de cobertura e aparência legal, de modo a não precipitar a ampliação do campo de resistência a ele.

Ao contrário do que se procura fazer crer, a grave crise em que se arrasta o país há mais de cinco anos não encerrou-se com as eleições, ela apenas mudou sua qualidade. Aprofundou-se, trazendo para seu centro as Forças Armadas, por meio do plano golpista de seu Alto Comando, que empalmou o governo. As pugnas entre as frações das classes dominantes locais, em meio e como parte da formidável crise geral, não pode mais ser resolvida via eleições. Daí que se desatou o golpe militar buscando ocultar-se na forma de um governo constitucional.

Dentro da crise geral que vive o imperialismo e o país, o imperialismo ianque incrementa sua militarização no continente e impõe a este malfadado governo levar a cabo três tarefas reacionárias, urgentes e incontornáveis: 1) tirar o país da crise e impulsionar seu caduco capitalismo burocrático; 2) reestruturar o velho Estado conformando o regime de centralização máxima do poder no Executivo (presidencialismo absolutista); e 3) conjurar o perigo de revolução e, se ela eclodir, aplastá-la prontamente a ferro, fogo e sangue.

A fração compradora da grande burguesia brasileira predomina no governo com Paulo Guedes, porém confronta-se com a resistência da fração burocrática ao propósito do superministro de reformar o Estado cartorial, privatizar bancos estatais e empresas do setor de energia, bem como na pertinácia da cúpula militar por manter os privilégios previdenciários dos Altos Escalões da Força, altamente dispendiosos ao erário. O outro superministro e americanófilo Moro enviou seu pacote de endurecimento do Código Penal para elevar as penas, aumentar o encarceramento de contingentes ainda maiores da população empobrecida e de cerco às práticas corruptas inerentes ao sistema e das quais a canalha eleitoreira não renuncia. Logo tipificará de terroristas organizações políticas e movimentos populares revolucionários.

Estas e outras contradições internas do governo, que obrigatoriamente se refletem no Congresso, já no decorrer dos próximos meses de embates da “reforma da previdência” provocarão sérias dores de cabeça aos que, de fato, governam o país. A aplicação de mais medidas anti-operárias e vende-pátria, bem como a repressão à luta popular, agravarão a crise política.

Do lado do povo, inclusive da minoria que elegeu Bolsonaro, a desilusão faz-se cada vez que o bolsonarismo anuncia em medidas uma administração voltada aos interesses dos mais ricos, do sistema financeiro internacional e da expansão militar do imperialismo ianque, revelando ser a mesma velha política de sempre. Os trabalhadores vão tomando consciência desta realidade, buscando formas de protesto e de se preparar para grandes combates, a começar pela proposição da greve geral de resistência ao assalto a seus direitos.

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