Quem matou Marielle e Anderson

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No último dia 12/03, faltando pouco mais de 48 horas para que se completasse um ano do assassinato de Marielle e Anderson, dois suspeitos foram presos pelo crime: Ronnie Lessa, policial militar reformado, que teria efetuado os disparos, e Élcio de Queiroz, ex-policial expulso da corporação em 2015, suposto motorista do Cobalt prata clonado usado no crime. Num dos endereços vinculados àquele, foram encontrados 117 fuzis desmontados. Ronnie, mesmo recebendo um módico soldo como sargento, morava em luxuoso condomínio de casas da Barra da Tijuca, onde contava com um vizinho ilustre: Jair Bolsonaro. A propósito, o delegado titular da Delegacia de Homicídios, Giniton Lages, afirmou durante entrevista coletiva que o filho caçula de Bolsonaro, Jair Renan, namorou uma filha de Ronnie. Um dia depois, o delegado foi afastado do caso.

Rodrigo Duarte Baptista
https://anovademocracia.com.br/221/16.jpg (foto: Rodrigo Duarte Baptista)
Manifestação exige justiça para Marielle e Anderson e o fim da intervenção militar no RJ, 20/03/18

Ronnie, depois de servir ao Exército, foi incorporado a PMERJ em 1992, especificamente no 9° Batalhão (Rocha Miranda), que um ano depois ficaria mundialmente conhecido porque de lá saíram os PMs condenados pela chacina de Vigário Geral; neste mesmo batalhão, ele serviria sob o comando do tenente-coronel Cláudio Luiz Silva de Oliveira, que cumpre pena pelo assassinato da juíza Patrícia Acioli; depois, Ronnie serviria como adido à Polícia Civil em diversas delegacias especializadas, inclusive, na Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae). Há dez anos, ele perdeu uma das pernas num atentado a bomba à sua picape Hilux, na zona norte do Rio, quando trabalhava como segurança do bicheiro Rogério Andrade e sua família (um ano depois, o filho de Rogério seria morto por uma bomba instalada no carro do seu pai) [1]; há poucos meses, já depois do assassinato de Marielle, ficou entre a vida e a morte após receber um tiro no pescoço, no que foi registrado como tentativa de assalto.

É a vida de um mercenário, da qual tiramos uma conclusão cristalina, que o circo mal armado da entrevista coletiva não foi capaz de esclarecer: Ronnie não cometeria um “crime de ódio”. Matar, para ele, não é impulso, é profissão. Portanto, alguém o contratou.

Contudo, independentemente dos caminhos ou descaminhos que a investigação tome daqui em diante, de um ponto de vista histórico resta claro, claríssimo, quais forças sociais cometeram este crime. Aqui, não cabe dúvida razoável.

Quem matou Marielle e Anderson foram os mesmos que torturaram e assassinaram milhares de dissidentes durante o regime militar. A estrutura policial que conhecemos hoje, aliás, foi forjada neste período, e a cultura do extermínio foi encorajada pela impunidade absoluta dos carrascos fardados depois da “redemocratização”.

Quem matou Marielle e Anderson foi cada promotor, juiz, delegado, acadêmico, que legalizou com suas canetas com tinteiros de sangue os disparos efetuados pelas polícias nos becos e vielas desassistidos deste imenso país. Estes senhores “respeitáveis” são de fato coautores de grande parte dos 63 mil homicídios anuais que nos tornam uma sociedade em estado de guerra permanente contra os pobres, os pretos e os jovens.

Quem matou Marielle e Anderson foram os responsáveis pela intervenção militar no Rio, que deixou como legado o recorde de assassinatos em decorrência de ação policial. O Haiti é mesmo logo ali, na Maré ou no Complexo do Alemão.

Quem matou Marielle e Anderson foi a mesma “grande imprensa” que, agora na oposição, tenta dar um verniz “crítico” à sua linha editorial, grandemente responsável pela fabricação da histeria fascista nos últimos anos, na sua cobertura louvando as ações do BOPE, aceitando sem contestar as versões da polícia sobre “autos de resistência”.

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